Defesa & Geopolítica

EUA — O que mudou com Trump no poder

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Grande parte da atenção direcionada ao presidente dos EUA se centrou em sua polêmica retórica. Mas, em um ano no cargo, ele já teve impacto significativo em questões-chave em seu país, com reflexo no resto do mundo.

Presidente americano fez mais que tuítes e declarações controversas

Um ano após assumir o poder, o presidente americano, Donald Trump, ficou mais conhecido por afirmações controversas. Mas seu governo provocou grandes mudanças em seu país, que tiveram impacto não só nos Estados Unidos, mas no resto do mundo. Veja aqui dez transformações impactantes.

Comércio internacional

Donald Trump demonstrou repetidamente que prefere os acordos comerciais bilaterais aos multilaterais. Desde que assumiu o cargo, interrompeu a participação americana nas negociações sobre a Parceria Transpacífico (TPP) e suspendeu as  conversas sobre um tratado de livre-comércio entre EUA e União Europeia (TTIP). Além disso, ameaçou cancelar o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), forçando México e Canadá a renegociar os termos do pacto.

Enquanto isso, os concorrentes dos EUA dão prosseguimento aos seus esforços para reduzir as barreiras comerciais entre si: o acordo de livre-comércio europeu-canadense (Ceta) entrou em vigor em 2017, e 11 países de ambos os lados do Pacífico continuam trabalhando para estabelecer um Acordo de Parceria Transpacífico sem os EUA. Embora a China não faça parte das negociações da TPP, os críticos de Trump temem que a saída dos EUA fortaleça ainda mais a influência chinesa sobre o comércio na região da Ásia e do Pacífico.

Negócios e Finanças

O primeiro ano de Trump foi bom para investidores no mercado de ações: o índice Dow Jones subiu de 18.589 pontos no dia seguinte à eleição de Trump para mais de 25.800 em meados de janeiro. Em comparação, o índice aumentou apenas moderadamente no primeiro ano de Barack Obama (no meio da crise financeira global), mas o presidente anterior também viu o Dow Jones mais que duplicar ao longo dos seus oito anos no cargo: de 9 mil para mais que 18 mil. Além disso, sob Trump, a taxa de desemprego caiu de 4,8% há um ano para 4,1% hoje (quando Obama assumiu o cargo de George W. Bush, era de cerca de 8%).

A maior conquista legislativa de Trump, uma reforma tributária assinada em lei no final de dezembro, reduz a carga fiscal corporativa de 35% para 21% e diminui os impostos sobre a renda dos cidadãos individuais, ao mesmo tempo em que dobra os descontos-padrão.

De longe, a maior parte desses cortes, no entanto, beneficia empresas e grandes rendas: os contribuintes que ganham mais de 700 mil dólares por ano, que representam 1% do total, receberão 20% do corte de impostos. E enquanto as reduções de impostos para as empresas são permanentes, os cortes para os contribuintes individuais expirarão após dez anos. As reduções fiscais são financiadas com crédito, levando a um aumento do déficit orçamentário americano de cerca de 1 trilhão de dólares nos próximos dez anos.

Trump assina ordem executiva que retira EUA do TPP

Saúde e seguridade social

Trump e os republicanos no Congresso não conseguiram abolir e substituir a Lei de Assistência Econômica (ACA), também conhecida como Obamacare, o principal legado do antecessor de Trump. Mas na reforma fiscal de 2017, eles conseguiram revogar o “mandato individual”, uma disposição que exigia que todos os americanos tivessem um seguro de saúde, caso contrário, tinham que pagar uma multa.

Sem o mandato individual, um número menor de americanos jovens e saudáveis estará inclinado a pagar plano de saúde, levando a prestações mais elevadas para todos os demais. O Escritório de Orçamento do Congresso americano estima que, como resultado, o número de cidadãos não segurados poderia aumentar em até 13 milhões.

Enquanto isso, líderes republicanos no Congresso, incluindo o presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, estão defendendo reduções sobre os futuros gastos em seguridade social e outros programas que garantem benefícios à população – em parte para compensar o aumento do déficit orçamentário americano causado pela reforma tributária de 2017.

Discurso público

O que pode melhor resumir o que Donald Trump fez para o discurso público é a afirmação de que, na maioria das vezes, não é mais aconselhável citar o presidente dos EUA na presença de crianças. Pouco antes do primeiro aniversário de sua tomada de posse, Trump lembrou isso ao descrever o Haiti e as nações africanas como “países de merda” (shithole countries), numa reunião com senadores.

Mas chama atenção não é apenas o fato de o presidente ter vulgarizado o discurso público, proferindo rotineiramente falsidades num ritmo surpreendente. De acordo com o jornal Washington Post, foram mais de 2 mil afirmações falsas ou enganosas desde que assumiu o cargo, a primeira delas sobre o público presente em sua posse, há um ano.

Ao menos tão desconcertante é o fato de que o governo Trump, aparentemente, tem evitado expressões em sites governamentais. De acordo com relatório da Iniciativa de Gestão e Dados Ambientais (EDGI), um grupo internacional de pesquisadores, “clima” é uma palavra-chave que foi reformulada ou banida dos sites do governo Trump, especialmente das páginas da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA).

Enxugando o governo

Sob Trump, o tamanho do funcionalismo público americano diminuiu. No final de setembro, de acordo com dados oficiais, os EUA tinham menos 16 mil servidores públicos que no final de 2016.

Além de reduzir o número de funcionários permanentes, Trump ainda não ocupou muitos postos governamentais importantes. Na verdade, de acordo com a organização independente Parceria para o Serviço Público, que rastreia o processo de seleção para altos cargos públicos, o novo presidente ainda não ocupou 245 de 633 cargos-chave que exigem anuência do Senado, entre eles postos importantes, como o de embaixador na Coreia do Sul.

Nomeação de juízes

Talvez um dos impactos mais duradouros da presidência de Trump – e certamente o mais irreversível já que se trata de um cargo vitalício – é a nomeação de Neil Gorsuch para a Suprema Corte. Aos 50 anos, uma idade relativamente baixa para um magistrado do principal tribunal do americano, ele provavelmente deixará sua marca nos próximos anos.

Mas o sucesso de Trump na nomeação de juízes conservadores se estende para além da Suprema Corte. Ele também conseguiu que 19 outros juízes de alto nível fossem confirmados pelo Senado, entre eles um número recorde de 12 juízes de tribunais regionais, o que provavelmente também deixará sua marca judicial no país por décadas.

Política externa

Enquanto Trump continua a criticar os países-membros da Otan por, segundo ele, não contribuírem o suficiente, ele aumentou a participação americana em dinheiro e em pessoal na defesa do flanco oriental da Aliança Atlântica.

Trump se envolveu no que é amplamente visto como um jogo perigoso de insultos com o ditador da Coreia do Norte, diante do programa de armas nucleares que avança rapidamente e do comportamento agressivo de Pyongyang.

Ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, Trump reverteu décadas de política externa americana e, ao traçar um curso mais duro em relação a Cuba e ao acordo nuclear iraniano, ele também transfigurou a posição de seu antecessor.

No geral, muitos observadores afirmam que o atual governo americano, liderado por um presidente profundamente impopular em muitas partes do mundo, ainda não possui uma estratégia coerente de política externa.

Política migratória de Trump causou protestos em todo o país

Imigração

Com a redução de 40% no número de cruzamentos ilegais de fronteira entre os EUA e o México no ano passado e uma contínua repressão contra imigrantes sem papéis, a imigração é uma das questões em que o presidente causou um impacto profundo, afetando dezenas de milhares de pessoas nos EUA e em todo o mundo.

Enquanto a proibição de entrada nos EUA imposta por Trump contra vários países ainda está amarrada nos tribunais, Washington sinalizou que vai encerrar o status de proteção que permite que mais de 200 mil cidadãos de El Salvador, Haiti e Nicarágua permaneçam nos EUA.

Trump também pôs fim ao programa DACA, que protegia centenas de milhares de jovens imigrantes, e criticou repetidamente o programa de loteria que permite que cerca de 50 mil pessoas de vários países imigrem anualmente para os EUA, ameaçando acabar com ela. E mesmo que as entradas ilegais já tenham caído significativamente, Trump ainda quer cumprir sua promessa de construir um muro ao longo da fronteira EUA-México.

Meio Ambiente

Uma das primeiras decisões de Donald Trump como presidente foi nomear Scott Pruitt como chefe da Agência de Proteção Ambiental (EPA). Uma escolha muito controversa, já que Pruitt é um cético notório das mudanças climáticas e acredita que o poder da agência que dirige agora deve ser reduzido drasticamente.

Como procurador-geral em Oklahoma, ele processou repetidamente a EPA. Desde que assumiu o cargo, afrouxou as regulações destinadas a reduzir a poluição proveniente das termelétricas a carvão e gás, das emissões de veículos, mineração, aterros e prospecção de petróleo e gás.

Uma proposta nova e polêmica da EPA também permitiria a perfuração offshore ao longo da maior parte da costa americana. Além disso, o governo Trump deu luz verde a projetos controversos, como o oleoduto Keystone XL, a prospecção de petróleo no Refúgio Nacional Ártico de Vida Selvagem no Alasca e o reexame do tamanho de dezenas de áreas protegidas em todo o país. Por último, mas certamente não menos importante, foi o fato de Trump ter retirado os EUA do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas.

Proteção ao consumidor

Reduzir as regulações para as empresas é um dos principais temas do governo Trump, não só no que diz respeito ao meio ambiente, mas também quando se trata de proteção do consumidor.

Num movimento que reflete a abordagem de Trump frente à EPA, ele nomeou Mick Mulvaney, um crítico feroz do poderoso Escritório de Proteção Financeira do Consumidor (CFPB), como seu novo diretor (temporário). Essa agência foi criada na sequência da crise financeira de 2008 para proteger os consumidores contra práticas abusivas de bancos e outros prestadores de serviços financeiros.

Enquanto isso, a Comissão Federal de Comunicações, cujo chefe Ajit Pai foi nomeado por Trump, revogou as regulações de neutralidade da rede que proibiam os provedores de banda larga de bloquear sites ou cobrar por serviços de alta qualidade ou por determinado conteúdo.

Ajit Pai argumenta que menos regulação aumentará a concorrência, reduzindo assim os preços para os consumidores e fomentando a inovação. Mas os críticos temem que os provedores de banda larga possam favorecer grandes companhias que podem pagar pela internet de alta velocidade e por um melhor acesso a seus produtos, enquanto pequenas empresas e start-ups ficariam em desvantagem, proporcionando menos opções aos clientes.

Fonte: DW

Opinião: É hora de uma discussão objetiva sobre Trump

Donald Trump está no cargo há um ano. Para seus críticos, é muito fácil unir-se no ódio cego do que se ocupar ponderadamente com a política do presidente americano, opina a editora-chefe da DW, Ines Pohl.

Donald Trump está há um ano no poder e deve ficar ainda por um bom tempo

Figuras odiosas têm a grande vantagem de agregar pessoas por trás delas. Odiar cega. E, no ódio conjunto, desaparecem todas as diferenças, oposições e contradições. Odiar agrega. E odiar dá a sensação e ideia de ter uma vida melhor quando há falta de ideias e visões verdadeiras.

Olhando para os EUA nos dias de hoje, não é mais o sonho de uma vida melhor – como tem sido há séculos – que mantém este imenso país unido. Se há um sentimento dominante, esse é a aversão ao outro campo político. No sistema bipartidário, isso é relativamente fácil. Como já afirmado no Evangelho de Mateus (capítulo 12, versículo 30): “Aquele que não está comigo está contra mim”.

Em 2016, ano em que Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, eu era correspondente da Deutsche Welle nos EUA. Viajei milhares de quilômetros de Leste a Oeste, de Norte a Sul. Conheci as metrópoles. Mas, principalmente, também o restante, as pequenas cidades e suas arenas esportivas.

Acompanhei desde o início a sua marcha em direção à Casa Branca. Vivenciei como ele entusiasmava as massas – estudantes e trabalhadores, aposentados, mães, donas de casa e empresários. E quanto tempo demorou até os democratas perceberem que este homem poderia realmente conseguir se impor – primeiramente como candidato dos republicanos e, depois, no embate direto com Hillary Clinton.

Foi a arrogância do poder: como poderia ser possível que uma estrela de TV vencesse o aparato de poder Clinton? A mulher que mostrou tão profundamente quem ela era ao descrever os apoiadores de Trump como pessoas lamentáveis.

Um ano atrás, Donald Trump prestou juramento. Numa Washington chuvosa e cinzenta. Desde então, um debate sensato sobre a política do presidente tornou-se impossível no próprio país. A reação é só uma: “que horrível, que ruim, como é terrível”.

Isso é antidemocrático. Afinal, Trump foi eleito de acordo com a legislação eleitoral americana. E é estúpido. Assim, muitos meios de comunicação liberais também estão pondo em jogo uma maior credibilidade.

É claro que é tarefa deles apontar o perigo de muitos tuítes presidenciais. Ou mostrar por meio de pesquisas e fatos quem realmente e, a longo prazo, vai lucrar com a reforma tributária de Trump. Mas, para qualquer mente crítica, deveria ser óbvio, também no caso de adversários políticos, analisar aberta e diretamente, e valorizar o correto e o bom.

Por exemplo, o que há de errado na reivindicação que a Europa, finalmente, encontre uma política externa e de defesa forte e comum? Por que um presidente americano não poderia exigir que a Alemanha contribuísse financeiramente mais para a Otan? E especialmente a Alemanha deveria olhar muito atentamente para a sua própria política para a Europa quando critica o slogan “Primeiro a América”. Afinal, com sua austeridade econômica, também o ministro alemão das Finanças teve em mente, nos últimos anos, acima de tudo, o bem-estar de seu próprio país. Da mesma forma, a burocracia excessiva e a má gestão da ONU são certamente um tema sensato.

Os tuítes agressivos de Trump contra a Coreia do Norte também me amedrontam e me assustam. Mas também reconheço a incapacidade do governo de Barack Obama de ter reconhecido a real situação do programa armamentista nuclear de Pyongyang. E sim, também me preocupo quando vejo como Rússia e China adentram o vácuo deixado pelo afastamento dos EUA de seu papel como poder regulador internacional.

Mas, também aqui, faz parte do quadro geral o fato de ter sido Barack Obama quem estabeleceu uma nova doutrina com seu “liderar por trás”. E o seu fracasso na Síria e no Oriente Médio como um todo não pode ser, de forma alguma, atribuído à administração Trump.

Para mim, a frase mais contundente de todo esse espetáculo eleitoral foi proferida por Michelle Obama: “Se eles pegam baixo, pegamos alto”. Trraduzido livremente: “Se os outros se comportam mal, então respondemos com decência e estilo”. É como todos os críticos de Trump deveriam agir em casa e no exterior.

Donald Trump está há um ano no cargo. E apesar de todas as esperanças de impeachment, parece que ele vai continuar a governar por um bom tempo.

Há aquele belo ditado americano: “Get over it”. Traduzido livremente: “Agora é assim”. Um bom momento, portanto, para tratar as discussões sobre Trump com objetividade. Não se ocupar mais com seus cabelos e com a cor de sua pele, mas com a sua política de forma objetiva e ponderada.

Ines Pohl

Não se irritar com todo e qualquer tuíte – mas esclarecer o que está errado ou, também, o que faz sentido em suas exigências políticas. Também reconhecendo quão difícil é ter uma responsabilidade política neste mundo.

Pois odiar é fácil. Elaborar e proporcionar verdadeiras alternativas é muito mais difícil.

  • Ines Pohl é editora-chefe da DW

Fonte: DW

 

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