Defesa & Geopolítica

O Estilo de Guerra Francês

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Um soldado francês da Operação Barkhane em um veículo blindado em Timbuktu, 5 de novembro de 2014.

Tradução: Filipe do Amaral Monteiro

Por Michael Shurkin*
As forças armadas da França podem sofrer de uma má reputação no imaginário popular americano, datando de eventos históricos como a queda rápida diante da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial e a derrota na época colonial em Dien Bien Phu. Isto é um erro: Os ataques aéreos franceses às posições do Estado Islâmico na Síria são apenas o começo do contra-ataque contra o EI, como os próprios oficiais franceses estão prometendo. E como qualquer pessoa familiarizada com as capacidades militares da França pode atestar, quando se trata de guerra, os franceses estão entre os melhores dos melhores.
Além disso, o que quer que seja que a França faça provavelmente não se parecerá com nada que os EUA façam. Há um estilo de guerra francês que reflete a falta de recursos das forças armadas francesas e seu modesto senso do que pode realizar. Eles se especializam em operações cuidadosamente divididas e geralmente pequenas, porém letais, geralmente nos bastidores; elas podem ser maiores se tiverem ajuda dos EUA e de outros aliados – o que eles provavelmente terão em qualquer caso e sabem como fazer bom uso.
Emblemática da abordagem francesa foi a intervenção militar da França na República Centro-Africana em março de 2007. Para impedir um avanço rebelde que se aproximava rapidamente do país proveniente da fronteira sudanesa, os franceses atacaram usando um único avião de caça e duas ondas de pára-quedistas, totalizando não mais do que “poucas dúzias” que saltaram na zona de combate na cidade centro-africana de Birao. Em termos militares, o que os franceses fizeram foi uma picada de agulha, mas foi suficiente para quebrar o avanço rebelde como colocar uma pedra no caminho de uma onda. Era, além disso, uma coisa arriscada de se fazer:
Os assaltos aerotransportados são intrinsecamente perigosos, ainda mais quando se tem pouca capacidade de reforçar ou retirar os soldados levemente armados em uma emergência. A primeira onda de “menos de 10” soldados supostamente fez um salto de alta altitude. Além disso, as forças armadas francesas fizeram tudo isso silenciosamente, com a imprensa francesa apenas tomando conhecimento da intervenção algumas semanas depois do fato.
A intervenção da França no Mali em janeiro de 2013 também ilustrou esses atributos amplamente. Por um lado, os franceses exibiram capacidades de alta qualidade em armas combinadas e de fogo e movimento “conjunto”, o que significa que fizeram uso de tudo que tinham em mãos – forças especiais e forças convencionais, tanques e infantaria, artilharia, helicópteros e caças – de uma forma orquestrada e integrada que aproveitou ao máximo todos os recursos disponíveis.
Em outras palavras, os franceses no Mali jogaram o beisebol da liga principal (embora talvez não devêssemos mais considerar o ISIS como um time de “JV”, como outrora fez o presidente Obama). Além disso, eles o faziam com uma “equipe selecionada” improvisada que consistia em pedaços e peças de um conjunto diversificado de unidades reunidas apressadamente e durante a execução. Algumas dessas unidades poderiam ser consideradas de elite, mas a maioria não era. Além disso, os franceses colocaram essa força ad hoc contra um inimigo perigoso que operava no pior ambiente físico imaginável – tudo com suprimentos estritamente suficientes simplesmente para impedir que as tropas francesas morressem de sede e exaustão de calor.

Foto por Bruno Jézequel/l’Editiondusoir.

As botas dos soldados franceses literalmente se desfizeram porque a cola que as mantinha juntas derreteu por causa do calor. Os franceses foram para lugares onde seus inimigos supunham que nunca ousariam ir, lutando corpo a corpo entre cavernas e pedregulhos nas profundezas do deserto. Por exemplo; eles arriscaram um salto de pára-quedas noturno em Timbuktu para enfrentar uma força que poderia tê-los superado em número. Para os observadores militares americanos, a única palavra que resume sua avaliação é respeito.
O que torna o estilo de guerra francês distinto, digamos, do estilo de guerra dos EUA tem a ver com escassez. As forças armadas francesas são altamente conscientes de seu pequeno tamanho e falta de recursos. Isso se traduz em várias características distintivas das operações militares francesas. Uma é a insistência em objetivos modestos, em limitar estritamente os objetivos de uma invenção militar, de acordo com uma avaliação modesta do que as forças armadas são capazes de realizar. Os franceses, portanto, visam baixo e se esforçam para alcançar o mínimo exigido. Sempre que possível, eles tentam limitar o uso das forças armadas a missões para as quais os militares realmente podem ser úteis.

Coluna do 3e Rima, em patrulha na região de Aguelhok, Mali. Imagem French Army/World Armies-UK.

Ou seja, forças armadas são boas em violência; se a violência é o que é necessário, então envie as forças armadas. Caso contrário, não. As forças armadas francesas abominam a expansão da missão e não querem participar de coisas como “construção da nação”. No Mali, por exemplo, as forças armadas francesas se consideram boas em matar membros de alguns grupos terroristas; é isso que eles fazem, e eles se recusam a se envolver em qualquer outra coisa, como resolver a bagunça política do Mali ou envolver-se no conflito entre os vários grupos rebeldes armados do Mali e entre eles e o estado maliano. Claro, isso significa que as forças armadas francesas não estão fazendo muito do que o Mali precisa, mas os franceses estão aderindo à sua política.
Outra característica do estilo de guerra francês é a escala. Enquanto as forças armadas dos EUA tendem para uma abordagem de guerra “go big or go home” (vá grande ou vá pra casa) – os planejadores americanos supostamente tomam como certa sua capacidade de reunir vastos recursos e poder de fogo – as forças armadas francesas adotam “going” pequeno. Eles lutam por suficiência e esperam alcançar objetivos limitados através da aplicação da menor medida de força possível, ao que eles se referem como “juste mésure”, ou seja, apenas o suficiente para fazer o trabalho, e não mais. Isso requer saber o quanto é suficiente, para não mencionar aceitar riscos que os americanos prefeririam não correr e, em grande parte, não precisam fazê-lo. Os franceses aceitaram ir ao Mali com recursos insuficientes de evacuação médica, por exemplo. As forças armadas dos EUA provavelmente não tomariam essa decisão.
As chaves para a abordagem francesa incluem a substituição da qualidade pela quantidade, e a luta inteligente, de aproveitar ao máximo as ferramentas disponíveis. Não se lança algumas dúzias de pára-quedistas em Birao, onde é provável que estejam em inferioridade numérica e possivelmente superados em poder de fogo, a menos que se saiba exatamente o que precisa ser feito, onde, como e com que propósito. No Mali, as forças francesas desdobraram-se sem água suficiente, mas sabiam exatamente onde obtê-lo uma vez lá. Eles sabiam, além disso, quem eram os atores locais, em quem confiar e em que medida, e como alavancar as forças locais para compensar seus próprios números reduzidos.
A autoconsciência das forças armadas francesas com relação a suas limitações as ajuda a trabalhar bem com os Estados Unidos. Informados por sua experiência trabalhando com recursos americanos no Afeganistão, Líbia, Mali, Somália e atualmente no Sahel, os franceses sabem como trabalhar com os americanos. Eles também sabem exatamente o que mais precisam dos EUA e o que fazer com ele, a saber, reabastecimento aéreo, inteligência, vigilância e reconhecimento (intelligence, surveillance, and reconnaissance – ISR) e carga pesada (grandes aviões de carga, como os C-17 da Força Aérea). Quando os EUA fornecem qualquer uma dessas coisas, ou, na verdade, quando os EUA fornecem algum recurso adicional que os franceses não têm, os franceses aceitam e colocam imediatamente em operação. A cooperação é, portanto, não apenas próxima, mas eficaz, embora geralmente nos bastidores.
Os franceses podem não ser capazes de derrotar o Estado Islâmico – certamente não sozinhos. Eles podem, além disso, não ter idéias melhores do que nós ou qualquer outro para saber como ganhar. Mas, com base em sua história, o que quer que eles façam além dos recentes ataques aéreos, eles provavelmente agirão de forma ponderada e pensarão primeiro. Eles podem agir em silêncio, tão silenciosamente que poderemos nunca ouvir sobre isso. Mas uma coisa é certa: Se os franceses estão determinados a ferir alguém, eles vão.
*Michael Shurkin é um cientista político sênior da organização sem fins lucrativos RAND Corporation.

18 Comments

  1. César Pereira says:

    Depois de ler esse texto parece que os franceses estão pior que nós !kkk!
    Um país que é um dos cincos membros permanentes da ONU, uma potência nuclear,com submarinos e porta avião movidos a energia nuclear, além de produzir caças sofisticados e tudo que há de vanguarda no setor militar, e o autor diz ser uma força sem recursos !

    • HMS TIRELESS says:

      Os jornalistas e articulistas norte-americanos dizem as mesmas coisas das forças armadas locais César!

      A verdade é a grama do vizinho é sempre mais verde…rs!

    • Eu acredito que sim,eles nao devem ter muitos recursos para operacões complexas fora do continente europeu,imaginem o custo logistico que os americanos tem apenas para alimentarem,municiarem e deixarem seus veículos prontos para combate em que envolve manutenção com peças e combustivel,o custo deve ser astronômico.
      Se não estou enganado a guerra do Iraque custou aos E.U.A quase 2 trilhões de dólares,quase um PIB do Brasil.

  2. É errado pensar que as forças Armée de Terre e Armée de l’Air francesas sofrem com recursos e escolhem as missões a cumprir. Nada neste mundo pode ser comparado a uma força de intervenção americana e seus recursos. As Forças Francesas não são muito diferentes de uma força de intervenção Britânica, Italiana ou mesmo Alemãs. O que difere sua atuação frequente é seu sucesso é o teatro que geralmente opera. Eles não estavam em Kosovo por exemplo, mas vc pode ver de forma frequente sua presença no Norte da Africa e no Oriente Médio. Suas ex colônias ainda dão trabalho. São profissionais e nisso ninguém pode questionar, mas não fazem um trabalho herculano, ou fora do normal. Normalmente enfrentam forças assimétricas onde uma ação aerotransportada pode ser suficientes. Não espere isso contra forças russas, por exemplo. São ações policiais de manutenção da ordem. São eficientes sim, mas sofrem como demonstrado em ações desastrosas no Afeganistão. Apostam muito em sua determinação e as vezes pagam caro por isso e recebem sacos pretos em Paris. Devemos relativar essas operações. A Líbia foi um desastre total que vai contra o texto acima que se refletiu no final das contas no ISIS. Muito cuidado.

  3. Jacques ( ordem da águia negra ). says:

    Alguns, centenas de anos atrás na época de Napoleão Bonaparte. O exército francês era o melhor de sua época.Tanto que vários exércitos se basearam no mesmo.

    • Na verdade até o inicio da Segunda Guerra o Exército Francês era o mais poderoso da Europa. O problema é que não contavam com a Blitkrieg e caíram em duas semanas. Com certeza a maior humilhação que já sofreram.
      Mas concordo que são uns bambis.

  4. Excelente matéria, documentário foda !

  5. HMS TIRELESS says:

    O estilo de guerra francês é:

    “Bandeira branca amor/ não posso mais…”

  6. A Máquina Troll says:

    São tão ruins que salvaram por DUAS vezes os eua de serem recolonizados pelo reino do opio unido…os eua perderam 2 guerras para os ingleses mas foram salvos em ambas ocasiões pelos os Franceses…se não fosse os Franceses feios, bobos e malvados teriam voltado a ser colônia do Reino Do Opio Unido…Durante a sua história, os eua participaram de muitas campanhas militares. No entanto, há algumas em que as autoridades norte-americanas não deveriam ter se metido. A revista The Nacional Interest elaborou uma lista :

    https://br.sputniknews.com/mundo/201511082688586-as-guerras-em-que-eua-nao-deveriam-ter-se-metido/

  7. César Pereira says:

    A escola militar francesa não me agrada,nós tivemos a missão militar francesa, que moldou nosso exército por um tempo,mas foi logo abandonada ao termos contato com a escola militar dos EUA na segunda guerra ! Não vi muita eficiência das forças francesas frente as alemãs nas duas grande guerras,e nos dias atuais fica difícil de se analisar a eficiência de exércitos regulares,pois a maioria dos conflitos se dão entre forças regulares e os chamados insurgentes !
    Por fim reitero que embora discorde dos métodos da escola militar francesa,não tenho como negar que dispõe de equipamentos em estado de arte !

    • Dunkirk -> Os ingleses e franceses perderam a França juntos, ninguém estava preparado para os alemães, a Russia perdeu 1600Km, perdia 100Km por dia no começo.

      Em 1º de setembro de 1939 a Alemanha invadiu a Polônia, de 26 de maio até 3 de junho de 1940 foi a realizada a operação de retirada das tropas.

      Da mesma forma que os EUA ajudou (salvou) os ingleses também.

  8. O texto é muito bom, consegue se perceber que é muito difícil realizar um confronto, a disponibilidade de meios é o mais complicado e sobre tudo sofisticado hj em dia, se você por na balança percebe que seria muito difícil para um pais confrontar o Brasil por exemplo, a não ser que seja um confronto limitado em termos de região(lugar pequeno) ou forças irregulares. Para o Brasil ainda falta aeronaves claro e meios de superfície navais, mas não deixa de ser difícil.

    No mundo só vejo 2 países hj com capacidade de encarar um confronto que é o EUA e a China, depois só a OTAN mas é um grupo de países.

  9. As Forças Armadas Francesas são uma espécie de Legião Romana: continuam “firmes” no exterior —  enquanto a sua ‘urbe’ é lenta, gradual e innevitavelmente destruída por dentro…

  10. César A. Ferreira says:

    Erro de tradução: “As chaves para a abordagem francesa incluem a substituição da qualidade pela quantidade”, O correto é” (…) incluem a substituição da quantidade pela qualidade”…

    Erro típico do uso do apoio do tradutor cibernético sem a devida revisão.

    ,

  11. A Máquina Troll says:

    “Saci.br
    17 de agosto de 2018 at 10:19

    Dunkirk -> Os ingleses e franceses perderam a França juntos, ninguém estava preparado para os alemães, a Russia perdeu 1600Km, perdia 100Km por dia no começo.

    Em 1º de setembro de 1939 a Alemanha invadiu a Polônia, de 26 de maio até 3 de junho de 1940 foi a realizada a operação de retirada das tropas.

    Da mesma forma que os EUA ajudou (salvou) os ingleses também.”

    Os eua nunca salvaram ninguém…seu interesse na segunda guerra era só em ganhar dinheiro em cima do conflito…entraram na guerra pressionados/forçados pela europa…sua participação foi pífia se limitando mais em fornecer equipamentos e suprimentos do que em lutar no conflito…todo o crédito pela queda do eixo é incontestavelmente dos Russos…os Japoneses se submeteram a assinar uma rendição pois sabiam que uma invasão estava sendo preparada pelos Russos…e que a aniquilação e destruição que sofreriam seria pior que a provocada pelas bombas atômicas estadunidenses…

    os eua ficaram independentes financiados as custas do povo francês…em sua colonização roupas com catapora foram dadas aos nativos americanos como forma de dizimá-los…escravidão de milhões de Africanos, Kuklusklan, Bomba em Hiroshima, Iraque…e indiretamente interferem na política interna de dezenas de países vizinhos, financiou e financia secretamente assassinatos, genocídios, golpes de estado e ditaduras mundo afora…em sua política financeira causa a morte por inanição de milhões de pessoas todos os dias e que digam os europeus presos a seus acordos…e os que sofrem sanções…

    os eua são o maior financiador de conflitos armados no mundo!..todo aquele povo africano sofre até hoje porque os eua financiam a guerrilha que comete atrocidades com aquele povo…fora que são os maiores consumidores de vida selvagem que existe…hoje a mais felinos selvagens nos eua que em ambiente selvagem e todos eles são fruto de contrabando!…e o que eles matam praticando caça em safáris pra empalhar…É ABSURDO!..fora a mineração estadunidense…são uns devoradores de florestas…chafurdam o solo como porcos e invadem regiões amazônicas em países como braziu, Venezuela, Peru, Equador e ainda passam essas palhaçadas em programas na TV paga que colocam eles como heróis!!!…toda a nossa madeira em extinção da Amazônia e Mata Atlântica esta sendo exportada para eua e europa…isso vc vê nos programas de arquitetura e designe dos principais canais estadunidenses…e eles consideram ecológico revestir o piso e fazer moveis de madeira em extinção???…

    essas coisas os defensores dos estadunidenses fingem que não veem!…todo mundo fala…Ahhh mas nos eua tudo é maravilhoso e barato, carro, TV, e bla bla bla…muito fácil quando as corporações estadunidenses mantém mão de obra sub-humana pagando salários de miséria no México e na China…trabalho escravo…a vida estadunidense é maravilhosa???…É! e quem banca isso???…Todos os outros países subdesenvolvidos e emergentes, ou seja, NÓS!…E trouxas aqui ficam levantando bandeira das lutas dos estadunidenses pela liberdade e blablabla…E metem o pau em como o governo e os políticos brasileiros sugam nossas vidas com impostos e corrupção…A vcs eu digo: OS ESTADUNIDENSES FAZEM A MESMA COISA CONOSCO!…Eles não são diferentes desses algozes brasileiros em nada…todos um bando de assassinos da vida!..O braziu está longe de ser perfeito mas temos sim que nos defender desses sanguessugas estadunidenses e buscar valorizar o que temos aqui…Nossa cultura, riquezas naturais e desenvolver nossa capacidade intelectual e tecnológica…Investir no povo brasileiro que é criativo, simpático, receptivo e sim TRABALHADOR E COMPETENTE…Porque não é fácil viver sendo roubados como somos…

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