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Estudo de palestinos ajuda a compreender sua sociedade fraturada

Nakba – “catástrofe” em árabe – expulsão das populações árabes pelos israelenses durante a guerra de 1948

 

Por José Ailton Dutra Júnior*

A Questão Palestina é um dos temas centrais da história contemporânea, pois a existência de uma sociedade que vive dividida em uma população exilada e expulsa por um movimento colonial de origem europeia apoiado pelas potências capitalistas anglo-saxãs hegemônicas no mundo desde o fim das guerras napoleônicas (primeiro a Grã Bretanha e depois EUA)-o sionismo-e outra sobre a ocupação do estado criado por esse movimento (Israel), sendo que esse povo é a população nativa do país no qual se encontram alguns dos mais importantes sítios religiosos da duas maiores religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo), sendo esse país uma terra sagrada para essas religiões e o povo vítima dessas perseguições ter populações que as praticam, se trata de um fato que de forma, direta ou indireta, acaba envolvendo. Aceitar ou repudiar o destino imposto ao povo palestino, nessa situação, significa definir um padrão de como se devem tratar os seres humanos nos séculos seguintes em todo o globo: ou se aceita que os direitos humanos, como definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, assinada pela maioria dos estados do mundo, são válidos- ao menos teoricamente-para todos os seres humanos, ou ela se aplica a alguma minoria poderosa e privilegiada dentro da ordem mundial atual.

Evidentemente, os palestinos não são a única população no mundo que sofre injustiças terríveis. Podemos citar os habitantes da Nova Guiné Ocidental vitimados por uma brutal ocupação militar da Indonésia (que pode ter matado entre 100 e 500 mil pessoas, segundo diversos órgãos de imprensa) cujo objetivo é entregar suas terras, florestas e subsolos para o saqueio por parte das corporações multinacionais americanas, australianas e britânicas, dentre outros países. Podemos citar a questão dos curdos na Turquia, país da mesma região da Palestina e de certa forma um vizinho, cujas políticas repressivas e negação de direitos, em maior ou menor grau, independente se suas forças políticas tenham ou não se aliado aos EUA e Israel, caracteriza a conduta padrão do estado turco há um século. Podemos citar inúmeros e mais terríveis e sangrentos casos, em relação à Palestina, ao longo do continente africano e outras partes do mundo. Todos são acontecimentos importantes, mas em nenhum deles existe essa questão colocada pela existência do drama palestino: o povo nativo da Terra Santa cristã e muçulmana, falante da mesma língua que os habitantes dos países vizinhos, compartilhando com eles-exceto os egípcios- uma identidade maior síria- foi parcialmente expulsa por colonos de origem judaica (que também considera a Palestina e vários de seus lugares sagrados), cujos líderes fundadores e movimentos vieram da Europa, e outro esta exilada nos países vizinhos, mas cada vez mais possui comunidades dispersas pelo mundo.

Por isso, para se poder compreender a Questão Palestina também é necessário conhecer informações básicas sobre a sociedade palestina e sua história. Bons sites, boas reportagens, bons documentários e bons livros de divulgação ajudam a começar a entender esse assunto tão complexo. Uma compreensão mais profunda requer livros de caráter mais acadêmico e uma das melhores obras nesse sentido é o trabalho de Samih K. Farsun e Christina E. Zacharia Palestina and the Palestinian, publicado em Nova York em 1997.

Infelizmente, como acontece com muitos livros bons em diversas áreas das ciências humanas, esse trabalho não foi editado no Brasil, mas ele pode ser encomendado pela internet em sites estrangeiros.

Nesse trabalho, os dois autores palestinos irão mostrar a sociedade palestina como ela existiu antes de depois da Nakba (desastre em árabe, a expulsão de 700 mil palestinos pelos sionistas em 1948), mais especificamente como era a sociedade palestina desde o século XVIII, as transformações por que passou no século XIX (Reformas Tanzimat no Império Otomano e a penetração do capitalismo ocidental), a colonização britânico-sionista (1918-1948), e depois, a sua transformação profunda como resultado da Nakba e sua divisão em três segmentos: os exilados, os habitantes da Faixa de Gaza e Cisjordânia (conquistados por Israel na guerra de 1967), os habitantes do interior do estado de Israel.

Os autores, ao falarem da sociedade palestina antes de 1948 comentam também sob sua geografia e a influência que esta teve na formação das culturas locais e nos sistemas econômicos de cada localidade e região que compõe a Palestina, assim como o papel importante dela como Terra Santa para muçulmanos e cristãos e, por isso, um local de peregrinação importante no Oriente Médio por séculos. (Estes fatos: abrigar lugares sagrados muçulmanos, cristãos e judeus), além de ser uma das rotas mais importantes de peregrinação para Meca e Medina (os dois mais importantes lugares sagrados do islamismo) na Arábia ocidental sempre a colocou em destaque em termos geopolíticos e também ajudou a configurar a sua economia, pois alimentar, ajudar a transportar, abrigar e vender artigos religiosos ou de outros tipos aos peregrinos sempre foi uma receita importante para a economia das cidades palestinas e fez com que duas delas se destacassem nesse processo: Jerusalém e a cidade portuária de Haifa, atualmente dentro do estado de Israel.

Um outro aspecto importante para se entender a sociedade palestina até o começo do século XX é o seu pertencimento a Síria histórica-geográfica fazendo com que a população palestina compartilhe a mesma língua (em versões dialetais locais): o árabe-levantino ou árabe sírio, e uma cultura e identidade mais geral, embora seus particularismos sejam importantes também para se poder compreender a sua dinâmica interna e particularismo culturais-religiosos importantes como a forte devoção aos profetas Moisés e Saleh, objetos de cultos nas mais importantes festas palestinas até a Nakba no qual participavam tanto muçulmanos como cristãos e também judeus não sionistas.

Celebração de um Casamento em 1929 em Ramallah, Sede Atual da Autoridade Palestina

Uma ideia central, segundo Farsun e Zacharia, é importante para se entender os palestinos antes e depois da Nakba: antes de 1948 os palestinos eram, apesar das modificações provocadas pela penetração capitalista ocidental desde o século XIX, uma sociedade que ainda era muito regida pelos valores tradicionais ligados a vida aldeã, a forte presença da religião (muçulmana ou cristã) na organização da vida privada e publica e os laços comunitários dos complexos familiares (hamulas) nas aldeias interioranas, um mundo assentado ainda em uma base econômica majoritariamente agrícola; depois da Nakba, diante do exílio ou da ocupação israelense, a antiga estrutura perde o sentido, apesar dos esforços dos palestinos para mantê-las. Como resultado a alfabetização, urbanização, proletarização, emancipação das mulheres, difusão dos ideais socialistas, comunistas, terceiro-mundistas e pan-árabes, democráticos e o islã político conservador moderno (que se expande com mais força a partir dos anos 1980), uma vida marcada pela precariedade, o receio e a presença da violência e da segregação, mudam o perfil psicocultural das gerações palestinas pós 1948 em relação aos seus antecessores. Também, como apontam Farsun e Zacharia, no caso dos refugiados: estes se dividiram em dois grupos: os das antigas elites palestinas, cuja possibilidade de reconstruir suas vidas era muito mais fácil, e os pobres que irão sentir todo o peso da condição de exilados.

O território da Palestina, como Farsum e Zacharia mostram, era tradicionalmente dividido em dois grupos de populações cujos meios de vida faziam com que se relacionassem constantemente a ponto de viverem em simbiose econômica: os beduínos nômades ou seminômades-dependendo da tribo-de economia pastoril, que se fixavam nas terras baixas ou nas zonas semidesérticas e as populações sedentárias, vivendo principalmente nos planaltos, majoritariamente de economia agrícola, no qual o sistema de posse coletiva da terra (chamada Musha´a) e distribuição dos lotes de acordo ao tamanho e necessidades das famílias era predominante. Junto a isso estavam as identidades coletivas locais baseadas nas hamulas, grupos de aldeias e regiões sobre o qual surgiam lideranças que eram reconhecidas oficialmente pela administração otomana. Os camponeses eram socialmente submetida à notáveis que viviam em aldeias maiores ou nas cidades. Essa população rural sustentava a população urbana de localidades como Nablus, Jerusalém, Haifa, Jaffa, Hebrom, Gaza, Belém e outras, que, no caso das cidades interioranas, formavam sistemas econômicos locais (no qual o artesanato e o comércio eram as atividades principais) com culturas regionais bem definidas, sendo que várias, ou eram cidades sagradas ou com locais sagrados ou eram parte das rotas de peregrinação religiosa e nas litorâneas no qual haviam os contatos permanentes com o exterior por meio do comércio internacional. Em Jerusalém havia também os Ashraf: as famílias descendentes dos generais conquistadores árabes do século VII, a quem o Califa Omar havia dado a guarda ou proteção dos lugares sagrados da cidade. Esse grupo tinha um papel de liderança na Palestina e se sobrepunha aos notáveis urbanos do restante do país.

Sobre esse complexo sistema econômico-social se imporá a ordem internacional capitalista vinda da Europa e estimulado pelas reformas sociais, legais, administrativas, econômicas e políticas pelo governo otomano desde 1839 chamadas de tanzimat (reorganização em turco). Estas reformas estabeleceram a propriedade privada plena e as garantias legais para sua estabilidade e transmissão por herança (cujos resultado a longo prazo será a formação de grandes propriedades fundiárias nas mãos das elites em todo país), centralização administrativa, regularização e modernização do sistema fiscal, igualdade jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos entre outras medidas. Esse processo de modernização otomana, por conta da expansão do imperialismo europeu (especialmente o britânico no caso da Palestina) teve como resultado a entrada do capital europeu na economia local orientando-a para as necessidades dos mercados ocidentais (exportações de produtos agrícolas como laranja e trigo), investimento e controle europeu das infraestruturas modernas como ferrovias, telégrafos e navegação a vapor entre outros, controle financeiro anglo-francês do governo otomano com impacto sobre a Palestina, importação de bens indústrias europeus (particularmente os britânicos), o que levou ao desenvolvimento de uma classe mercantil vinculada aos capitalistas europeus. Isso modificou a estrutura social, levando a progressiva proletarização dos camponeses, a introdução do sistema moderno de trabalho assalariado, decadência da classe artesanal nas cidades, o desmonte progressivo do sistema de propriedade coletiva musha´a e o aumento da diferenciação social e da concentração de renda.

Tudo isso foi muito intensificado após a Guerra da Crimeia (1853-1856) no qual o Império Otomano participou ao lado da Grã-Bretanha e da França contra a Rússia. Farsun e Zacharias comentam que “a penetração econômica imperialista do século XIX (que desviou para os seus interesses os efeitos das reformas tanzimat) criou as condições para que a colonização sionista pudesse acontecer”, pois ela foi retirando, progressivamente do controle otomano a Palestina e permitindo aos europeus se estabelecerem no país como privilegiados com poder econômico e social, fato que irá caracterizar os colonos sionistas no século XX sob a ocupação britânica.

Por outro lado, a modernização também levou a formação de um setor social com educação técnica e cultural moderna vivendo nas cidades, constituindo uma nova classe média, e a formação de ideias político-sociais distintas dos comunitarismos religiosos, clânicos, nômades, regionais e locais e outros que se expressavam no aparecimento da noção de nacionalismo (palestino, sírio, pan-árabe) e nos diversos projetos políticos-ideológicos de origem europeia: democracia, liberalismo, modernização econômica, a ideia moderna de tolerância religiosa e secularismo, etc.

Após a Primeira Guerra Mundial que levou a derrota do Império Otomano (aliado da Alemanha), a ocupação britânica em 1918 e o estabelecimento do mandato pela Liga das Nações (1920-1948) trouxe o projeto de colonização judaica promovido pelas elites britânicas que aceitaram promover o projeto do movimento sionista estabelecido por estes durante o I Congresso Sionista de 1897 em Basileia na Suíça. A Declaração Balfour de 11 de novembro de 1918 estabeleceu publicamente essa aliança entre sionistas e o império Britânico que tinha na burguesia financeira judaica inglesa, como o ramo britânico dos Rothichilds, os intermediários.

Farsun e Zacharias mostraram em seu trabalho como, ao longo de todo o mandato e independente dos críticos ingleses dentro e fora do governo, como o governo mandatário britânico (na verdade um governo colonial) promoveu uma política para aumentar a imigração judaica, protege-la economicamente, desfavorecer até as classes dominantes palestinas e fazer do cada vez maior enclave judeu uma zona mais ricas, mais industrializada, incorporadora de tecnologias estrangeiras e com melhores indicadores sociais. Ela era protegida até mesmo da concorrência econômica da burguesia metropolitana. Sua população cresceu de 84 mil em 1922 para 640 mil em 1947 (a população árabe era 666 mil em 1922 e 1,300 milhão em 1947). Essa colonização foi acompanhada de uma agressiva política de colonização por meio da compra de terras e o estabelecimento de colônias agrícolas (Kibbutzim) o e fechamento do mercado de trabalho judeu para os árabes, além disso aos judeus foi permitido a formação de uma força armada e seus grupos milicianos ilegais não eram reprimidos com muita ênfase. O resultado disso foi uma série de confrontos que culminaram na revolta anticolonial de 1936-1939 cuja derrota, desarmamento, controle policial da população, exílio ou prisão da classe política da época teve um impacto social e psicológico devastador que estabeleceu as condições locais finais para a Nakba de 1948.

Após 1948, Farsun e Zacharia, mostram como os palestinos se esforçaram para manter a sua unidade cultural e espiritual, identidade e recordação de sua pátria unificada em meio à realidade dura do exilio ou ocupação israelense. Apesar do apoio popular a sua luta no Mundo Árabe e do reconhecimento internacional do seu drama (por exemplo, a Resolução 194 da ONU de 11 de dezembro de 1948 exigindo o retorno dos exilados), os palestinos irão enfrentar em muitos países discriminação e restrição aos seus direitos vivendo a maioria nos inúmeros campos de refugiados montados nos países vizinhos e sob a administração de uma agência da ONU – a URWA, sigla em inglês para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados dos Oriente Próximo.

Família de refugiados palestinos no campo de Wadi Seer, na Jordânia em 1958.

A divisão da sociedade palestina em três grupos: os exilados, os habitantes de Gaza e Cisjordânia (sob a ocupação de Israel a partir de 1967) e os que viviam dentro do estado de Israel (definidos oficialmente como árabes de Israel) e que receberam uma cidadania de segunda mão e uma prática social marcada por forte discriminação racial, criou três distintas realidades que aumentava a tensão ainda mais por dentro a fraturada e traumatizada sociedade palestina e os obrigou a mudar muitos aspectos de sua vida para poder resistir ao poder sionista e o seu patrocinador principal desde 1967: os EUA. Os palestinos exiliados (6-7 milhões hoje) viveram em constante precariedade, nunca tendo certeza sobre o seu futuro e com a sombra da guerra sempre presente. Muitos se tornaram imigrantes, buscando emprego no exterior-particularmente a Europa e os estados árabes do Golfo Pérsico- formando novas comunidades de exilados nesses países e, no caso dos estados árabes do Golfo, formando desde os anos 1960, uma importante classe média de técnicos, médicos, professores e dirigentes que muito contribuiu com o desenvolvimento trazido pela riqueza do petróleo. Na Jordânia, a enorme população palestina também teve um papel similar, embora, por seu tamanho, muitos se tornaram um componente central da classe trabalhadora jordaniana. Mas essa população exilada sofreria muito com as guerras em diversos desses países (Jordânia 1969-1970), Líbano (1975-1990), Kuwait (1991), Iraque (2003-2009) e Síria (2011 ao presente), tendo estas as marcado e ajudado a definir sobre nova forma a sua identidade.

Já os habitantes de Gaza e Cisjordânia, que também tem refugiados vindos do território israelense, primeiro tiveram seus territórios sobre o controle de estados árabes vizinhos (Egito no primeiro caso e Jordânia no segundo) e depois passaram a viver sobre uma cada vez mais dura ocupação militar israelense, no qual a limpeza étnica e a colonização judaica eram realidades presentes. Estes palestinos passaram, após a guerra de 1967, por um processo de proletarização e urbanização, muitos deles se transformando em trabalhadores mal remunerados dentro de Israel. Estes, ainda mantiveram certas estruturas sociais anteriores a Nakba, como as hamulas, e a influência social das antigas famílias de notáveis, mas também, por conta da pressão sionista e influência de ideologias e movimentos progressistas do Mundo Árabe e de outras regiões do planeta, a se afastar dos valores tradicionais da sua antiga sociedade camponesa. Isso era evidente nas novas gerações nascidas depois dos anos 1950. Se os palestinos exilados se modernizavam como forma de resistir aos males do exílio, os de Gaza e Cisjordânia, como forma de resistir a perde de grande parte do seu país primeiramente e depois para enfrentar a dureza da ocupação israelense e da ausência de direitos.

Campo de Refugiados palestinos de Sabra, em Beirute, capital do Líbano

É dentro desse processo de modernização, explicam Farsun e Zacharia, que se deve entender a emergência dos movimentos políticos e guerrilheiros palestinos dos anos da Guerra Fria como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) de Yasser Arafat, a Frente Popular de Libertação da Palestina, de Georges Habash, marxista-leninista e a Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh, também marxista e sediada em Damasco, capital da Síria ou uma organização pan-arabista surgida no Líbano, mas fundada também por muitos palestinos exilados como o Movimento Nacionalista Árabe. Somente, por volta da década de 1980, é que o islã político crescerá para influenciar a luta palestina, sendo o grupo Hamas o mais importante deles.

O trabalho de Farsun e Zacharia é de 1997 e, portanto, não aborda a época do governo de Sharom (2001-2006), os ataques israelenses de 2002, a construção do Muro na Cisjordânia, a morte de Yasser Arafat e demais acontecimentos das últimas duas décadas e seu impacto sobre a sociedade palestina-no exílio ou vivendo sob o domínio israelense, mas ele fornece informações vitais para se compreender a condição dessa sociedade fraturada e traumatizada, mas cuja luta ajudará a definir os rumos que a humanidade tomará no século XXI e com isso os caminhos próprios da modernidade.

Mapa da atual ocupação política e militar israelense nos territórios palestinos.

 

* Doutor em História pela Universidade de São Paulo e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Árabe.

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URÂNIO EMPOBRECIDO NA PRODUÇÃO DE MUNIÇÕES CINÉTICAS PARA CARROS DE COMBATE: ANÁLISE DE SEU USO POTENCIAL

Imagem ilustrativa

Por ANDERSON GOMES DE JESUS *

INTRODUÇÃO

O Brasil faz parte da comunidade de apenas 12 países que possuem capacidade de enriquecimento de urânio em suas diversas etapas. Os demais países reconhecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) são China, Estados Unidos, França, Japão, Rússia, Alemanha, Inglaterra, Holanda, Índia, Paquistão e Irã. Tal feito é o resultado de mais de cinquenta anos de esforços na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias autônomas que se mostraram revolucionárias. O início da construção da unidade de conversão das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) em Resende – Rio de Janeiro busca finalizar a última estrutura necessária para que todo o ciclo de enriquecimento seja feito em solo brasileiro.

A demora na construção da unidade não se deu por falta de capacidade tecnológica, mas sim por que a demanda anual de apenas duas usinas nucleares não tornava a construção dessa unidade economicamente viável. Quando a usina nuclear de Angra 3 entrar em operação, a demanda por combustível nuclear será aumentada e todo o ciclo sofrerá impacto, desde a lavra do minério de urânio, hoje localizada no município baiano de Caetité, até a produção de resíduo sob a forma de urânio empobrecido. Este trabalho tem por objetivo lançar um olhar sobre a viabilidade técnica do uso desse resíduo na produção de munições cinéticas, com vistas a aumentar a letalidade dos carros de combate da família Leopard.

DESENVOLVIMENTO

1. O ciclo do combustível nuclear

O ciclo do combustível nuclear é o conjunto de etapas do processo industrial que transforma o minério de urânio, encontrado em estado natural, passando por sua utilização como combustível dentro de uma usina nuclear, até o reaproveitamento final. Contempla as operações de: mineração, conversão, enriquecimento isotópico, reconversão, fabricação do elemento combustível (EC), queima no reator, reprocessamento e tratamento dos rejeitos.

1.1. Mineração

A composição média do urânio é de: 99,283% em U-238, 0,711% em U-235 e 0,006% em U-234. E pode se apresentar sob a forma de diversos minerais como óxidos, silicatos e fosfatos (BRASIL, 2015b). São poucos os países do mundo com reservas significativas de urânio e o Brasil é um deles, conforme se pode ver na tabela 1.

Atualmente, a unidade da INB em Caetité – Bahia produz 800 toneladas de concentrado de urânio por ano, o que é suficiente para atender à demanda das duas usinas nucleares em operação mais a de Angra 3 (BRASIL, 2012).

1.2. Conversão

A conversão é o conjunto de operações físico- -químicas que permitem a transformação do urânio de concentrado de urânio, conhecido como “yellow cake”, em hexafluoreto de urânio (UF₆). Os processos de enriquecimento atuais usam urânio na forma de hexafluoreto de urânio nuclearmente puro. Apropriado porque o UF₆ é o único composto conhecido do urânio que se apresenta sob a forma gasosa a temperaturas moderadas (a partir de 56°C com pressão normal). À temperatura ambiente, o UF₆ é sólido, o que facilita seu manuseio.

O flúor, por sua vez, possui apenas um isótopo estável e seu peso atômico é relativamente baixo, não prejudicando a separação dos isótopos de urânio. O “conversor” restitui ao cliente, sob a forma de UF₆, 99,5% do urânio recebido sob a forma de concentrado, e o produto deve obedecer às especificações do agente responsável pela etapa seguinte do Ciclo, o enriquecimento isotópico.

1.3. Enriquecimento isotópico

O processo de enriquecimento adotado pelo Brasil é a ultracentrifugação e se baseia na separação obtida por moléculas gasosas de ²³⁵UF₆ e ²³⁸UF₆ quando colocadas em uma turbina centrífuga, dotada de rotor de alta velocidade de rotação. As moléculas passam a girar com trajetórias diferentes, e o isótopo de urânio-235 tende a concentrar-se mais no centro, enquanto que o isótopo de urânio-238 fica mais próximo à parede do cilindro.

Duas tubulações de saída recolhem o urânio, sendo que numa delas segue o urânio que tiver maior concentração de isótopos 235, e na outra, o que tiver mais do isótopo 238 (chamado resíduo). Dessa centrífuga, o urânio é repassado para outra centrífuga e assim por diante, num processo em cascata. No final dessa cascata, o urânio com maior nível de enriquecimento (com 3,0% a 5,0% de urânio-235) é recolhido, enquanto que na base permanece o resíduo (com no máximo 0,3% de urânio-235) (BRASIL, 2015a).

1.4. Reconversão

Reconversão é o retorno do gás UF₆ ao estado sólido, sob a forma de pó de dióxido de urânio (UO₂). Após a reconversão, o UO₂ enriquecido é transformado em pastilhas que serão montadas nos elementos combustíveis para uso em reatores de potência.

Já o resíduo, o urânio com baixo teor de enriquecimento ou urânio empobrecido, objeto deste trabalho, não é reconvertido e fica estocado em cilindros capazes de armazenar o equivalente a 12500 kg de UF₆ (8450 kg U), como pode ser visto na figura 1.

Assim, considerando a capacidade de produção da unidade da INB em Caetité de 800 toneladas por ano de concentrado de urânio, podem ser obtidos nesse mesmo espaço de tempo 112 toneladas de urânio enriquecido e 688 toneladas de urânio empobrecido.

1.5. Reprocessamento de rejeitos

No Brasil se pratica o chamado ciclo aberto que prevê a disposição do combustível. Diferente do ciclo fechado em que se admite o reprocessamento do urânio, os elementos combustíveis usados nas usinas nucleares de Angra 1 e 2 repousam em piscinas destinadas a este fim dentro dos prédios dos próprios reatores.

No reprocessamento, o objetivo é recuperar o urânio-235 não convertido e o plutônio formado como subproduto que podem ser utilizados como combustível. Um elemento combustível irradiado possui em sua composição: 92,6% urânio-238; 0,8% urânio-235; 1,2% de plutônio; e 5,4% de outros produtos de fissão.

Diferentemente do urânio empobrecido obtido no processo de enriquecimento isotópico, e que não necessita de cuidados adicionais em seu transporte e armazenamento por ser um emissor alfa (α), o urânio empobrecido oriundo de reprocessamento possui em sua composição impurezas extremamente perigosas e cujo decaimento radioativo tem por característica a emissão de radiação gama (γ).

2. Radiações nucleares

Radiação nuclear é o nome dado às partículas ou ondas eletromagnéticas emitidas pelo núcleo durante o processo de reestruturação interna em busca de uma maior estabilidade. Essas radiações podem ser de três tipos: alfa (α), beta (β) ou gama (γ). 2.1. Radiação α Radiação alfa (α) são partículas constituídas de 2 prótons e 2 nêutrons (núcleo de ⁴He).

Em geral os núcleos alfa-emissores tem um número atômico elevado e, para alguns deles, a emissão pode ocorrer espontaneamente. Essas partículas, por terem massa e carga elétrica relativamente maior, são facilmente detidas por um obstáculo; elas em geral não conseguem ultrapassar sequer as camadas externas de células mortas da pele de uma pessoa, por exemplo, sendo assim praticamente inofensivas. Entretanto, podem penetrar no organismo através de um ferimento ou por inalação provocando, nesse caso, lesões graves.

2.2. Radiação β

Radiação beta (β) é o termo usado para descrever elétrons de origem nuclear, carregados positiva (β+) ou negativamente (β-). Sua emissão constitui um processo comum em núcleos de massa pequena ou intermediária que possuem excesso de nêutrons ou de prótons em relação à estrutura estável correspondente. Nessas radiações, os efeitos são superficiais, podendo chegar a alguns milímetros dependendo da energia da radiação.

2.3. Radiação γ

Quando um núcleo decai, são formados núcleos residuais fora da configuração de equilíbrio. Assim, para atingir o estado de equilíbrio, é emitida a energia excedente sob a forma de radiação eletromagnética, denominada radiação gama (γ). Os fótons de radiação gama constituem as radiações mais penetrantes e causam danos biológicos diferentes conforme a dose total, energia e tipo de irradiação.

3. Carros de Combate Leopard 1

Os Carros de Combate Leopard 1 A5 BR compõem a espinha dorsal da Cavalaria do Exército Brasileiro. Eles possuem características gerais muito similares àquelas esperadas da VBC EE-T1 P1 Osório que se planejava adquirir para a Força Terrestre. O Leopard 1 A5 BR é o resultado de um estudo originado no início dos anos 80 com a finalidade de manter o poder de combate e a capacidade de sobrevivência do Leopard 1 para além do ano 2000.

Assim sendo, o Carro de Combate, originalmente desenhado para combater os T-55 e T-62 soviéticos, teve que ser redesenhado para fazer frente aos novos T-64B, T-72B, T-72M1 e T-80B. Para atingir esta meta foram melhoradas: a capacidade de combater à noite e com mau tempo; de disparar em movimento contra alvos também em movimento; de calcular com exatidão a solução de tiro, com a velocidade e a precisão necessárias para abater um grande número dos compactos blindados russos (BERALDI, 2006).

Nessa repotencialização, uma nova torre foi desenvolvida, maior que aquela das versões anteriores, para abrigar todos os novos sistemas e a munição extra. Esta nova torre vem previamente preparada para aceitar o canhão Rheinmetall L44 de 120mm do Leopard 2, porém, essa atualização mostrou-se econômica e tecnicamente desinteressante após a conversão de apenas um veículo para o padrão 1A6 no ano de 1987, optando-se pela aquisição de mais veículos Leopard 2 pelo Exército da Alemanha Ocidental (BERALDI, 2006).

Outra atualização essencial para cumprir os novos requisitos foi a introdução da munição perfurante de calço descartável estabilizada por aletas (Armor Piercing Fin Stabilized Discarding Sabot – APFSDS), para fazer frente às novas blindagens russas. Sendo esse o objeto deste trabalho.

3.1. Poder de fogo

No tocante ao poder de fogo, o canhão L7 A3 empregado pelo Leopard 1 A5 BR mantém boa capacidade de combate até os dias de hoje, principalmente se equipado com as munições mais atuais disponíveis no mercado.

Para fins de comparação, a tabela 2 mostra as principais munições APFSDS nos calibres 105mm e 120mm disponíveis atualmente, onde se pode observar o desempenho real de cada uma delas. Com relação ao item penetração, as munições 105 mm foram disparadas por canhão da família L7 e as de 120 mm por canhão da família L44 com os alvos colocados à distância de 2.000 metros.

Já a medida RHAe (Rolled Homogeneous Armor Equivalent) foi criada para determinar a resistência de uma blindagem composta à penetração, comparando esta blindagem composta com uma blindagem homogênea (aço puro). As munições cinéticas em uso atualmente pelo Exército Brasileiro são as constantes na tabela 3, sendo apenas a DM63 (designação alemã da munição M-426 de fabricação israelense) disponível para aquisição uma vez que os outros modelos em estoque tiveram sua fabricação descontinuada.

Nota-se que o ganho em desempenho quando se compara a melhor munição APFSDS de 105mm disponível no Exército Brasileiro frente a melhor munição no mesmo calibre, porém com penetrador de urânio é de 22%. Isto, quando considerado o cenário sul-americano, não justifica a opção pelo penetrador de urânio, a menos que se considere como ameaça os Leopard 2A4 chilenos e os T-72 B1 venezuelanos.

No caso de serem levados em conta Carros de Combate mais modernos, pode-se fazer necessária uma troca de munição. A tabela 4 mostra a resistência à penetração em RHAe da blindagem dos Carros de Combate mais modernos encontrados na América do Sul.

A tabela 5 mostra a resistência à penetração em RHAe da blindagem dos Carros de Combate mais avançados em nível mundial. Assim, se estabelece uma comparação entre a capacidade de penetração das munições disponíveis no âmbito do Exercito Brasileiro e a capacidade de resistência à penetração dos carros de combate de outros países.

CONCLUSÃO

Muito se tem dito a respeito dos supostos perigos no manuseio das munições APFSDS com penetrador de urânio. Essas munições, se fabricadas a partir do resíduo do enriquecimento isotópico, não representam perigo para as tripulações dos Carros de Combate uma vez que o urânio-238 é um emissor α. Porém, quando se refere à proteção do meio ambiente, a dispersão de partículas de urânio no terreno, além de contaminar o solo, pode também contaminar cursos d’agua e lençóis freáticos, levando à inalação ou até mesmo ingestão desse material que tem características cumulativas.

Já quanto a seu uso, as munições APFSDS com penetrador de urânio empobrecido costumam ser mais eficazes, principalmente quando se considera a possibilidade de um embate contra Carros de Combate modernos. A fábrica de Juiz de Fora da Imbel já produziu penetradores de tungstênio no calibre 90mm no passado, ou seja, o desafio de produzir um penetrador de 105mm não é tarefa distante da realidade.

Além disso, toneladas de urânio empobrecido encontram-se seguramente acondicionadas em cilindros no pátio da Fábrica de Combustível Nuclear da INB em Resende – Rio de Janeiro. Assim, o desenvolvimento de penetradores de urânio para munições APFSDS no calibre 105mm para equipar os Leopard 1 A5 BR do Exército Brasileiro apresenta mais vantagens do que desvantagens na medida em que: aumenta a letalidade do Carro de Combate em questão, tornando-os capazes de fazer frente a seus opositores modernos; tal iniciativa seria de grande importância para alavancar a pesquisa e o desenvolvimento no setor nuclear tendo como resultado um produto de defesa de elevado valor agregado e com demanda no mercado internacional; e reduz a quantidade de subproduto armazenado, gerado a partir do ciclo do combustível nuclear.

REFERÊNCIAS

BERALDI, Alexandre. Carros de Combate Leopard I no Exército Brasileiro. Sistemas de Armas. 2006. Disponível em: . Acesso em: 25 Out. 2017.

BRASIL. Escola de Material Bélico (EsMB). Leopard 1: generalidades sobre as munições usadas pelo EB. Forças Terrestres. Reproduzido de Informatbel. 2011 Disponível em: Acesso em: 25 Out. 2017

_______. INDUSTRIAS NUCLEARES DO BRASIL S.A. (INB). 2018. Disponível em: Acesso em: 30 Jun. 2018

_______. INSTITUTO DE ENGENHARIA NUCLEAR (IEN). Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Nucleares. Enriquecimento Isotópico, Reconversão e Montagem do Elemento Combustível. Apostila. Rio de Janeiro: Acadêmica, 2015a.

Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Nucleares. Mineração, Tratamento Físico do Minério, Produção de Concentrados de Urânio e Conversão. Apostila. Rio de Janeiro: Acadêmica, 2015b.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG). Programa de Pós-Graduação em Ciências e Técnicas Nucleares. Ciclo do Combustível Nuclear. Apostila. Belo Horizonte: Acadêmica, 2012.

ESTADOS UNIDOS. United States Enrichment Corporation (USEC). USEC-651: Good Handling Practices for Uranium Hexafluoride. Revision 8. USA, 1999.

NOE, Kenny. Kenny’s Hole in Cyberspace. 2002. Disponível em: Acesso em: 20 Ago. 2018

VALENTE, Gabriel Vieira. Eficiência balística terminal das munições de emprego da VB CCC Leopard 1 A5 BR contra os principais carros de combate da América do Sul. Monografia (Bacharel em Ciências Militares) – AMAN, Resende, 2016.

Sobre o Autor: O autor é 1º Tenente Técnico Temporário (Magistério Química). Licenciado em Química pela UFRJ (2004). Bacharel em Química pela UNIGRANRIO (2006). Mestre em Ciência e Tecnologia Nucleares pelo Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) (2017). Atualmente é professor de química aplicada da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).

Fonte: AÇÃO DE  CHOQUE  CI Bld

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Sugestão de Leitura

Sugestão de leitura: Livro do GRUMEC "Guardiões de Netuno"

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XVIII Curso de Extensão em DEFESA NACIONAL

 

A Faculdade INPG em parceria com o Ministério da Defesa realizam entre os dias 25 à 29 de Junho o XVIII Curso de Extensão em DEFESA NACIONAL.

Trata-se de um ciclo de palestras organizadas pelo Ministério da Defesa com o objetivo de difundir o conhecimento sobre defesa junto à sociedade e estará aberto à toda comunidade acadêmica e civil da região do Vale do Paraíba.

O evento contará com personalidades – já confirmadas – do Ministério da Defesa, Ministério das Relações Exteriores, EMCFA, SEPROD, SEPESD, Marinha do Brasil, Força Aérea Brasileira (DCTA/IES) e Exército Brasileiro. Assim como, ABIN e do poder Executivo Federal e Municipal.

A temática das palestras envolvem as áreas das Políticas Externa e de Defesa do Brasil e serão ministradas por autoridades do poder executivo, da academia, da diplomacia e das Forças Armadas. Os eixos temáticos visarão abordar temas destas áreas e há possibilidade de adaptarmos à nossa realidade, principalmente no que concerne à indústria de defesa do Vale do Paraíba.
Contaremos com a participação de empresas da área de defesa da região (Avibrás, Savir entre outras).

Já é possível de destacar a participação do prefeito de São José dos Campos e do Dr. Ozires Silva, ex-presidente da Embraer. Assim como a vinda de alunos das principais escolas militares (ECEME, AMAN, ESCOLA NAVAL, ESPCEX, entre outros) e outras autoridades da região (Polícia Federal, Polícia Militar do Estado de São Paulo e outras agências de segurança).

Inscrições em: https://cedn.defesa.gov.br/formulario_inscricao/

 

*Agradecemos ao amigo Marco Túlio Freitas pela informação para divulgação desse evento.

 

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Defesa Negócios e serviços Sugestão de Leitura Tecnologia

Britânicos retornam ao projeto do veículo blindado Boxer 8x8

Tradução e adaptação: E.M.Pinto

Segundo um comunicado do Ministério da Defesa britânico publicado em 31 de Março de 2018 e apresentado no Army Recognition, o Exército britânico deu um passo em direção a um acordo para uma frota de novos veículos blindados, potencialmente apoiando pelo menos mil empregos britânicos. Na ocasião foi relatado o anuncio da escolha do veículo de projeto alemão  Boxer para o programa de veículo blindado 8×8.

O Reino Unido voltará a participar do programa de veículos blindados Boxer 8×8 e explorará as opções para equipar o Exército Britânico com os transportadores de tropas 8×8 para modernizar sua frota e atender às exigências do Exército de Infantaria Mecanizada do Exército.

O Reino Unido desempenhou um papel importante no projeto original, no desenvolvimento e nos testes do Boxer 8×8  e iria retomar os direitos que tinha como parceiro do projeto se um acordo fosse realizado – permitindo a opção do veículo ser construído e exportado do Reino Unido. O negócio pode culminar na montagem completa do  Boxer no Reino Unido com pelo menos 60% da produção sendo executada pela indústria britânica, sustentando e desenvolvendo as capacidades, instalações e habilidades industriais do Reino Unido.

A Artec, consórcio que fabrica o veículo blindado Boxer, já assumiu compromissos com a indústria britânica, assinando acordos de parceria com a BAE Systems, Pearson Engineering e Thales UK, em antecipação a um acordo.

Espera-se que as empresas britânicas concorram para a fabricação e fornecimento de muitos dos subsistemas dos veículos, bem como para uma linha completa de produção e montagem no Reino Unido. As estimativas sugerem que o investimento planejado da Artec no Reino Unido pode garantir ou criar pelo menos 1.000 empregos, com base em todo o país, incluindo locais como Glasgow, Newcastle, Sheffield, Stockport, Telford e País de Gales.

Com empresas como a Rolls Royce já equipando os motores e a Parker-Hannifin, a William Cook Engineering e outras empresas britânicas que também fornecem sub-sistemas para o veículo, esse acordo poderia garantir uma parceria industrial britânica mais ampla.

O MOD britânico avança as negociações com a Organização para a Cooperação Conjunta de Armamento (OCCAR) e a Artec. Ansioso para a fase de avaliação, concluinda em 2019, este irá considerar os benefícios comparáveis ​​de locais de fabricação e diferentes cadeias de suprimentos para o Boxer, bem como, os custos. Qualquer acordo estará sujeito a negociação comercial e avaliação em 2019 e o objetivo é ter os primeiros veículos em serviço no exército britânico em 2023.

A OCCAR é uma organização intergovernamental européia que facilita e gerencia programas de armamento colaborativo através de seu ciclo de vida entre o Reino Unido e aliados europeus. A organização administra o programa de veículo blindado Boxer 8×8 e, como um estado membro da OCCAR, o Reino Unido tem os direitos de propriedade intelectual necessários ao Boxer e maior controle sobre a garantia de que o Reino Unido se beneficie do trabalho da cadeia de suprimentos.

O MOD britânico realizou uma análise abrangente do mercado de veículos de infantaria mecanizados em serviço, entrando em serviço e em desenvolvimento. A análise foi guiada pelos requisitos do Exército Britânico e pela melhor maneira de entregá-los. O Boxer ofereceu mobilidade, capacidade, flexibilidade, utilidade, proteção  e agilidade.

Como parte do acordo proposto, espera-se também que o Reino Unido veja um substancial investimento interno da Rheinmetall, uma das empresas controladoras da Artec, que sinalizou sua intenção de lançar um centro de produção e integração de veículos blindados no Reino Unido como parte do programa. Isso representaria um compromisso significativo que levaria à capacidade de veículos blindados de longa duração no Reino Unido.

A Krauss-MaffeiWegmann (KMW), já possui uma importante instalação de produção no Reino Unido em Stockport, de onde projeta, fabrica e dá suporte aos  equipamentos militares complexos em países como EUA e Austrália, além de partes da Europa. .

 

Fonte: Army recognition

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FAB PÉ DE POEIRA: Emprego de veículo blindado de transporte de tropa no âmbito do Comando da Aeronáutica

Imagem meramente ilustrativa. Arte Athos Gabriel

Autor: Major Infantaria Alexandre Esteves da Silva

RESUMO

Esta pesquisa visa a identificar as possibilidades de emprego dos veículos blindados de transporte de pessoal (VBTP) no Comando da Aeronáutica (COMAER) e verificar o impacto da utilização de VBTP para o fortalecimento do Poder Aeroespacial brasileiro. Os dados foram coletados por meio de uma pesquisa bibliográfica, documental e da aplicação de um questionário. Analise documental identificou que a legislação atual do SISTRANS não define o conceito e as especificações dos chamados VBTP, mas prevê sua dotação às Unidades de Emprego de Infantaria da Aeronáutica. Portanto, há um hiato entre a necessidade de meios para que a INFAER possa cumprir sua missão e o apoio logístico para que tal necessidade seja atendida.

INTRODUÇÃO

 No Comando da Aeronáutica (COMAER), a competência para a utilização e emprego de veículos de transporte de superfície é regulada pela Instrução do Comando da Aeronáutica (ICA) 75-6 (Classificação, Distribuição, Emprego, Utilização e Operação de Veículos de Transporte de Superfície), sendo a Diretoria de Engenharia da Aeronáutica (DIRENG) o Órgão Central do Sistema de Transporte de Superfície (SISTRANS). Todavia, a destinação dos meios de superfície é regulada pela TCA 75-1, referente à Tabela de Distribuição de Viaturas do Comando da Aeronáutica (TDV), no qual o código E-21 (veículos sem enquadramento) aparece a previsão aos Batalhões de Infantaria da Aeronáutica Especiais (BINFAE´s) de um veículo especial, denominado Veículo Blindado de Transporte de Pessoal (VBTP). O Glossário das Forças Armadas (MD35-G-01) define o termo blindado como o meio sobre rodas, sobre lagartas ou sobre ambos, que possui blindagem que permite aproximar-se do inimigo relativamente protegido dos efeitos dos tiros das armas portáteis, estilhaços de granadas e, até certo grau, dos efeitos das armas químicas, bacteriológicas e nucleares.” (MD35- G-01, 2007, 41).

M-706 Cadillac Gage Commando pertencente a Força Aerea Tailandesa (Royal Thai Air Force)
M-706 Cadillac Gage Commando pertencente a Força Aérea Tailandesa (Royal Thai Air Force). A Força Aérea Americana também utilizou o veiculo para a proteção de suas bases aéreas.

Segundo o Professor Expedito Carlos Stephani Bastos, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o Brasil foi o primeiro país sul-americano a adquirir veículos blindados para o seu exército. Em 1921, o Exército Brasileiro (EB) recebeu 12 (doze) Renault FT-17, criando assim a Companhia de Carros de Assalto, extinta em 1942. Esses blindados atuaram operacionalmente nas revoluções de 1924, 1930 e 1932. Os VBTP são empregados como meio de transporte tático de tropas de infantaria das forças armadas de diversos países, num ambiente tático operacional, podendo também ser utilizado para o transporte de feridos e comando e controle (C2). Seu armamento consiste geralmente em uma metralhadora de alto calibre, embora outras variantes carreguem também um canhão sem recuo ou um lança-granada foguete (BASTOS;BASTOS JÚNIOR, 2003, p. 1).

O tema desta pesquisa está contido na linha de pesquisa “Doutrina de Emprego”, pois se propõe a realizar uma pesquisa científica que contribua com a formulação e disseminação de conceitos básicos e normas de comportamento que orientem as atividades relacionadas à Atividade de Suporte Operacional Segurança e Defesa, na forma preconizada na DCA 1- 1 (Doutrina Básica da Força Aérea), DCA 14-5 (Política Militar da Aeronáutica) e na NSCA 205-3 (Estrutura e Atribuições do SISDE). A DCA 1-1 elenca como Atividade de Suporte Operacional aquelas atividades que têm o propósito síntese de prover condições para a Força Aérea manter se em combate, constituindo ações diversificadas, permanentes, distribuídas por variados segmentos da Força Aérea e, por isso mesmo, dependentes de estreita coordenação. Para o caso em questão, destacam-se as ações de Segurança e Defesa:

Conjunto de ações que contribuem para a preservação do poder combatente da FAB. Consiste na consecução de ações defensivas, ofensivas e de proteção, a fim de garantir o grau de segurança desejado das instalações, dos equipamentos e do pessoal de interesse do COMAER. (DCA 1-1, 2005, p. 51)

 A grande preocupação do autor com a segurança e defesa das instalações aeronáuticas advém dos 5 (cinco) anos de experiência acumulada no comando do BINFA- 43, o Batalhão de Infantaria da Base Aérea de Santa Cruz (BASC), onde também exerceu a função de Oficial de Segurança e Defesa. A escolha do emprego dos VBTP como tema desta pesquisa deve-se a sua relevância para o meio acadêmico militar, e em especial à Força Aérea Brasileira (FAB). De acordo com o Centro de Operações Terrestres da Aeronáutica (COTAR), o conceito de tropa de infantaria transportada em veículos blindados sobre rodas – podendo inclusive combater sem efetuar um desembarque – está amplamente arraigado nas tropas de Segurança e Defesa das Forças Aéreas de diversos países, dentre os quais o pesquisador destaca, com o intuito de amostragem, os Estados Unidos da América (EUA), Inglaterra, Austrália, Portugal, e Suécia.

O Humvee – 1165A1 W/AC B3 poderia ser usado pelos Grupos de Defesa Antiaérea para o transporte de militares, Sistema Antiaéreo IGLA-S e radar SABER M-60. Imagem meramente ilustrativa. Arte Athos Gabriel

Desta forma, se o emprego de VBTP encontra-se difundido no âmbito de várias Forças Aéreas, chega-se ao seguinte questionamento: qual o impacto que a utilização dos VBTP contribuiria para o fortalecimento do Sistema de Segurança e Defesa (SISDE) do Comando da Aeronáutica? E no desdobramento desta questão surgem outras: a Infantaria da Aeronáutica dispõe de veículos que a abrigue dos fogos inimigos e que lhe dê a necessária mobilidade que a guerra moderna exige? Teriam os meios terrestres empregados para a segurança e a defesa das instalações militares, notadamente das bases aéreas, acompanhado a evolução doutrinária ocorrida em outros países? Haveria cenários operacionais para a Infantaria da Aeronáutica, no qual os VBTP seriam empregados em prol do fortalecimento do Poder Aeroespacial?Qual o tipo de blindado seria mais adequado às necessidades do SISDE, à vistas dos Comandantes de Unidades de Infantaria (U Inf). Diante do exposto, torna-se claro o objetivo deste trabalho, que é identificar as possibilidades de emprego dos VBTP nas missões atribuídas às Unidades de Infantaria no âmbito do Sistema de Segurança e Defesa do COMAER. Para validar esta pesquisa, porém, é necessário discorrer sobre a metodologia empregada, facilitando o entendimento dos critérios e das técnicas utilizadas ao longo do trabalho.

1 METODOLOGIA

 O tema escolhido é pouco explorado, sendo difícil formular hipóteses precisas. Nas palavras de Vergara: “há pouco conhecimento acumulado e sistematizado” (VERGARA, 2004, p. 44). Desta forma, será realizada uma pesquisa exploratória, efetuando-se uma análise dos conflitos ocorridos no século XX, nos quais aconteceram ataques a bases aéreas ou outras instalações de interesse do Poder Aéreo por forças terrestres (regulares ou irregulares). Como parte da metodologia aplicada, o trabalho seguirá um delineamento bibliográfico e documental. A pesquisa bibliografia, segundo Santos (1999, p. 105) tem como instrumento essencial a habilidade de leitura, isto é, a capacidade de extrair informações a partir de textos escritos.

Também será documental porque valer-se-á de materiais que ainda não receberam tratamento analítico, como tabelas e normas internas do COMAER, e desenvolvida tendo como base material já elaborado, constituído, principalmente, por livros, artigos científicos, ensaios, e redes eletrônicas (VERGARA, 2004, p. 48). A pesquisa documental em muito se assemelha com a bibliográfica, porém com uma diferença essencial quanto à natureza das fontes. De qualquer modo, podem ser encontrados dados valiosos em documentos de segunda mão, os quais já sofreram uma filtragem em relação ao seu conteúdo. Os meios de consulta, que serão utilizados, são – em sua maior parte – de caráter ostensivo, ou seja, são acessíveis ao público em geral. Alguns artigos publicados em revistas, ou em mídia eletrônica, por não terem recebido um tratamento analítico, ou serem de fontes secundárias, levaram ao enquadramento da pesquisa como documental.

Fiat Oto Melara 6614 pertencente a Força Aerea Argentina.
Fiat Oto Melara 6614 pertencente a Força Aérea Argentina.

A pesquisa terá aspecto qualitativo, por atribuir significados aos fenômenos interpretados pela pesquisa. Quanto ao método científico empregado, será utilizado o método de procedimento histórico comparativo, por ser a pesquisa um estudo de conhecimentos e processos, visando a identificar e explicar as origens dos fenômenos contemporâneos apresentados. E comparativo, por se desenvolver pela investigação de fenômenos ou fatos, com objetivo de evidenciar as diferenças e similaridades entre eles. A coleta de dados será feita através de uma pesquisa histórica e documental, a fim de situar a origem do assunto abordado. Após, será buscado o referencial teórico, através da análise das teorias do emprego do poder aéreo. Por fim, buscou-se identificar possíveis cenários de emprego de VBTP nas missões atribuídas às Unidades de Infantaria, no âmbito do Sistema de Segurança e Defesa do Comando da Aeronáutica. Para tanto, foi aplicado um questionário aos Comandantes e ex Comandantes de BINFAE e BINFA, visando a obtenção de dados relativos ao tema da pesquisa, na visão dos militares que trabalham diretamente na atividade de Segurança e Defesa. Dentre as 31 U Inf do COMAER, 8 foram objeto deste estudo.

O autor vislumbra que este trabalho venha a contribuir positivamente como fonte de referência ao aprofundamento do tema no âmbito do COMAER, não encerrando a discussão sobre o assunto em questão. Ao contrário, constituirá no futuro uma primeira etapa de uma investigação científica mais ampla. Toda a pesquisa teve por referencial teórico os ensinamentos do doutrinador o consagrado autor da obra “O Domínio do Ar”, o General Giulio Douhet. Segundo Douhet (1988, p. 59), a melhor maneira de combater o poder aéreo do inimigo é destruindo seus vetores no solo, quando se encontram mais vulneráveis, do que tentar derrubá-los no ar. Alan J. Vick, Ph.D. em Ciência Política, pela Universidade da Califórnia, Irvine, EUA, e Pesquisador Senior da RAND Corporation  (A RAND Corporation é uma instituição privada independente e sem fins lucrativos, nos EUA, que se destina a auxiliar no implemento de políticas e na tomada de decisões através da análise e da pesquisa), e um dos maiores estudiosos de segurança e defesa de bases aéreas, com mais de 15 (quinze) trabalhos sobre estratégia militar, controle de armas e gerenciamento de crises. Vick apresenta um extenso levantamento das ocorrências nos conflitos armados entre 1940 e 1992 (493 casos).

Com base neste arrolamento, ele propõe uma classificação dos ataques a instalações aeronáuticas baseada no objetivo principal dos atacantes. Pretende, assim, demonstrar a diferença que existe entre os diversos potenciais atacantes de bases aéreas, suscitando distintas táticas de enfrentamento. Desde o ataque ao aeródromo aliado na ilha de Creta por parte da Luftwaffe em maio de 1941, até o término da Primeira Guerra do Golfo, foram enumerados 493 ataques às instalações aeronáuticas, indicando a vulnerabilidade dos vetores aéreos de combate quando estacionados nos hangaretes de suas bases, tanto a ataques aéreos quanto a assaltos aeroterrestres (VICK, 1995). Da acurada leitura dessas obras, o pesquisador demonstra a vulnerabilidade encontrada na defesa das bases aéreas em todos os conflitos armados ocorridos

ao longo de mais de 60 (sessenta) anos de história, lembrando que as Forças de Segurança e Defesa dispunham de meios apropriados para se antepor à ameaça e dar a pronta resposta necessária. Assim, o autor vislumbra que este trabalho possa vir a contribuir positivamente como fonte de referência ao aprofundamento do tema no âmbito do COMAER, não encerrando a discussão sobre o assunto em questão. Com a intenção de dar continuidade ao trabalho passa-se a verificar o conceito de VBTP, sua origem e evolução nos teatros de operações de alguns conflitos ocorridos ao longo do século XX.

A Força Aerea Peruana (Fuerza Aérea del Perú) emprega o Blindado 4x4 BRDM-2 (Boyevaya Razvedyvatelnaya Dozornaya Mashina, "Veículo de combate de patrulha/reconhecimento")
A Força Aerea Peruana (Fuerza Aérea del Perú) emprega o Blindado 4×4 BRDM-2 (Boyevaya Razvedyvatelnaya Dozornaya Mashina, “Veículo de combate de patrulha/reconhecimento”)

2 VEÍCULO BLINDADO DE TRANSPORTE DE PESSOAL

Segundo Jamerson de Oliveira (2009, p. 6), um Veículo Blindado de Transporte de Pessoal (VBTP) é utilizado para o transporte de tropas e equipamento. Ao contrário do carro de combate, é mais leve e possui menos blindagem e armamento, geralmente apenas uma metralhadora de alto calibre, embora outras variantes carreguem também um canhão sem recuo, morteiro ou outros tipos de armamentos mais pesados. Sua finalidade principal e para a qual esses tipos de viaturas foram construídos é a condução de tropas para as proximidades do conflito. Sua origem remonta aos idos da Primeira Guerra Mundial. O Coronel Portella Alves, autor do livro “Os blindados através dos séculos”, afirma que a aparição do tank inglês teve rápida evolução, por ser uma idéia que remontava a tempos antigos e contar com o parque industrial das diversas potências em guerra voltado para atender às necessidades militares (ALVES, 1964, p. 135). No decorrer daquele conflito, uma evolução do conceito levou um veículo de cavalaria a ter uma variante para a infantaria, com o advento do blindado britânico Mark V, que foi desenhado com um pequeno compartimento para transportar tropas. Por algumas definições, este pode ser considerado o primeiro veículo blindado de transporte de pessoal. Todavia, o primeiro VBTP especializado foi o Mark IX. Os britânicos criaram o primeiro modelo em 1917, como forma de acompanhar o desenvolvimento dos primeiros carros de combate e tentar dotar a infantaria de mobilidade e proteção no campo de batalha. Tinha capacidade para 50 (cinquenta) homens e, por isso, seu comprimento atingiu 18 (dezoito) metros (ALVES, 1964, p.143).

A essa iniciativa pioneira, seguiu-se um esforço semelhante dos alemães, que resultou, a partir da década de 30, na adoção de unidades de infantaria embarcadas em veículos de meia-lagarta, os Panzergrenadieren. Tais unidades participaram com êxito dos primeiros combates da 2a Guerra Mundial atuando nas formações de carros de combate (SANTOS JR, 2006, p.48). Os americanos rapidamente aproveitaram a experiência alemã e, entre 1941 e 1945, produziram mais de 40 mil viaturas blindadas de meia-lagarta, com as quais equiparam unidades do seu Exército e também de aliados. O exército soviético estava entre aqueles que utilizaram os meia-lagartas americanos, adotando também, a partir dessa época, o conceito de veículo blindado de transporte de pessoal. (SANTOS JR, 2006, 48). Para Santos Jr (2006, p. 48), os modelos de viaturas blindadas de transporte de pessoal em uso na 2a Guerra Mundial eram, muitos deles, originados de adaptações feitas em carros de combate e peças de artilharia autopropulsadas, que apresentavam limitações e deficiências. Essas só viriam a ser adequadamente superadas mais tarde, com o perfil elevado, que aumentava sua vulnerabilidade, a dificuldade para o desembarque da tropa e a blindagem, sobretudo em sua parte superior. Ainda segundo Santos Jr (2006, p. 48) após a guerra, diferentes VBTP especializados foram desenvolvidos. De acordo com a enciclopédia eletrônica Wikipédia, nesse período, os EUA desenvolveram uma série de veículos sobre lagartas, originando o M113 “caixa em lagartas”, do qual foram produzidas 80 000 unidades. A União Soviética desenvolveu o BTR-40 do tempo da guerra, numa série de VBTP de oito rodas. Segundo o autor tratado até o momento (2006, p. 48), no final dos anos 80, Israel converteu carros de combate T-55 capturados em veículos de transporte para unidades de infantaria. O resultado foi um dos VBTP melhor protegido do mundo, chamado de IDF Achzarit. 9. E foi nessa época que surgia no Brasil o EE-11 URUTU, construído pela Engenheiros Especializados S/A (ENGESA), um equipamento pensado dentro da realidade do parque automobilístico nacional, e que se tornou um sucesso de vendas, equipando tanto o EB e Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) como também exércitos de outros países, da América Latina, África, Ásia e Oriente Médio. Com o foco em identificar as possibilidades de emprego das VBTP no âmbito do COMAER, apresentar as tendências e perspectivas das VBTP e as repercussões da adoção desse novo meio para a Infantaria da Aeronáutica, serão analisados possíveis cenários de emprego dos VBTP no âmbito da Infantaria da Aeronáutica.

3 CENÁRIOS DE EMPREGO

 De acordo com Santos Jr (2006, p. 47), o combate moderno tem ressaltado a crescente necessidade de empregar forças em localidades urbanas. Nesse contexto, o blindado deve atender a requisitos e critérios específicos para integrar os BINFAE, aptos a participarem de Operações Terrestres de caráter urbano – onde se localiza a maior parte dos aeródromos. Após o final da Segunda Guerra Mundial, os países que produziam VBTP aplicaram-se na pesquisa e desenvolvimento de novos modelos, que incorporavam aperfeiçoamentos capazes de eliminar ou reduzir as deficiências dos modelos antigos. Logo, estabeleceram se duas tendências, ainda permanentes nos dias atuais: o emprego de lagartas e o uso de chassis sobre rodas (SANTOS JÚNIOR, 2006, p. 48). Para um emprego predominantemente urbano, com deslocamentos em sua maioria por vias pavimentadas, seja por concreto ou asfalto, a indicação tende claramente para VBTP sobre rodas, de acordo com Santos Jr (2006, p. 49). Todavia, se o emprego for em combate convencional, com deslocamentos em terrenos abertos, contra um inimigo mais bem armado, tende-se a optar por viaturas blindadas sobre lagartas. Em recente palestra realizada na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), o Tenente Coronel Infante Eustáquio Alves da Costa Neto, instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) – núcleo do pensamento doutrinário da Força Terrestre – divulgou que o Exército Brasileiro converterá seus Batalhões de Infantaria Motorizada (Jipes e Caminhões Tropa) em Batalhões de Infantaria Mecanizada (VBTP – URUTU ou M-113), justamente antevendo esta tendência mundial. Por possuírem boa mobilidade, blindagem e reduzido poder de fogo, as VBTP acrescentariam um maior poder de combate à INFAER; ainda que a blindagem não proteja as tropas de armas pesadas, ou munições inteligentes (SANTOS Jr, 2006, p. 50). Todavia, ficariam protegidas das mais leves, proporcionando ação de choque, rapidez e proteção na execução das tarefas pertinentes de defesa de aeródromo, ou durante o estabelecimento em áreas de difícil acesso, como favelas – nas patrulhas de cumprimento de Mandados de Busca e Apreensão, quando for o caso.

Durante su participação na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) a Infantaria da FAB pode conhecer mais sobre a doutrina de emprego de viaturas blindadas. Na imagem membros da Infantaria da FAB posam junto de um Engesa EE-11 Urutu.
Durante su participação na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) a Infantaria da FAB pode conhecer mais sobre a doutrina de emprego de viaturas blindadas. Na imagem membros da Infantaria da FAB posam junto de um Engesa EE-11 Urutu.

Em 2006, o COTAR emitiu ao Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER) um documento que visava prover aquele órgão de subsídios que justificassem e orientassem a aquisição/desenvolvimento de um VBTP, para emprego pela tropa de Infantaria da Aeronáutica (BRASIL, 2006, p. 2). Esse documento, denominado de Necessidade Operacional (NOP), visa a metodizar os procedimentos para Formalização de NOP, em complemento à DCA 400-6 que trata do Ciclo de Vida de Sistemas e Materiais da Aeronáutica (BRASIL, 2000, p. 7). Nesse documento o COTAR levanta alguns cenários de emprego para a Infantaria da Aeronáutica, nos quais VBTP podem ser empregados.

3.1 CENÁRIO 1: A GUERRA CONVENCIONAL

 O cenário inicial que se descortina é o da guerra convencional. Nesta situação a Infantaria da Aeronáutica estará engajada em sua atividade-fim, ou seja, a autodefesa de superfície de bases aéreas e outras instalações e meios de interesse da Força Aérea, a fim de contrapor-se a um grande espectro de forças inimigas, que vão desde pequenos grupos de guerrilheiros e pequenas unidades táticas de operações especiais, até grandes unidades aeroterrestres, aeromóveis e anfíbias. Em tal cenário, a utilização de VBTP garantiria à tropa de Infantaria da Aeronáutica segurança em suas operações defensivas e ofensivas, meios de mobilidade e proteção balística capazes de assegurar a execução das ações de reação, retardamento e contra-ataque, de forma a permitir o engajamento, neutralização ou destruição da força inimiga, antes que os recursos da Força Aérea a serem defendidos sejam danificados ou destruídos por ataques de infiltração à distância (morteiros, foguetes, etc.) ou assaltos de infantaria. Além disso, proporcionaria o lançamento rápido de postos de vigilância avançados, negando, assim, ao inimigo, a utilização de acidentes capitais do terreno para fogo e observação sobre as instalações aeronáuticas.

3.2 CENÁRIO 2: GARANTIA DA LEI E DA ORDEM

Neste cenário, as ações a serem realizadas são, basicamente, de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Tais ações, levadas a efeito unicamente no campo interno, destinam-se à garantia da manutenção dos poderes constituídos, da lei e da ordem, no termos do Art. 142 da Constituição Brasileira, quando ameaçados por grave perturbação da ordem ou comoção interna. A tropa de Infantaria da Aeronáutica, nas operações de GLO, de acordo com a Lei Complementar Nº 117, de 02 set. 2004, poderá ser engajada na Segurança e Defesa da infra-estrutura aeroespacial, aeronáutica e aeroportuária. A par disso, o emprego de blindados em tais operações apresenta um poder dissuasório elevado, uma vez que os veículos intimidam os elementos adversos, à mercê do seu tamanho, velocidade, blindagem e capacidade de lançamento de agentes não-letais.

O Humvee M1151 A1 poderia ser usado para missões de patrulhamento durante operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e em missões de Paz. Imagem meramente ilustrativa. Arte Athos Gabriel

3.3 CENÁRIO 3: GUERRAASSIMÉTRICA E SEUS ASPECTOS

 Vislumbra-se a Segurança e Defesa das instalações e meios da Força Aérea em tempo de paz, porém, com a ameaça existente de elementos do Crime Organizado que vêm atacando as Organizações Militares com o intuito de roubo de armamento, munições e explosivos. Este cenário é real, como pode ser comprovado pelas mais de trinta ocorrências verificadas contra instalações da FAB, desde os anos 80. O emprego de VBTP na Segurança e Defesa das instalações, em face da ameaça do Crime Organizado, constitui-se em fator de alta relevância para a incolumidade das OM, de vez que podem ser utilizados no patrulhamento perimetral interno da organização, em especial quando tais OM são lindeiras a áreas de grande periculosidade como, por exemplo, aquelas localizadas na cidade do Rio de Janeiro, onde se homiziam os membros do Crime Organizado que executam as ações contra as OM da FAB. Outro importante emprego de VBTP-SD é o de escolta de comboios logísticos, mormente daqueles que transportam Material Bélico, hoje a grande cobiça do Crime Organizado nos atentados contra as instalações das Forças Armadas.

Militares do Objektschutzregiment der Luftwaffe (ramo similar a Infantaria da Aeronáutica) realizando a proteção da Base aérea de Camp Marmal em Mazar-i-Sharif no Afeganistão. O blindado é um KMW Dingo 2 e os Militares portam fuzis Heckler & Koch G36

 3.4 CENÁRIO 4: ATUAÇÃO EM OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DE PAZ.

 Este cenário vislumbra a participação de tropa da Infantaria da Aeronáutica em Operações de Manutenção da Paz, sob mandato da ONU ou de outros organismos internacionais. De acordo com Dias e Zonzim Filho, a importância do emprego das VBTP na Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH) se faz presente devido aos frequentes engajamentos em cada missão diária, o que levou à necessidade de um veículo blindado que propiciasse segurança à integridade física dos integrantes da MINUSTAH – fuzileiros navais ou integrantes do contingente do Exército Brasileiro – EB (DIAS, ZONZIN FILHO et al., 2009). Apesar da situação dominante no Haiti ser de relativa tranquilidade, com uma estabilidade que afasta a desordem das ruas e reduz bastante a criminalidade, um processo de insatisfação popular, como a subida dos preços, pode derivar uma grande manifestação popular como a ocorrida em 08 de abril de 2008, que levou a uma onda de violência que tomou a capital (DIAS; ZONZIN FILHO et al., 2009).

A Força Aerea Venezuelana (atual Aviación Militar Bolivariana) emprega veiculos blindados 4x4 IMI RAM MK3 de fabricação israelense.
A Força Aérea Venezuelana (atual Aviación Militar Bolivariana) emprega veículos blindados 4×4 IMI RAM MK3 de fabricação israelense.

O patrulhamento motorizado que era realizado com viaturas leves e caminhões UNIMOG recebeu um significativo incremento em prol da segurança e integridade física dos integrantes da Força de Paz, com o emprego dos VBTP, mesmo atuando isoladamente na guarnição de Postos de Controle de Trânsito (DIAS; ZONZIN FILHO et al., 2009). Segundo o Manual C 100-5 do EB (Operações), os meios blindados não devem ser empregados isoladamente em áreas urbanas, em vista da possibilidade de emboscadas, e a dificuldade de apoio mútuo e de ações de salvamento. Todavia, as circunstâncias impuseram que tais viaturas fossem empregadas isoladamente, especialmente nos períodos noturnos, constituindo-se em um componente primordial para aumentar a segurança do pessoal. Portanto, quando se discute a participação de tropa de Infantaria da Aeronáutica em missões desse porte, é indispensável que seus integrantes estejam cobertos e abrigados dos fogos hostis, mesmo que a ação se restrinja às áreas de um aeródromo que, devido a sua natureza plana, oferece excelente campo de tiro a franco atiradores (snipers). Este capítulo tratou dos cenários possíveis de emprego dos VBTP no âmbito do COMAER. Também apresentou uma nova perspectiva voltada para o panorama mundial, com a possibilidade de participação da tropa da Infantaria da Aeronáutica em missões de paz de organismos internacionais. Entretanto, para sedimentar esta pesquisa, cabe mostrar a principal missão da tropa de Infantaria da Aeronáutica, no próximo capítulo desta pesquisa, cujo entendimento é de capital importância para esta pesquisa.

Militares do Royal Air Force Regiment. Tropa de infantaria da Real Força Aérea (RAF). O veiculo é um blindado Force Protection Ocelot 4×4

4 DEFESA CONTRA ATAQUES A BASES AÉREAS

 Por mais que as instalações aeronáuticas estejam supostamente protegidas pela sua distância da frente de batalha, a história testemunha que elas são alvos potenciais e de alto valor para uma força adversária. O General do Exército Italiano Giulio Douhet, precursor das teorias do emprego do Poder Aéreo, ao anunciar o potencial ofensivo da arma aérea, ao mesmo tempo apontava a grande vulnerabilidade de seus vetores quando no solo (DOUHET, 1988). Em 01 de fevereiro de 1941, é criado o RAF Regiment, o primeiro corpo de tropa terrestre combatente de uma força aérea, comandado por um oficial-general de três estrelas e com posições de ligação no Ministério da Aeronáutica do Reino Unido (TOPAN, 2004, p. 16). Logo a seguir, deu-se a perda do aeródromo de Maleme, em Creta, a 20 de maio de 1941, para tropas alemães, pára-quedistas e aerotransportadas. Tal fato confirmou que a concepção de se responsabilizar o Exército pela defesa de superfície e antiaérea dos aeródromos e instalações da Royal Air Force (RAF) estava equivocada. (VICK, 1995). Historicamente, além da ameaça de ataques aéreos de interdição, as instalações aeronáuticas também foram alvos de elementos de superfície tais como forças de operações especiais, blindadas, de infantaria leve, aeroterrestres, anfíbias, terroristas, de guerrilha e irregulares. (TOPAN, 2007).

De acordo com o General Bell Jr da United States ARMY, durante a 2ª Guerra Mundial a principal ameaça terrestre a um aeródromo era a sua conquista. Neste aspecto, a doutrina alemã estava padronizada desde 1940. Primeiro surgiam os bombardeios que, a partir de altitudes médias, atacavam a periferia do campo a fim de forçar as guarnições das peças antiaéreas a buscarem abrigo. Em seguida, surgiam os bombardeios de mergulho e caças disparando suas metralhadoras, de modo a manter os defensores em seus abrigos. Estes ataques eram imediatamente seguidos de tropas páraquedistas, lançadas sobre o aeródromo. Assim, à medida que os defensores saíam para dar uma respirada, viamse frente às bocas das submetralhadoras alemãs (BELL JÚNIOR, 1986). Esta foi a técnica empregada pelos alemães durante a invasão de Creta, em 1941. Os ataques de superfície a instalações aeronáuticas, durante a Segunda Guerra Mundial, abrangeram desde a tomada de aeródromos, para projeção do poder aéreo, até a destruição de aeronaves, equipamentos e suprimentos com a finalidade de diminuir a disponibilidade de meios da força aérea inimiga. No conflito da Coréia, ocorreram poucas ações contra o Poder Aéreo, calcadas sempre em interditar temporariamente os aeródromos estadunidenses.

Abaixo temos um vídeo das forças Russas operando na Síria onde as mesmas utilizam o veiculo blindado Iveco LMV (Light Multirole Vehicle) que foram fabricados na Russia pela Kamaz, com o nome do M65 Ryz para o patrulhamento da Base Aérea de Hmeimym.

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Na Guerra do Vietnã, os Vietcongues e o Exército Norte vietnamita atacaram as bases aéreas norte americanas com o propósito de inquietar, destruir aeronaves e matar soldados, focados no aspecto influenciador do apoio, ou não, da população norte americana à guerra. Em 01 de novembro de 1964, o Vietcongue atacou a Base Aérea de Bien Hoa, no Vietnã do Sul, com morteiros 81 mm, matando quatro pessoas, destruindo 20 aeronaves e marcando o início de uma campanha do Vietcongue e do Exército Norte Vietnamita que incluiria mais 400 ataques. Na linha de raciocínio de BRIAR, esse ataque serviu para confirmar que as instalações aeronáuticas são vulneráveis a ataques de superfície, e que um inimigo razoavelmente sofisticado poderia desorganizar as operações aéreas por pelo menos um período de curta duração e infligir baixas substanciais. Nos conflitos seguintes, até os dias de hoje, tipicamente assimétricos, as grandes potências optaram por assaltos aeroterrestres, como a União Soviética no Afeganistão (1979) e os EUA em Granada (1983), no Panamá (1989) e no Iraque (2003), por ataques de penetração com colunas de blindados, como os EUA no Iraque (1991), ou por incursões de forças de operações especiais, como a Inglaterra nas Ilhas Malvinas (1982). As partes com poder de combate inferior travaram o combate de resistência, com ataques à distância e de infiltração, procurando minar a vontade de lutar adversária e desgastar a força oponente, forçando-a a se desdobrar em amplos dispositivos de defesa (VICK, 1995).

O ataque terrorista às Torres Khobar, em Dhahran, nordeste da Arábia Saudita, em 25 de junho de 1996, instalações da 4404ª Ala Aérea, foi o primeiro ataque a instalações da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF – United States Air Force) desde a Guerra do Vietnã. O fato despertou, na USAF, e, a reboque, em todas as suas forças aéreas aliadas, uma nova onda de sensibilidade à importância da atividade de defesa terrestre das instalações aeronáuticas, ou seja, proteger pontos críticos, a fim de garantir liberdade de ação e preservar o poder de combate para quando este se fizer necessário (TOPAN, 2007). Os ataques a instalações aeronáuticas continuam acontecendo nas intervenções militares, capitaneadas pelos EUA, no Afeganistão e no Iraque, em meio a um cenário de guerra de resistência, onde insurgentes atacam as bases da coalizão com morteiros, foguetes, mísseis portáteis antiaéreos e anticarro (BRIAR, 2004, p. 67). Em sua obra, Snakes in the Eagle´s Nest, Vick (1995) classificou os ataques a instalações aeronáuticas em 4 (quatro) categorias, de acordo com o objetivo da força atacante:

a) captura de aeródromo;

b) negar uso do aeródromo;

c) inquietar defesa de aeródromo; e

d) destruir aeronaves e equipamentos

  Desta forma, entre 1940 a 1992, Vick enumerou 645 incursões a instalações aeronáuticas e as agrupou nas 4 categorias acima. Vick identifica que Forças Terrestes tiveram como objetivo principal capturar o aeródromo em 41 (quarenta e uma) ocasiões. Desses ataques, em 16 (dezesseis) casos, forças aeroterrestres atacaram aeródromos para utilizá-los como cabeças-de-ponte aéreas para a inserção de outras tropas. Em 23 (vinte e três) casos, foram atacados para que a força aérea da parte atacante pudesse utilizar o aeródromo para aumentar seu alcance. Em 2 (dois) casos, o aeródromo foi atacado para destruir forças terrestres ali estacionadas. (VICK, 1995, p. 10).

Tabela 1

A negativa do uso do aeródromo foi a forma de oposição ao poder aéreo inimigo em 47 (quarenta e sete) dos casos. Segundo Vick, este objetivo foi alcançado pela ocupação do aeródromo ou pela imposição da interrupção das operações de solo neles conduzidas. Quatro desses casos ocorreram durante a Operação Torch, a invasão aliada da Argélia, em novembro de 1942. Temendo que o poder aéreo da França de Vichy pudesse interceptar os transportes aliados durante a invasão, os Aliados planejaram enviar paraquedistas para capturar os campos franceses de La Scenia, Duzerville, Youks-Les-Bains. (VICK, 1995) Ainda de acordo com Vick, as forças inimigas, buscando realizar a captura de aeródromos, negar seu uso e destruir os vetores aéreos, certamente inquietam as defesas e interrompem a operação nas instalações aeronáuticas. Nos 448 (quatrocentos e quarenta e oito) ataques à distância contra as bases aéreas aliadas, conduzidos pelos Vietcongue e pelo Exército Norte Vietnamita, em 172 (cento e setenta e dois) foram disparados menos de cinco tiros e nenhuma aeronave foi danificada, demonstrando não haver real intenção de destruir aeronaves. (VICK, 1995). Vick apresenta 384 ocorrências (60% dos ataques) visando a destruição de aeronaves e equipamentos. Tais ocorrências aqui agrupadas se deve ao fato da destruição constituir o objetivo principal da força atacante. Apesar das ações anteriores levarem a destruição de aeronaves, Vick computaas como objetivos secundários (VICK, 1995).

Avibras Guará 4WS da Força Aérea Brasileira . Arte : Athos Gabriel …

A história brasileira contemporânea registra como a primeira incursão armada contra um aeródromo militar o ataque ao Primeiro Regimento de Aviação do Exército Brasileiro e à Escola de Aeronáutica, durante o levante conhecido como Intentona Comunista, ocorrido no Campo dos Afonsos na noite de 26 para 27 de novembro de 1935, com o objetivo de capturar aquele aeródromo (LAVENÈRE-WANDERLEY, 1975, p.176). Este fato ocorreu cinco anos antes do período estudado por Vick. Lavenère-Wanderley também relata outra incursão contra aeródromo ocorrida em terras brasileiras, entre 11 e 29 Fevereiro 1956, na Revolta de Jacareacanga. Há que se registrar que este foi o primeiro registro histórico de uma ação de combate da Infantaria da Aeronáutica, então denominada Infantaria de Guarda, encarregada da retomada daquele campo de pouso. (LAVENÈREWANDERLEY, 1975). Com a “Nova República” e a crise dos anos 80, outro elemento tornou-se a maior ameaça aos quartéis das Forças Armadas, neste aspecto os aeródromos militares: as facções criminosas e suas orquestrações para a obtenção de armamentos e munições. A divulgação pela mídia nos últimos anos endossa a suspeita do envolvimento de militares nos desvios de armas e munições. Essas incursões guardam entre si similaridades com os fatos classificados por Vick, Topan e Briar como ameaças assimétricas clássicas, e para as quais os planejadores de defesa de instalações aeronáuticas precisam considerar seriamente. A USAF, desde o final da década de 70, emprega, para a segurança e defesa de suas bases aéreas e sítios de mísseis nucleares, veículos blindados leves sobre rodas. Inicialmente, as Forças de Segurança da USAF (SF/ USAF) foram dotadas com a viatura Peacekeeper. Atualmente, sua viatura blindada de dotação é o High Mobility Multi-Purpose Wheeled Vehicle (HMMWV), capaz de transportar uma esquadra (quatro homens), possuindo uma torreta móvel que pode receber armamento coletivo, como uma metralhadora leve ou pesada, ou ainda um lançador de granadas de 40 mm.

Segundo o site http://www.ci.greenfield.ca.us/ Peacekeeper.htm2 , “em meados de 1980, a USAF adquiriu 571 unidades desses veículos da CadillacGage Corporation of Warren, Michigan, por U$30,532 cada. Esses VBTP foram eventualmente empregado pela USAF para uso da Air Force Security Police3 em apoio a missão de proteção dos depósitos ou paióis de armas nucleares, bem como durante o translado desses armamentos para o carregamento em aeronaves ou mísseis balísticos.”

As Forças Aéreas do Reino Unido, Austrália e Suécia utilizam os veículos Land Rover modelos Defender XD 110 e RDV, com capacidade de transporte de uma Esquadra e dotada de metralhadoras calibre 7,62 mm. A Força Aérea Portuguesa emprega, desde 1984, os veículos blindados médios YP-408 e AM-58 Condor, para a Segurança e Defesa de suas instalações. Ambos são dotados de uma torreta móvel com metralhadoras leves ou pesadas e possuem a capacidade de transporte de um Grupo de Combate (dez homens). Após tratar da missão principal da Infantaria da Aeronáutica, cuja missão consiste em executar ações defensivas, ofensivas, especiais e de proteção, a fim de contribuir para o cumprimento da missão militar atribuída ao Comando da Aeronáutica, preservando seus equipamentos, instalações e pessoal, torna-se essencial apresentar a discussão dos dados coletados para uma análise mais acurada.

Militares da Infantaria da FAB realizam Medidas de Controle no Solo (MCS) na Base Aérea de Campo Grande. O uso de viaturas não blindadas
Militares da Infantaria da FAB realizam Medidas de Controle no Solo (MCS) na Base Aérea de Campo Grande. O uso de viaturas não blindadas oferece risco aos militares envolvidos nesse tipos de missão.

 

 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Através da aplicação de um questionário aos Comandantes e ex-Comandantes de BINFAE e BINFA, buscou-se obter dados relativos ao tema da pesquisa, na visão dos militares que trabalham diretamente na atividade de Segurança e Defesa. Dentre as 38 (trinta e oito) U Inf do COMAER, 8 (oito) foram objeto deste estudo. Na primeira questão apresentada no questionário, a opinião unânime foi que a Infantaria da Aeronáutica não dispõe de veículos que abriguem seus homens dos fogos inimigos e que lhe dêem a necessária mobilidade que a guerra moderna exige. Para o entrevistado do BINFAE-GL, a mobilidade necessária para o emprego da INFAER no terreno, tanto em operações de patrulha periférica quanto aproximada, permitirá uma rápida ação de pronta-resposta no serviço de segurança de aeródromos. Hoje, inexiste tal mobilidade – o que está em desacordo com o item 4.2.2 da DCA 1-1/2005. Na segunda questão, indagou-se sobre a capacidade da INFAER estar em condições de engajar-se em missões típicas de segurança e defesa de instalações aeronáuticas em situação de Guerra Convencional, GLO, ações contra o crime organizado ou na condição de integrante de Forças de Manutenção de Paz das Nações Unidas. Para o BINFAE-GL, em um cenário real, a tropa necessita de apoio de segurança a seus homens. O BINFAE-RF citou que, de acordo com a tabela de organização e equipamento para tropas da ONU, os VBTP são tidos como equipamentos necessários. Na terceira questão, sobre o quantitativo previsto na TCA 75-1, que prevê a dotação de 1 (um) VBTP para os BINFAE, sob o código E-21 (veículos sem enquadramento), encontra-se o quantitativo de 1 (um) veículo. O foco da indagação era se tal quantitativo atenderia plenamente às necessidades frente aos cenários definidos pelo COTAR.

Seguindo a escolha do Exército Brasileiro que definiu a viatura LMV da IVECO Defence com a vencedora do Programa Viatura Blindada Multitarefa, Leve de Rodas (VBMT-LR) seria o caminho natural a FAB escolher o mesmo para uma viatura de maior capacidade de proteção. Imagem meramente ilustrativa. Arte Athos Gabriel

De acordo com o entrevistado do BINFAE-AF, apenas um VBTP não é suficiente para prover a segurança e defesa de um aeródromo, pois não permite seu recobrimento ou substituição em caso de avarias ou panes. O BINFAE-GL entende também que o cálculo do quantitativo deve ser suficiente para, pelo menos, atender a uma diagonal de manutenção. Segundo o BINFAE-RF, a fração mínima para constituir-se uma reserva móvel é o PINFA. Para um PINFA mecanizado são necessárias no mínimo 4 VBTP. Uma das considerações levadas em conta por ocasião da elaboração do projeto da Companhia Independente de Pronto-Emprego (CIPE) no Planejamento Estratégico Militar da Aeronáutica (PEMAER) era a dotação nos BINFAE de 4 (quatro) VBTP. Na quarta questão, indagou-se sobre a dotação de VBTP, de acordo com a doutrina de emprego da Infantaria Blindada do Exército Brasileiro, que define o Pelotão como a fração tática a ser empregada em combate, cuja dotação varia entre 3 (mínima) a 5 (máxima) VBTP por Pelotão Blindado. Essa denotação atenderia às necessidades operacionais do BINFAE. Segundo o BINFAE-GL, essa é a doutrina mais empregada pelo mundo e conveniente para a nossa Infantaria. De acordo com o BINFAE-RF, para um PINFA mecanizado, são necessários no mínimo 4 VBTP. Reitera essa U Inf que uma das considerações levadas em conta por ocasião da elaboração do projeto CIPE no PEMAER era a dotação dos BINFAE com 4 VBTP, um Pelotão Blindado, nos moldes do EB. A quinta questão é voltada mais para os BINFA orgânicos de Bases Aéreas que apoiam Unidades Aéreas de Defesa Aérea, e que não possuem TDV próprias. Por esse motivo, as Bases Aéreas não foram contempladas em suas respectivas TDV de VBTP. Desta forma, visando estar em condições de atuar na atividade de medidas de controle no solo (MCS) de aeronaves interceptadas (sem expor seus integrantes), indagou–se se caberia a essas U Inf serem contempladas com uma dotação específica de VBTP. Para o BINFAE-RF, as VBTP não são adequadas para MCS, e sim os veículos blindados leves (VBL), os quais, segundo suas características, poderiam estar classificadas na TCA 75-1 como viaturas P-13 ou P-15, muito mais adequadas às MCS, desde que dotadas de leve blindagem.

WHITEMAN AIR FORCE BASE, Mo. - Senior Master Sgt. Ronald Hoffman (left) Senior Airman Jessica Lomonaco (middle) and Staff Sgt. Erik Syvertson (right), 509th Security Forces Squadron, chosen to represent their squadron who was recently selected as "Best Security Forces Squadron in the Air Force" large category March 24. (U.S. Air Force photo/Staff Sgt Charles D. Larkin Sr.) (Released)
A United States Air Force Security Forces utiliza versões blindadas do veiculo 4×4 do High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle (HMMWV) tambem conhecido como HUMVEE. Nos conflitos mais recentes como Iraque e Afeganistão percebeu que as versões blindadas do HUMVEE não eram adequadas as novas ameaças (onde o HUMVEE sofreu pesadas perdas). Com esse novo cenário fez com que a a USAF adota-se veículos de maior blindagem para suas tropas de segurança.

Na sexta questão, indagou-se sobre qual seria a fração de tropa para os BINFA´s sediados em Bases Aéreas de Defesa Aérea para executar Medidas de Controle no Solo (MCS). Se Grupo de Combate (GC) ou Pelotão de Infantaria (PINFA). Ocorreu um certo equilíbrio no resultado. As U Inf sediadas na Região Nordeste (NT e RF) entendem que a fração ideal para essa missão seria o GC, 10 (dez) homens e 1 (um) VBTP, opinião compartilhada pelo BINFA-SC (GC+, a 2 VBTP). Segundo o BINFAE-RF, na atual concepção de MCS, a única ação de segurança a ser desempenhada pela INFAER é a proteção dos meios da FAB envolvidos na missão, ou seja, proteção da aeronave e da tripulação, que conduzirá os agentes dos Órgãos de Segurança Pública e demais órgãos envolvidos ao local de pouso do tráfego ilícito. Em tal situação, não haveria contato de tropa da Infantaria da Aeronáutica com o crime organizado. Desta forma, o efetivo envolvido neste tipo de ação seria até uma Esquadra. Finalmente, a sétima questão indagou se veículos do tipo HMMWV (High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle), isto é, um veículo militar utilitário, poderiam ser utilizados para a segurança e defesa de Bases Aéreas, ao invés dos VBTP. A maioria discordou da indagação. O BINFA-RF acrescentou que os HMMWV estão sendo substituídos nas FFAA dos EUA, em razão das elevadas perdas registradas no Iraque. Além disso, sua proteção balística é muito inferior que a de uma VBTP. Todavia, sua capacidade para 04 homens o torna mais flexível para o emprego com uma força de reação na área de manobra de um aeródromo e sua transportabilidade pelo C-130 é o dobro do VBTP. Quanto à comparação dos quantitativos previstos na TCA 75-1, a pesquisa documental apontou uma dicotomia entre a necessidade operacional levantada pelo COTAR e a tabela formulada pela DIRENG.

Segundo o COTAR, o quantitativo de VBTP para o COMAER é de 36 (trinta e seis) VBTP, que seriam adquiridos em duas fases. Na primeira fase seriam adquiridos 9 (nove) VBTP e distribuídos em igualmente nove U Inf, segundo a tabela a seguir:

Tabela 2

Na segunda fase seriam entregues os demais 25 (vinte e cinco) VBTP. Tal distribuição, sugerida pela NOP, leva em consideração o momento de poucos recursos orçamentários alocados às Forças Armadas, mas também a necessidade de contrapor-se às ameaças assimétricas, em face às ações do crime organizado contra instalações militares nos últimos anos. Nessa distribuição, ressalta-se que o III COMAR, através do BINFA-13, aparece com uma dotação prevista de quatro VBTP. Isso é explicado pelo fato do ano de 2006 ter sido de transição entre a desativação do BINFA-13 e a ativação do BINFAE-RJ. Todavia, o BINFAE-AF e o BINFA-43 da BASC deixaram de constar dessa distribuição (ver Tabela 3).

Tabela 3

Analisando-se a TCA 75-1 vê-se claramente o descompasso entre a necessidade do SISDE, apresentada pela a NOP nº 03/COTAR/06, e a TDV para as OM do COMAER (Tabela 3). Não constam da tabela a AFA e a EEAR:

Tabela 4

Ao analisar a dotação da TDV segundo a especificação das viaturas, vemos que os VBTP estão na mesma classificação de elevadores hidráulicos, lanchas, motoniveladoras e carretas reboque para motocicletas, conforme apresentado na Tabela 5: Conforme apurado nesta pesquisa, pode-se constatar que há um hiato entre a necessidade de meios para que a INFAER possa cumprir missão e o apoio logístico para que tal necessidade seja atendida, tanto pelos elos do Sistema Logístico do COMAER quanto pelo órgão central do SISTRANS. Desta forma, após um estudo dos levantamentos realizados, da análise das fontes bibliográficas e dos documentos pesquisados e de conformidade com o embasamento teórico, é chegado o momento de dar a pesquisa o rigor científico que propicie à conclusão deste trabalho.

CONCLUSÃO

 O caráter cada vez mais letal dos conflitos armados, o aumento das ameaças assimétricas e o elevado grau de vulnerabilidade da tropa terrestre da aeronáutica diante das últimas ameaças foram as causas de inquietação do pesquisador em levantar a possibilidade de emprego de VBTP e seu impacto no âmbito do SISDE do COMAER.

Tabela 5

O ineditismo da pesquisa, aliada à escassa literatura especializada, levou o pesquisador a buscar inicialmente  na Teoria do Poder Aéreo de Giulio Douhet, em sua obra O Domínio do Ar (1921), a fundamentação teórica que norteou na etapa inicial. A busca do conceito de VBTP, suas origens e evolução histórica, levou à pesquisa bibliográfica das obras de importantes autores nacionais, como o eminente pesquisador, o Prof. Expedito Carlos Stephani Bastos, o Coronel Portella Alves e instrutores do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires de Albuquerque, dentre os quais destaca Jamerson de Oliveira. Douhet escreveu que a melhor maneira de combater o poder aéreo do inimigo é destruindo seus vetores no solo, quando se encontram mais vulneráveis, do que tentar derrubá-los no ar. Vick apresenta um levantamento das ocorrências nos conflitos armados entre 1940 e 1992 (493 casos). Através da pesquisa bibliográfica, descobriu-se que o Poder Aeroespacial brasileiro já sofrera ataques contra suas instalações. Entretanto, nos últimos anos o maior grau de ameaça está nas invasões às OM, por parte de facções criminosas, em busca de armamento e munições, contando com a colaboração de elementos infiltrados nas fileiras militares. Tais ações remetem ao cenário assimétrico, como bem descreve BRIAR, baseados nos ataques sofridos pelas forças americanas na Guerra do Vietnã. Isso denota uma vulnerabilidade encontrada na defesa das bases aéreas em todos os conflitos armados ocorridos ao longo de mais de 60 (sessenta) anos de história, o que leva as Forças de Segurança e Defesa e disporem de meios adequados a contrapor-se à ameaça e dar a pronta resposta necessária. Como o VBTP poderia ser um desses meios, identificar as possibilidades de emprego dos VBTP no COMAER tornou-se o objetivo desta pesquisa.

LAND_M-ATV_Arrival_Kandahar_lg
Devido as novas ameaças encontradas pela Força Aérea Americana nos Teatros de operações do Iraque e Afeganistão fez com que a USAF adota-se veículos de maior proteção do tipo MRAP (Mine-Resistant Ambush Protected ) como o Oshkosh M-ATV.

No tocante a cenários, por meio de pesquisa documental, descobriu se que o COTAR, em 2006, levantara a necessidade operacional de seu uso nas atividades de Segurança e Defesa. Tais cenários para o emprego de VBTP no âmbito do COMAER são a Guerra Convencional, a GLO e a Guerra Assimétrica. A esses cenários somou se a possibilidade de participação em Operações de Manutenção de Paz da ONU ou de outros organismos internacionais. Ainda nesta fase, buscou-se no SISTRANS, através de pesquisa documental tanto da ICA 75-6 quanto da TCA 75-1, o conceito e a definição de VBTP. Apesar de ausentes o conceito e a definição na TCA 75-1, constava a previsão de VBTP às U Inf, mascaradas sob o código E-21 (veículos sem enquadramento). As razões para este fato não foram exploradas, por demandarem maior tempo e por fugirem ao escopo da pesquisa. Foi aplicado um questionário às trinta e uma U Inf espalhadas pelo território nacional (8 BINFAE, 19 BINFA, 3 CINFAI e 1 EAS), porém apenas oito U Inf responderam, sendo cinco dessas U Inf BINFAE e 3 BINFA. Da análise dos dados daí coletados, chegou-se às seguintes conclusões:

a) a tropa da Infantaria da Aeronáutica não dispõe de veículos que a abriguem dos fogos inimigos e que lhe deem a necessária mobilidade que a guerra moderna exige. A INFAER não dispõe da necessária mobilidade que lhe permita uma resposta rápida e decisiva na atividade de segurança de aeródromos, como as tropas terrestres de diversas FAe ao redor do mundo;

b) no tocante ao preparo da tropa, a INFAER está em condições de engajar-se em missões típicas de segurança e defesa de instalações aeronáuticas em situação de Guerra Convencional, GLO, ações contra o crime organizado ou na condição de integrante de Forças de Manutenção de Paz das Nações Unidas. Todavia, faltam os meios adequados que lhe forneçam proteção para seus homens;

c) a dotação de VBTP prevista atualmente na TCA 75-1 é inadequada, pois fere a doutrina de emprego de blindados (4 VBTP) por Pelotão de Fuzileiros (PINFA, no âmbito do COMAER). Além disso, está em desacordo com a necessidade operacional levantada pelo COMGAR.;

d) a doutrina de emprego da Infantaria Blindada do E.B., que define o Pelotão como a fração tática a ser empregada em combate, cuja dotação varia entre 3 (mínima) a 5 (máxima) VBTP por Pelotão Blindado, atende às necessidades operacionais do BINFAE por ser a doutrina mais empregada pelo mundo;

e) para os BINFA orgânicos de Bases Aéreas que apóiam Unidades Aéreas de Defesa Aérea, e que não possuem TDV próprias, os VBTP não são adequados para MCS, e sim os veículos blindados leves (VBL);

f) a fração mínima de tropa para os BINFA´s sediados em Bases Aéreas de Defesa Aérea para executar Medidas de Controle no Solo (MCS) seria um GC, a 2 VBTP; e

g) os veículos do tipo HMMWV não podem ser utilizados para a segurança e defesa de Bases Aéreas pois estão sendo substituídos nas FFAA dos EUA, em face das elevadas perdas registradas no Iraque, e têm uma proteção balística inferior a de uma VBTP. A TCA 75-1 precisa ser revista para que possa atender à necessidade operacional levantada pelo COTAR e à tabela formulada pela DIRENG.

O AMV é um dos mais modernos veículos modulares do mundo atualmente. Sua capacidade de proteção, mobilidade e flexibilidade de emprego são admiráveis, mas tem seu custo. Imagem meramente ilustrativa. Arte Athos Gabriel

A classificação E-21 não atende aos requisitos operacionais e especificações técnicas de um VBTP, pois agrupa um veículo de combate junto a ferramentas de apoio logístico, como elevadores hidráulicos, lanchas, motoniveladoras e carretas reboque para motocicletas, conforme apresentado na Tabela 5. A presente pesquisa teve como objetivo identificar as possibilidades de emprego dos VBTP nas missões atribuídas às Unidades de Infantaria no âmbito do Sistema de Segurança e Defesa do COMAER. Apontou cenários novos, mas não esgota o assunto. O aprofundamento do estudo certamente responderá a outros questionamentos no futuro. A história demonstra que as instalações aeronáuticas são vulneráveis a ataques de superfície. A defesa de instalações é o “pilar” essencial para o cumprimento da missão de garantir a soberania do espaço aéreo (TOPAN, 2004, p. 50). Isso remete ao lema do COTAR, “Defendendo na Terra o Domínio do Ar”, pois de nada adianta dispor dos mais modernos vetores, se as águias não puderem decolar.

“Você pode abater todos os MiG´s que quiser, mas se ao retornar para a base e o comandante do tanque soviético estiver tomando café da manhã em sua cantina – Jack (caçador), você perdeu a guerra!” (Frase motivacional, adotada por um dos esquadrões de aeronaves A-10 Thunderbold II da USAF e também utilizado pelas Security Forces).

*Autor: Alexandre Esteves da Silva é major de Infantaria da Aeronáutica, formado em Administração Pública pela Academia da Força Aérea (AFA) em 1989. É especialista em salvamento e extinção de incêndio pela Academia de Bombeiro Militar do Distrito Federal (ABMDF), e em salvamento e combate a incêndios em aeródromos, pelo Instituto de Logística da Aeronáutica (ILA). Possui MBA em Gestão Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2009. Contato: a.etv@ig.com.br

O presente artigo foi publicado na Revista UNIFA (Universidade da Força Aérea), Rio de Janeiro, v.23, p.47-60, junho de 2010.(http://www.revistadaunifa.aer.mil.br/index.php/ru).
       Para ler o artigo na íntegra, CLIQUE AQUI. (390KB)
Imagens e Legendas: Plano Brasil
Imagens são meramente ilustrativas e apenas conceituais
Arte: Athos Gabriel

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Aviões dos EUA na Síria estiveram várias vezes na mira do sistema de defesa antiaérea S-300

Aviões militares dos EUA que operavam na Síria estiveram várias vezes na mira do sistema de defesa antiaérea S-300V4, disse em entrevista ao jornal Izvestia o chefe das Tropas de Defesa Antiaérea, tenente-general Aleksandr Leonov.

“Como parte de nossas missões de combate, por diversas vezes os aviões de reconhecimento estratégicos e bombardeiros da Força Aérea dos EUA foram detectados e seguidos automaticamente [pelo sistema de defesa antiaérea S-300]”, disse o militar ao Izvestia.

Segundo ele, o sistema foi implantado na Síria em 2016 para “expandir a zona de controle do espaço aéreo no leste da Síria”, assim como proteger as bases em Hmeymim e Tartus.

O general russo sublinhou que os pilotos estadunidenses “reagiram de forma bastante nervosa” quando os sistemas S-300 os acompanharam a uma distância de 200-300 quilômetros.

O sistema de defesa e seu pessoal cumpriram com sucesso todas as missões e voltaram às suas bases permanentes em junho passado.

Mais cedo, a mídia informou que o sistema de defesa aérea russo Pantsir-S1 tinha interceptado dois mísseis, lançados por militantes contra a base russa de Hmeymim. O sistema russo conseguiu derrubar dois mísseis, um outro explodiu antes de alcançar o alvo.

Fonte: Sputnik

Edição: Plano Brasil

 

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A evolução dos sistemas defesas antimísseis: um desafio a ser ultrapassado

Por Marco Tulio Delgobbo Freitas*
Renato Prado Kloss**

O sistema anti-mísseis Arrow-3 israelense

Com os recentes avanços do programa norte-coreano nuclear e a ameaça de seu líder Kim Jong-un, o mundo revive os dias de tensão da Crise de Mísseis de Cuba em 1962. A possibilidade de um ataque nuclear por meio de mísseis balísticos ainda é duvidosa, mas, no campo da ameaça – dissuasão – a guerra já começou. Mas, não há desespero, não devemos apertar os cintos, pois o piloto não sumiu. Hoje, estamos em uma etapa que mais parece um jogo complexo de xadrez, em que ambos lados, mostram suas armas. De um lado o míssil de Kim e de outro, um sistema de defesa que não é recente e tem uma longa trajetória.

Como Sistema Antimísseis Balísticos funciona?
Mísseis balísticos podem ser lançados a partir de uma variedade de plataformas, incluindo silos, caminhões, trens, submarinos e navios de guerra. Existem quatro classificações gerais baseadas na distância máxima que o míssil pode realizar:

  • Curto alcance (menos de 1.000 quilômetros);
  • Médio alcance (1.000-3.000 km);
  • Intermediário (3.000-5.500 quilômetros);
  • Intercontinental (mais de 5.500 quilômetros).

Normalmente os mísseis balísticos têm três estágios de vôo:

  • Fase de impulso, que começa no lançamento e dura até foguete;
  • Fase do meio-curso -o estágio mais longo – quando o projétil está em seu caminho parabólico;
  • Fase terminal, quando a ogiva destacada reentra a atmosfera, frequentemente viajando menos de um minuto para impactar.

Já os mísseis de cruzeiro, em contraste, são com motor à jato e são armas que voam baixo e em alguns casos, ao nível do chão para evitar o radar inimigo, antes de atingir seu alvo.

Derrotar um míssil balístico envolve quatro funções:

  • Detecção
  • Discriminação (separação do míssil de todo o vetor)
  • Controle de fogo (determinando exatamente onde interceptar)
  • E matando (batendo o míssil com algum tipo de interceptor).

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=3LPdmxnBkIU[/embedyt]


Uma curta história sobre o Sistema Antimísseis
Em meados da década de 50, os Estados Unidos, através do Pentágono, lançaram um grande esforço para combater a ameaça dos mísseis balísticos intercontinentais soviéticos (ICBMs) impulsionados por basicamente dois motivos: primeiro, os russos tinham a sua própria bomba nuclear e segundo, em 1956 os mesmos já tinham introduzido um artefato nuclear no R-5M Podeda.  Mas foi no dentro do princípio do MAD (Mutually Assured Destruction) em 1972, que os dois países assinaram o Tratado Mútuo Antibalístico (ABM) permitindo no máximo dois, o número de defesa de mísseis que cada uma poderia ter.

O grande sobressalto seria dado alguns anos após, quando Ronald Reagan no ápice da “Segunda Guerra Fria” tem a iniciativa de provocar uma corrida tecnológica contra a antiga URSS e a sua “cartada” foi o IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica) apelidado de Star Wars (Guerra nas Estrelas). No entanto, a tecnologia da época provara ser ainda incapaz de assumir tamanha responsabilidade contra os já R-36M2 Voevoda (SS-18 Mod 5) dos soviéticos.

Mesmo longe dos holofotes do final da Guerra Fria, os sistemas táticos ou defesa de mísseis de teatro, continuaram a se desenvolver. As baterias de mísseis Patriot dos EUA originalmente projetado para interceptar os mísseis balísticos soviéticos de alcance intermediários, no entanto, o seu “batismo de fogo” foi no Oriente Médio durante a Guerra do Golfo Pérsico.

Ineficazes na defesa dos contra-ataques Scuds – lançados por iraquianos em direção à Israel e Arábia Saudita em retaliação aos ataques da coalizão liderada pelos EUA, o conceito atraiu a atenção, principalmente na última parte da década de 90. Seus defensores, pressionaram para o estabelecimento de uma defesa nacional antimísseis, alegando ameaças oriundas da Coréia do Norte, Irã e Iraque.  Sendo assim, a administração George W. Bush planejou uma defesa integrada e em camadas capazes de derrotar mísseis inimigos em uma escala global. No início de seu primeiro mandato, Bush retirou o Estados Unidos do Tratado ABM e encarregou o Pentágono de “prosseguir com o lançamento de um conjunto inicial de mísseis voltados para a capacidade de defesa “. A primeira base interceptora de mísseis foi instalada no Alasca em 2004.

Configuração do Programa norte-americano antimísseis
Atualmente são quatro, os vetores que visam proteger os EUA e seus aliados de ataques lançados por mísseis, desenvolvidos pela Agência Norte-Americana de Defesa de Mísseis (ADM):

  1. Bases fixas no território dos EUA. O sistema antimísseis mais complexo e caro dos EUA. O sistema de defesa foi projetado para destruir misseis balísticos de longo alcance. Em 2014, 26 interceptores foram dispostos em Fort Greely, no Alasca e 44 na base aérea de Vanderberg na Califórnia. Em um teste em junho de 2014, um misse lançado a partir das Ilhas Marshall foi abatido por um interceptor desta base. No entanto, é preciso salientar que a tecnologia ainda precisa de mais testes e um terceiro lugar – no lado oriental da costa- está sendo cogitado pela ADM.
  2. Defesa de Mísseis Balísticos Aegis (AMB/ABMD). É considerado o componente mais confiável da defesa de mísseis. Este sistema é instalado em contratorpedeiros (classe Arleigh Burke) e cruzadores (classe Ticonderoga) é projetado para interceptar mísseis balísticos de médio alcance. O plano da marinha norte-americana é aumentar em até 43 o número de navios de guerra com sistema Aegis até 2019. Em junho de 2014, o Pentágono afirmou que o sistema havia sido bem-sucedido em 34 testes realizados.
  3. Terminal de Alta Altitude de Defesa Aérea (THAAD). O THAAD é terminal composto por uma bateria de mísseis montado em um caminhão isso lhe dá agilidade, flexibilidade e rapidez. O sistema é capaz de interceptar mísseis balísticos de médio alcance, dentro e for da atmosfera. Desde 2014, três sistemas THAAD estavam operacionais, no entanto, com o desenrolar do teatro do Pacífico uma bateria foi deslocada para Guam e outra para Coréia do Sul.
  4. Patriot Advanced Capability–3. É o sucessor dos sistemas implantados durante a Guerra do Golfo. Com tecnologia mais madura e rapidamente implantável, o sistema é o mais testado dentre outros no arsenal de defesa de mísseis dos EUA e emprega sensores para rastrear e interceptar mísseis quando adentram em sua última fase, em altitudes inferiores ao sistema THAAD. O PAC3 foi utilizado durante as missões de combate no Iraque em 2003 com sucesso e já foi desdobrado para outras nações, tais como, Turquia, Coréia do Sul e Afeganistão.


Os teatros da Ásia e Pacífico
Os recentes testes com mísseis balísticos conduzidos pela Coréia do Norte ascenderam o sinal de alerta não só nos países asiáticos, mas também nos Estados Unidos. Esta ameaça vem acelerando a implantação do sistema antimíssil americano THAAD (Terminal High-Altitude Area Defense) na Coréia do Sul, o que vem causando constantes reclamações de Pequim e Moscou acerca das reais intenções americanas e sul-coreanas (BBC, 2017).

É importante notar o papel de destaque que os Estados Unidos possuí no teatro do Pacífico e Ásia quando se trata de defesas antimísseis. Washington, honrando seus tratados e compromissos, estende sua deterrência a seus aliados, criando um ‘guarda-chuva nuclear’ na região. Isso significa que os americanos estão engajados na defesa de seus aliados na região e, se sua deterrência falhar, eles irão usar seus meios para derrotar a ameaça. O Congresso Americano reconheceu esta postura quando afirmou o seguinte:  “Os Estados Unidos tem a obrigação de cumprir com seus compromissos de segurança com seus aliados, incluindo os compromissos de defesa em relação a mísseis balísticos” (U.S. Government Office, 2013).

Para a proteção de seus aliados, os Estados Unidos possui na região uma defesa em camadas, tendo como linha de frente interceptadores SM-3 a bordo de destroieres equipados com o sistema AEGIS, que possuí como sistema central o AN/SPY-1, um radar de alta potência capaz de detectar mais de 100 alvos simultaneamente. Mais adiante, os Estados Unidos possui baterias PAC-3 em suas bases militares na região com radares em terra, como o AN/TPY-2 e no mar, com radares X-Band. O Sistema THAAD Americano está presente em Guam e em um futuro próximo, na Coréia do Sul, o que integra ainda mais o sistema antimísseis americano na região. Este sistema móvel tem a capacidade de interceptar alvos dentro e fora da atmosfera através de uma série de dispositivos, como radares, centros de comando e controle para comunicações e lançadores móveis (LOCKHEED MARTIN, 2016).

Outros países na região também apostam em defesas antimísseis. O Japão por exemplo, que possui uma defesa coordenada com os americanos, operam quatro destróieres da classe-Kongo com o sistema AEGIS e interceptadores SM-3 Block IA. O país também possuí 17 baterias PAC-3 para proteção de importantes áreas como a capital Tóquio. Outro país que vem apostando em defesas antimísseis é a China, que começou a desenvolver ainda nos anos 90 um sistema de defesa com o míssil interceptador KT-1 de longo alcance. Em 2013, o Exército de Liberação Popular interceptou com sucesso um míssil de médio alcance no meio de sua trajetória através do sistema de defesa antimíssil Dong Ning-2 e um míssil interceptador KT-2 (conhecido no ocidente como SP-19). Atualmente, Pequim conta com o sistema de defesa antimíssil S-300PMU – uma variante do S-300 russo – e o sistema antimíssil HQ-9, que é produzido localmente. Em adição a estes sistemas, a China também possuí uma versão do sistema AEGIS americano, baseado no sistema francês Thomson-CSF TAVITA.

Teatro Europeu – OTAN e Rússia
A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe uma série de incertezas a respeito do comprometimento e manutenção das alianças americanas no cenário internacional. Parte desta incerteza é em relação a OTAN e consequentemente, sobre o projeto de um escudo antibalístico em solo europeu, que já vem sendo implementado desde o mandato de George Bush (2001-2009) (THE BULLETIN, 2017). De acordo com suas diretrizes, a aliança tem a ‘responsabilidade de proteger suas populações, território e forças a luz da crescente proliferação de mísseis balísticos e contra ameaças provenientes de fora da área euro-atlântica’ (NATO, 2016). Para este fim, foi decidido em 2010 na Cúpula de Lisboa, que a aliança iria aperfeiçoar seu sistema de defesa antibalístico para conter as ameaças de mísseis de alcance curto, médio e intermediários que cobririam todo o território Europeu.

Um sistema já em vigor naquele tempo foi expandido, o ALTBMD (Defesa Antibalística Ativa em Camadasem português) que serviria daquela data em diante como uma rede de comando, controle e comunicações para dar suporte as novas capacidades do sistema de defesa. A contribuição americana para este novo sistema, sob os auspícios do Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, foi através do PAA (Abordagem Adaptativa em Fases em português), um sistema que substitui alguns elementos da defesa antimísseis proposta pela administração Bush, como por exemplo a substituição dos radares de Banda X na República Checa e dez interceptadores baseados em terra localizados na Polônia por quatro destroieres da classe Arleigh Burke com o sistema Aegis, que possuem mísseis SM-3 além de novos radares, como o SPY-1 baseado no Mar Mediterrâneo que é funcional e capaz de busca, detecção automática, transição, rastreamento de alvos aéreos e de superfície e suporte a interceptação de mísseis em rota. Outro radar implementado pelos Estados Unidos é o AN/TPY-2 localizado na Turquia, um radar de Banda-X e com capacidade de rastreamento detalhada de alvos (GALDORISI, 2017). Mais adiante, em Maio de 2016, A OTAN instalou na Romênia uma base de defesa com o sistema Aegis – a primeira baseada em terra – dotada de radares e dezenas de mísseis SM-3 para interceptação (LAGRONE, 2016). Importante notar que o sistema de defesa antibalístico da OTAN irá aumentar ainda mais suas capacidades. Em 2018, mais baterias de defesa antibalística serão instaladas na Polônia, cobrindo ainda mais o território Europeu (THE BULLETIN, 2017).

Outro país na Europa que se sobressai em termos de defesas antimísseis é a Rússia. Na época da Guerra-Fria, União Soviética e Estados Unidos tiveram uma corrida armamentista particular em termos destes sistemas de defesa. Os soviéticos começaram a desenvolver pesquisas em torno de mísseis balísticos já em 1948 através do Instituto NII-4 e em 1959, foi desenvolvido o Sistema-A, um projeto de defesa antibalístico controlado via radio e com um radar específico para a tarefa, o DUNAI-2, que identificava os alvos através de sua trajetória e tinha como dispositivo interceptador o míssil V-1000 Fakel. O sucesso desse sistema levou os soviéticos a desenvolverem na década de 60 o Sistema-A-35, que se tornou operacional em 1964 protegendo a capital Moscou. Hoje em dia, os russos contam com um sistema defesa antimísseis que é distribuído em camadas, onde a primeira consiste de radares que monitoram possíveis ataques de mísseis de potenciais adversários, detectando lançamentos através de satélites que registram os lançamentos através do calor emitido pela turbina destes dispositivos e computadores que processam os dados do lançamento, calculando a trajetória e tempo de reação. A segunda camada da defesa antimísseis possuí diversos sistemas baseados em terra. Atualmente, se destacam o atual sistema de defesa antimíssil sobre Moscou e região central, o A-135, com radares Don-2N e mísseis i53T6 que podem interceptar alvos a 80 quilômetros de distância e a 30 quilômetros de altura. Outro sistema é o de misseis antiaéreo S-400. Desenvolvido pela Almaz Central Design Bureau, ele tem a vantagem de ser móvel, o que influencia a favor de sua sobrevivência. Porém a evolução é contínua e os russos pretendem aperfeiçoar suas defesas integrando uma série de sistemas baseados em terra, como por exemplo os sistemas de curto alcance Tunguska, Tor-M2 e Pantsir-S1, os de médio alcance como o S-300 e o Vityaz e os de longo alcance S-400 e S-500. Em 2011, o General Nikolai Makarov afirmou que estes sistemas atuariam como um “guarda-chuva” cobrindo todo território russo (SPUTINIK, 2016).


Marco Túlio Delgobbo Freitas é Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, professor do Instituto Nacional de Pós-Graduação e pesquisador do GEESI (UFPB).

** Renato do Prado Kloss é Mestre em Strategic Studies pela University of Reading e Bacharel em Relações Internacionais pelo IBMEC-MG.

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Eleições Francesas – Uma breve visão

De Luiz Medeiros, especialmente para Plano Brasil

Neste final de semana, no dia 23 de Abril de 2017, a França inicia um processo eleitoral que irá definir o novo presidente eleito na quinta república francesa. O processo deverá contar também com um segundo turno à ser realizado no dia 07 de Maio e por fim o novo presidente deverá assumir o cargo já no dia 15 de Maio.

Após o término das eleições o novo presidente assumirá sem tempo para grandes comemorações ou “transição”. Além do curto espaço de tempo entre o término do processo eleitoral e a posse o novo chefe do executivo assumirá uma França que se não vive uma crise econômica também não vive nenhuma lua de mel em sua economia. Necessidades de diversas reformas e investimentos internos, fora uma grave situação de crise em razão da imigração e duras críticas sobre o papel da França na geopolítica global e seu protagonismo (ou não) no momento.

O que podemos dizer com certeza é que François Hollande deixa o posto de forma no mínimo melancólica dada sua taxa de aprovação baixíssima. Hollande enfrenta ainda inúmeras críticas sobre posturas do seu governo tanto em assuntos internos quanto externos além da grave sensação de insegurança que paira sobre a França após um bom número de ataques terroristas durante seu mandato. O próprio Hollande nem sequer buscou a reeleição deixando a porta aberta para Manuel Valls que foi seu primeiro ministro e também é do Partido Socialista, porém teve seu nome recusado nas prévias do partido.

Um ponto interessante do momento político francês atual é a situação de crise. Sobre alguns aspectos há falta de quadros ou de representatividade por parte de figuras mais “tradicionais” da política, a sociedade francesa não se mostra muito satisfeita com sua classe política no momento. Desta forma as prévias Partido Socialista teve seu resultado em favor de Benoît Hamon, candidato mais radical e crítico acintoso do governo Hollande, claramente colocando em cheque a tese de uma candidatura de “situação” primando pelo continuísmo.

Candidato Benoît Hamon

Hamon dada sua carreira política possui seus méritos, iniciando seu período de maior expressão na carreira política com sua eleição para uma vaga no parlamento europeu, posição que ocupou de 2004 até 2009. Depois de sua passagem pelo parlamento europeu ele foi eleito para a Assembléia Nacional (o equivalente à Câmara dos Deputados na França) em 2012, cargo que ele detém até o momento.

Durante o governo Hollande, eleito em 2012, Hamon assumiu o posto recém criado de Ministro da Economia Social. O cargo na realidade se tratava de uma posição dentro do Ministério da Economia francês mas abaixo do Ministro da Economia, sendo citado por alguns como Ministro Junior. Permanecendo de 2012 até 2014 no Ministério da Economia quando Hamon deixou o cargo para assumir o prestigioso cargo de Ministro da Educação Nacional, agora sim em condição de Ministro efetivamente.

O tempo de Hamon à frente da educação francesa não durou muito, após assumir em Abril de 2014 ele deixaria o cargo ainda em Agosto do mesmo ano e denunciando que Hollande havia abandonado a agenda socialista e a partir de então Hamon assume posição crítica em relação ao presidente e seu governo dentro do próprio Partido Socialista.

Apesar de muitos considerarem a vitória de Hamon nas prévias do Partido Socialista como “supresa” outras opiniões apontam como um trabalho de articulação cuidadoso feito por ele após seu racha com o governo. A tese de articulação ganha força com o fato de que Hamon negociou com Yannick Jadot a sua desistência do pleito presidencial de 2017 e ainda declarando apoio a sua campanha. Com o apoio de Jadot a candidatura de Hamon passou a contar com o suporte do partido “Europe Écologie Les Verts”, o Partido Verde francês ganhando substancial envergadura política a sua campanha.

 

Um dos pilares da campanha de Hamon é a demanda por uma reforma extensa na república, que de acordo com suas palavras teria o objetivo de iniciar uma “Sexta República”. Hamon defende ainda a legalização da maconha e eutanásia e além disso considera que todos os cidadãos franceses devem ter um salário básico, dada sua crença de que a necessidade por trabalho deve diminuir em razão da automação. Sendo um crítico da economia neo-liberal que segundo ele “destrói o planeta”, Hamon se coloca à defender uma reforma radical na matriz energética francesa prometendo que 50% dela deverá ser proveniente de fontes renováveis até 2025.

Hamon é somente o quinto colocado nas pesquisas e vem em processo de constante perda de terreno, mas é o representante do partido no poder e que possui forte expressão no parlamento, não podendo ser desconsiderado de uma eventual “reviravolta”.

A política francesa também tem seu aspecto curioso na formação e dissolução de partidos. O “Les Républicains” ou “LR” (em tradução literal: “Os Republicanos”) é relativamente novo, fundado em 2015, mas herdeiro do legado político da direita francesa de Chirac e Sarkozy. O partido se organizou para realizar prévias onde François Fillon venceu Allain Juppé até mesmo com relativa facilidade. A campanha de Fillon depois das prévias passou a lidade com o drama do “Penelopegate” sobre a acusação de nepotismo relacionado com sua esposa e dois de seus filhos. Apesar de negar o nepotismo Fillon findou por assumir o fato como um erro em uma coletiva no dia 06 de Fevereiro de 2017 mas reforçando que o salário de sua esposa era perfeitamente justificável. Ao final de Março a esposa de Fillon, Penelope Fillon, foi formalmente colocada sob investigação juntamente de dois dos filhos do casal que também receberam salários por trabalhos junto ao gabinete parlamentar de Fillon. O escândalo resultou em um dano imenso à candidatura de Fillon e uma perda de apoio de público estrangeiro, como o alemão.

Candidato François Fillon

François Fillon é um dos mais velhos dentro dos “ponteiros” da eleição francesa, tendo carreira política extensa e no momento ocupa uma cadeira na Assembleia Nacional por Paris. Nos anos 90, ainda durante o governo Mitterrand, Fillon foi Ministro da Educação e posteriormente teve passagem pelos ministérios de Telecomunicações, Informação e Tecnologia, passando até mesmo pelo Ministério do Trabalho. Em 2004 Fillon retorna ao cargo de Ministro da Educação onde permanece até 2005 em sua última passagem por um ministério.

Com ampla experiência e bagagem política Fillon mostrou discurso afinado com as necessidades de reforma na França. Defendendo uma dura reforma previdenciária incluindo um aumento na idade mínima para aposentadoria, para 65 anos, e uma promessa de cortar 500 mil cargos públicos. Devido ao seu discurso Fillon ganhou alguns comparativos com Margaret Tatcher que aumentam quando o ponto é sobre imigração e a presença muçulmana no país, embora tenha discurso mais moderado do que a “extrema direita” ele considera o assunto como problema à ser tratado e inclusive levantando a questão da ameaça de “totalitarismo islâmico”.

A posição conservadora de Fillon se reduz no que toca a política externa, sendo um defensor do diálogo com a Síria de Bashar Al-Assad e apontando para um discurso moderado quanto à Rússia, sendo inclusive atacado por alguns de seus críticos como detentor de um discurso “pró-Rússia”.

Como dito anteriormente a política francesa tem seus fenômenos de “reinvenção” ou “recriação” de partidos mas além da mudança de nomes podemos também observar a criação de partidos novos. Nesse cenário temos o “En Marche!” (tradução literal: “Em Marcha!”) de Emmanuel Macron, que por ser fundador desse novíssimo partido (criado formalmente em Abril de 2016) foi facilmente alçado à candidatura presidencial pela legenda.

Emmanuel Macron

Emmanuel Macron é o mais novo dentre todos os candidatos à presidência francesa em 2017, com 39 anos, e pode (se eleito for) se tornar o presidente mais jovem da história da França. Nesse “tom” de jovialidade tanto pessoal quanto de seu partido (cuja as iniciais coincidem) Macron se descreve como parte de um movimento progressista. No livro “Revolution” (publicado em 2016) Macron se descreve como esquerdista e liberal, por essa razão foi rapidamente taxado de “populista” mais notavelmente por Manuel Valls (primeiro ministro francês entre 2014 e 2016).

A carreira política de Macron se inicia com sua filiação ao Partido Socialista francês em 2006, no momento ele era inspetor de finanças no Ministério da Economia (posto ocupado entre 2004 e 2008), o cargo público foi deixado por Macron para trabalhar com investimentos no Banco Rothschild & Cie.

Mesmo após deixar o PS, em 2009, Macron conseguiu em 2014 ser indicado para o posto de Ministro da Economia e buscou reformas que fossem favoráveis aos negócios. Apesar de suas discordâncias com o primeiro Ministro Manuel Valls, ele permaneceu no cargo até o final de Agosto de 2016, quando então passou a se dedicar ao seu próprio partido e a candidatura para 2017.

Macron rejeita a crítica de populista, se coloca como um defensor do livre mercado e comprova esse posicionamento isso com apoio ao CETA (acordo de cooperação entre a União Europeia e o Canadá). Apesar de sua posição crítica ao TTIP (Acordo Transatlântico entre UE e EUA) Macron deixa claro que apesar das condições ideais não terem sido alcançadas as portas devem permanecer abertas.

Para a visão da maioria dos analistas Macron é um “eurófilo”, mesmo que tendo sido crítico do acordo fechado entre UE e Grécia em 2015 (com forte influência de François Hollande) alegando que aquele acordo não ajudava a Grécia à lidar com seu débito.

Sobre meio ambiente Macron demonstra visões um tanto dúbias. Um exemplo é seu expresso e intenso apoio para uma transição ecológica e apoio às medidas acertadas na Conferência de Mudança Climática da ONU de 2015, porém no ano seguinte, 2016, Marcon declarou apoio ao uso do Diesel como combustível posição expressada logo após o escândalo de emissões da Volkswagen.

Para a segurança nacional Macron propõe que haja mais investimento em inteligência e acredita que o investimento em cultura seja uma solução para conter o terrorismo.

Um ponto controverso em sua campanha é apoio a política de “portas abertas” para os imigrantes, como o defendido por Angela Merkel.

Ainda no plano interno Macron defende o secularismo e o estado laico, se colocando crítico as escolas que ensinam mais sobre religião do que sobre os fundamentos básicos.

Por seus posicionamentos sobre imigração e secularismo muitos enxergam Macron como “o candidato” dos imigrantes e seus descendentes, mas esse título pode ser controverso.

Quanto a política externa Macron já teve posição moderada sobre o conflito Sírio, mas recentemente defendeu uma intervenção militar aliada no conflito. Quanto à Israel o candidato Macron se coloca favorável a postura do atual governo francês e se opõe aos movimentos de boicote ao Estado de Israel e foi polêmico ao ter recusado se pronunciar sobre a questão do reconhecimento do Estado Palestino.

Macron teve avaliações positivas nos debates realizados até o momento, especialmente “vencendo” o do dia 20 de Março porém sendo “derrotado” por Jean-Luc Mélenchon no do dia 04 de Abril, após uma performance surpreendente do candidato de extrema-esquerda.

Em mais um dilema do “mundo globalizado” os franceses não estão “imunes” ao avanço controversa e famigerada dita “extrema direita”, ou movimentos “ultra conservadores”. Aqui se encontra um partidos “tradicional” na história política francesa atual e um dos mais longevos depois do Partido Socialista. A Front national (Frente Nacional) tendo como candidata Marine Le Pen, que é também a presidente do partido.

Candidata Marine Le Pen

A FN, sendo um partido antigo, conta com um histórico controverso e pouca representatividade regional e no legislativo, mas ainda assim foi capaz de abocanhar 22 cadeiras no parlamento europeu. O partido já tentou a presidência anteriormente com a figura do incrivelmente controverso e criticável Jean-Marie Le Pen e sem sucesso ou impacto.

Mas os últimos anos mostram uma relativa mudança de curso e discurso no partido, nada de mudança radical, especialmente a partir de 2011 com Marine Le Pen assumindo a presidência e o gradativo e contínuo afastamento de seu pai (Jean-Marie) das atividades do partido.

A única mulher dentre os ponteiros, não somente assumiu o partido e afastou a figura do pai como afinou o discurso mas não se distanciou das bases de fundação do partido.

Marine Le Pen conseguiu assim capitanear o sucesso eleitoral de 2014-15 de seu partido com a eleição de prefeitos e o aumento expressivo da presença do partido no parlamento europeu e assim o capital político de Le Pen aumentou significativamente.

A vitória de Donald Trump nos EUA e o BREXIT serviram como trampolim perfeito para Le Pen juntamente de um quadro de crise na França e um governo altamente criticável.

Apesar de ter despontado como possível favorita no início da campanha presidencial, Marine Le Pen perdeu força nos últimos momentos, especialmente com o avanço da candidatura de Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon e com o que alguns consideram como um pequeno “ressurgimento” de François Fillon.

Le Pen teve sua carreira política iniciada ainda na década de 90, sempre na esteira de seu pai, mas a proeminência veio com a presença no parlamento Europeu, iniciada em 2004. Marine Le Pen é considerada hoje a segunda figura mais influente no parlamento, perdendo somente para o presidente Martin Schultz.

Le Pen foi candidata na eleição de 2012, tendo uma expressiva terceira colocação no primeiro turno o que para muitos foi ponto fundamental para o processo de crescimento do partido e de sua figura que terminou sendo consolidado na eleição regional de 2014-15.

Em seus posicionamentos Le Pen é fortemente crítica à imigração, criticando até mesmo a imigração legalizada sob a alegação dos problemas posteriores quanto à serviços públicos e empregos. Le Pen é crítica inclusive a nacionalização de imigrantes, reforçando sua crítica quanto ao multiculturalismo e a deterioração da cultura nacional.

Com visão crítica ao livre comércio e tendência protecionista, Le Pen considera também o intervencionismo como solução para a questão econômica, tendo como base os pensamentos de Maurice Allais, cidadão francês que teve o prêmio Nobel de economia em 1988. Allais foi crítico do Euro, da constituição Europeia de 2004, do livre comércio e da globalização. Le Pen é crítica das regras do sistema bancário e da atual política fiscal do país.

Forte crítica da União Europeia e da OTAN, Le Pen advoga pela saída da França de ambas organizações, sob alegações de que as mesmas não atendem as demandas francesas. Em contraponto Le Pen apresenta discurso ameno sobre a Rússia e defendeu em entrevista ao Haaretz Israelense o direito de “…criticar o Estado de Israel, como se pode criticar qualquer Estado soberano, sem que isso seja taxado de anti-semitismo. Afinal a Frente Nacional sempre foi sionista, e sempre defendeu o direito do Estado de Israel existir.”

Cercada de polêmicas Le Pen é taxada como xenófoba e racista, e mesmo sendo a única candidata mulher dentre os ponteiros ela não levantou nenhum tipo de movimento feminista à seu favor.

Le Pen teve presença considerada com “discreta” nos debates presidenciais e nos possíveis cenários de segundo turno sempre aparece como a candidata derrotada.

Se não bastasse o avanço da “extrema direita” a França nesse momento apresenta um leve avanço da “extrema esquerda” que curiosamente não é representada pelo Partido Socialista (sendo esse de um histórico de ser mais “moderado”). No extremo da esquerda vemos mais um partido novo, o “La France insoumise” (tradução: França Insubmissa), formado em 2016 na realidade se trata mais de um conglomerado de partidos menores de esquerda que se uniram sob a figura de Jean-Luc Mélenchon, fundador do partido.

A FI em si não possui representatividade no parlamento francês e nem mesmo na esfera regional, mas seus aliados são o Fronte de Esquerda na Assembléia Nacional e os Comunistas no Senado e assim compõem o braço representativo do partido.

Candidato Jean-Luc Mélenchon

O candidato mais velho nessa eleição com 65 anos é Jean-Luc Mélenchon, um político experiente. Iniciou sua carreira na política ainda nos anos 70 e foi um importante líder Miterrandista passando por diversos cargos.

Após o período Mitterrand o Partido Socialista enfrentou um período complicado e longa ausência no comando do Estado Francês, mesmo assim Mélechon chegou a ser ministro da Educação no período 2000-2002 e depois sendo eleito Senador em 2004 por Essonne, permanecendo até 2010.

Em 2008 Mélechon se desligou do Partido Socialista para fundar o “Parti de Gauche” (ou Partido de Esquerda em tradução), se radicalizando e se afastando do PS. Através de seu novo partido Mélechon conquistou uma cadeira no parlamento europeu em 2009, posto que ocupa até o presente momento.

Em 2012 Mélechon tentaria a presidência pela primeira vez, encerrando em quarto lugar no primeiro turno, após a derrota na eleição ele se tornou uma das vozes de esquerda mais críticas ao governo Hollande, alegando sua traição aos ideais da Esquerda Francesa.

Mélechon é um crítico da União Européia, mesmo sendo membro do parlamento europeu, assim como é crítico do neoliberalismo e da globalização, mas defende a renegociação de tratados Europeus e não necessariamente a dissolução destes. Ainda sobre a Europa existe uma crítica sobre Mélechon quanto à um certo sentimento “anti-Alemão” de sua parte e que teria sido mais recentemente esboçado em uma publicação de 2015 onde ele deixaria clara sua visão de que a Alemanha havia se tornado novamente um problema, uma ameaça.

O candidato da extrema esquerda é também um crítico também da OTAN e neste caso considerando a saída da França da organização que ele alega ser uma afronta à soberania francesa. Mélechon é criticado em razão de seu posicionamento mais suave sobre Putin e Rússia.

No plano interno Mélechon defende aumento dos auxílios assistenciais e mais presença do Estado sobre a economia, defende também revisão fiscal, manutenção e ampliação de impostos sobre grandes fortunas. Mélechon é também um dos defensores da legalização da maconha.

A performance de Mélechon no debate de 04 de Abril foi vista por diversos analistas como surpreendente, sendo considerado o “vencedor” deste e ganhando fôlego extra para o final da campanha.

No dia 23 de Abril de 2017 os franceses vão às urnas, e não são somente 5 os candidatos na corrida, mais de 10 candidaturas estão na disputa.

O país está claramente dividido entre quatro ponteiros de acordo com as pesquisas e estas com diversas variações, dada a proximidade dos candidatos e o nível de divisão do eleitorado. O número de eleitores declaradamente indecisos também varia e mais do que os números sobre os candidatos, entre 25% à 31% do eleitorado se declara como indeciso, mesmo que observado o menor número ele é bastante expressivo e certamente pode decidir a eleição.

A França de hoje não é um país fora do mundo e assim reflete muitos dos problemas enfrentados no cenário político mundial. Da insatisfação popular com a política à falta de quadros passando pelo sentimento de falta de representatividade e assim abrindo margem para surgimento de movimentos mais radicais de todos os lados do espectro político ideológico. Aliado à isso no plano “meramente político” temos uma sociedade que mudou, um país que tem a cara de imigrantes e seus descendentes. A França hoje luta com as mais diversas dificuldades culturais advindas de sua nova (ou não tão nova) composição social e enfrenta ainda as dificuldades que o mundo desenvolvido possui quanto a geração de empregos, impostos, previdência, etc.

O “não voto” pode ser tão ou mais marcante na eleição francesa como foi na brasileira, na americana e no caso britânico do BREXIT, mas somente no dia 23 vamos saber se os franceses indecisos vão optar por votar em alguém ou “não votar”.

Apesar dos recentes fatos relacionados ao terrorismo (incluindo o atentado do dia 20 na Champs-Élysées reivindicado pelo Estado Islâmico) poderem representar ponto determinante na eleição aliados a questão migratória, é importante observar que o país vive inúmeros dilemas internos que talvez passem com menor importância ou sequer se apresentem no noticiário internacional. Questões domésticas podem acabar definindo a eleição em rumos menos esperados.

No momento aponta-se para uma vitória de Emmanuel Macron tanto no primeiro quanto no segundo turno e mesmo sendo somente resultado de pesquisa que pode mudar já é possível se observar algumas possíveis mensagens que população francesa esteja querendo externalizar. Mensagens que talvez não sejam tão vinculadas às questões de política externa ou nem mesmo à União Europeia. O mais prudente é considerar como muito cedo para tentar traduzir qualquer mensagem no momento, especialmente dado a curta carreira e histórico desse candidato e mesmo pautando qualquer análise em sua campanha e discurso poderemos ainda chegar em uma conclusão pouco consistente.

Mesmo que o menos esperado ocorra, seja uma vitória de Le Pen, Fillon ou mesmo de Mélechon, qualquer análise de momento pode terminar por ser “enganosa”, pelas mais diversas razões.

Após o dia 23 muito possivelmente o processo eleitoral francês seguirá para o segundo turno que tende à ser previsível e com um curto período de campanha, mas um tempo valioso para que o mercado, a União Européia e o mundo comecem à se ambientar com um novo governo francês.

O que talvez possa se concluir no momento é que a primeira derrotada seja justamente a França. Vivendo um cenário de crise e estando diante de uma eleição dividida, onde essa divisão seja talvez o que mais justifique ter como primeira derrotada a França. O país que pode sair do pleito com a sociedade ainda mais fracionada e ainda menos crédula em sua classe política, além de uma população que pode acabar por ter ainda mais medo do que virá na sequência e possivelmente uma sensação de insegurança crescente.
Qualquer que seja o candidato eleito ao final do segundo turno o seu primeiro trabalho será o de “unificar” o país, tarefa que não se desenha nada fácil, porém será o início básico para que ele ou ela possa no mínimo começar governar.

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O Rio tremeu: Explosão na Ilha do Boqueirão, Rio de Janeiro, 16 de julho de 1995

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Barulho e reflexos da explosão de paiol da Marinha na Ilha do Governador são sentidos em diversos bairros cariocas

A tarde daquele domingo, 16 de julho de 1995, arrastava-se calmamente no Rio até que o mundo, subitamente, pareceu vir abaixo. Por volta das 17h25m, uma explosão fortíssima provocou um forte abalo nas áreas adjacentes à Baía de Guanabara, principalmente na Ilha do Governador e outros bairros da cidade, além de Niterói e São Gonçalo, num raio de 50 quilômetros. Outras explosões se seguiram: eram os paiois de munição da Marinha na Ilha do Boqueirão, a 300 metros da Ilha do Governador, que iam pelos ares, causando choque, medo, pânico, correria e muita desorientação.

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Nos primeiros momentos, não se sabia o alcance da tragédia e temia-se por um grande número de mortos e feridos. As informações eram assustadoras: de vários pontos da cidade, era possível ver uma enorme bola de fogo erguendo-se sobre a baía e as explosões se sucediam.

A Ilha do Boqueirão localiza-se ao norte da ilha do Governador, no interior da baía de Guanabara
A Ilha do Boqueirão localiza-se ao norte da ilha do Governador, no interior da baía de Guanabara

O incêndio só foi extinguido na tarde do dia seguinte. Mas, por sorte, houve apenas feridos — 23 fuzileiros navais e alguns civis. Já os proprietários de casas e apartamentos em vários bairros da cidade tiveram prejuízos com vidros quebrados, paredes rachadas e danificadas.

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As hipóteses aventadas como causa do acidente iam de sabotagem a instabilidade de munição num paiol de trânsito, de falha humana no processo de armazenamento a erro na construção de um dos depósitos. O assunto ganhou o alto da primeira página e mais quatro páginas internas da edição de segunda-feira, e continuou em destaque durante toda a semana.

Fonte: Memória O Globo 

Edição Plano Brasil

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Caracal International LLC faz demonstração de seus armamentos para a Policia Civil de Goiás e mostra que veio para ficar.

Da esquerda para direita: Diretor da ESPC, Deusny Filho, CEO da Caracal, Hamad Salem Al Almeri, Delegado Geral da PC, Álvaro Cássio e Superintendente de Ações e Operações Integradas da SSPAP, Emmanuel Henrique.
Da esquerda para direita: Diretor da ESPC, Deusny Filho, CEO da Caracal, Hamad Salem Al Almeri, Delegado Geral da PC, Álvaro Cássio e Superintendente de Ações e Operações Integradas da SSPAP, Emmanuel Henrique.

Ghost Especial para o Plano Brasil

Com Informações de MessiaH, Policia Civil de Goiás e Firearms Brasil

Na última sexta-feira (11), autoridades e representantes da Caracal International LLC- indústria bélica dos Emirados Árabes, estiveram reunidos na ESPC para demonstração dos fuzis, carabinas e pistolas produzidas pela marca. O objetivo da demonstração foi o de apresentar na prática aos representantes da Segurança Pública do Estado de Goiás, o potencial e funcionamento do armamento árabe, em razão de entendimento firmado entre o Governo de Goiás e a Caracal, que prevê instalação da indústria no município de Anápolis.

epresentante da Caracal faz apresentação de armamento no estande de tiros da ESPC
Representante da Caracal faz apresentação de armamento no estande de tiros da ESPC

A apresentação ocorreu durante toda a tarde na escola, onde estiveram presentes o Secretário da SSPAP (Secretaria de Segurança e Administração Penitenciária, José Eliton, o Superintendente de Ações e Operações Integradas da SSPAP, Delegado Emmanuel Henrique, o Assessor de Operações Integradas, TC  Francisco Jubé, o Delegado Geral da Polícia Civil, Álvaro Cássio, acompanhado de seu adjunto, Delegado Marcelo Aires, o Diretor da ESPC, Deusny Filho e outras autoridades que recepcionaram o CEO da Caracal Hamad Salem Al Almeri, o chefe de operações da empresa, Robert Hirt e a diretora de Marketing, Sandra Maria Schlegel.

A Caracal International LLC, foi fundada em 2007 em Abu Dhabi, capital do EAU – Emirados Árabes Unidos e é fabricante de armamentos e munições exclusivas para forças de seguranças.  Atualmente, a empresa tem foco comercial em toda a América Latina.

No último dia 10, o governador Marconi Perillo oficializou os entendimentos entre governo e indústria para que a implantação da unidade fabril da Caracal ocorra no estado de Goiás. Para o governo, a vinda dessa empresa representa um quebra de paradigmas, por ser a primeira indústria bélica a ser instalada no Estado. Planeja-se que o funcionamento da indústria ocorra em aproximadamente 12 meses a partir do acordo firmado entre as instituições. A previsão é de que sejam gerados cerca de 1.250 empregos diretos e indiretos com a consolidação do projeto.

A  Caracal produz apenas um modelo de pistola,  Caracal Enhanced F, em calibre 9mm Parabellum (9x19mm), um modelo de submetralhadora, a CMP9, também em 9mmP, três modelos de fuzil de assalto, o CAR 814, CAR 816 e CAR 817AR, nos calibres 5,56x45mm, 5,56x45mm e 7,62x51mm, respectivamente. Produz também três modelos de fuzil (ou rifle) de precisão, CSR 338, CSR 308 e CAR817D, nos calibres .338 Lapua Magnum, 7,62x51mm e 7,62x51mm, respectivamente, e por conta disso provavelmente suas vendas para o Brasil, serão focadas nas Forças de Segurança Pública e Forças Armadas, já que os calibres de suas armas são todos restritos.

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Goiás abre portas para atrair investidores de Abu Dhabi

A missão comercial de empresários goianos e representantes do Governo de Goiás nos Emirados Árabes Unidos que se encerrou na sexta-feira (07/10) abriu novas perspectivas. Na última etapa de conversações, em Abu Dhabi, Hamad Al Almeri disse que vai pessoalmente se empenhar para abrir canais de negociações entre empreendedores de seu país e do estado. “Temos as pessoas certas para as oportunidades”, disse ele ao secretário de Desenvolvimento Econômico (SED), Luiz Maronezi, que tratou sobre o tema após almoço no Emirates Palace Hotel.

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Os temas assuntos gerais de economia foram objeto de diálogo logo após Al Almeri garantir à delegação goiana que dará “100 por cento de apoio” para implantar uma unidade da Caracal International LLC em Goiás. Hamad Al Almeri é CEO desta indústria especializada em armamentos de ponta destinados exclusivamente às forças de segurança pública e que iniciou uma ampla ofensiva para abrir novos mercados no Brasil e na América Latina, um processo que inclui transferência de tecnologia com know-how alemão. O vice-governador José Eliton iria chefiar a missão, mas foi impedido em função do atentado de que foi vítima em Itumbiara.

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O secretário de Desenvolvimento, Luiz Maronezi, manifestou para Al Almeri o interesse do governo de Goiás de estabelecer interlocuções com empresários locais para investimentos no estado. Hamad imediatamente respondeu que abrirá as portas para os primeiros contatos e destacou sua amizade com o embaixador dos Emirados Árabes Unidos no Brasil, Khalid Khalifa Abdulla Rashid Al-Mualla.

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Al Almeri já havia aceito convite para visitar Goiás, o que pode ocorrer ainda este ano. A resposta positiva foi diante da delegação do estado, composta, além do titular da SED, pelos empresários que buscam formalizar a Caracal Brasil, Paulo Humberto Barbosa e Augusto de Jesus Delgado, e o superintendente de Ações e Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP), delegado federal Emmanuel Henrique.

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Hamad Al Almeri se mostrou especialmente interessado na abundante natureza de Goiás, depois de ver imagens sobre potencial turístico do estado. O empresário Paulo Humberto mostrou a ele um vídeo de pescaria no Rio Araguaia. Ao ver o tamanho do peixe, ficou impressionado. Logo após, convidou a delegação a passar um período de férias em sua ilha, “quando quiserem”. Ao dispensar a formalidade das conversações, Al Almeri lembrou as origens: “Venho do deserto. Gosto das coisas simples”.

Potencialidades

O secretário de Desenvolvimento Econômico (SED), Luiz Maronezi, narrou a Hamad Al Almeri as potencialidades de Goiás como o estado que mais cresce no país, a logística, a infraestrutura e os incentivos do governo para investidores nacionais e internacionais. Apresentou o estado como um dos protagonistas da produção agropecuária nacional, e citou produtos da linha de frente, como soja, milho, sorgo, feijão, cana de açúcar, carnes e lácteos.

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Na quinta-feira (06/10), o secretário expôs em detalhes a força do estado para o chefe de Operações da Caracal, o germânico Robert Hirt, durante visita à sede da empresa, em pleno deserto. Ele pontuou a localização estratégica de Goiás, a confluência das capitais Goiânia, Brasília e a cidade de Anápolis como o terceiro maior eixo de desenvolvimento do país. Citou a plataforma logística multimodal de transporte que facilita a inserção dos produtos no mercado mundial. Ainda neste dia, a delegação goiana também foi à feira Adihex (Abu Dhabi International Hunting and Equestrian Exhibition), que é anual e expõe as principais novidades do setor de armamentos do país, entre outros produtos.

Emirates Palace

Em Abu Dhabi, a delegação goiana foi convidada por Hamad Al Almeri para almoço no Emirates Palace, que figura entre as inúmeras propriedades da família. O hotel é um dos mais luxuosos do mundo e se tornou atração turística central dos Emirados Árabes Unidos. A edificação, de quase um quilômetro de área construída, foi inaugurada em 2005 para sediar um grande encontro de nações do Golfo Pérsico. Das suas 394 suítes luxuosas, oito são reservadas aos príncipes dos emirados. O local é utilizado, também, para cerimônias de casamento da família real de Abu Dhabi.

Vista Geral do Emirates Palace Hotel
Vista Geral do Emirates Palace

Sonho Antigo

O pioneirismo de uma indústria bélica em Goiás é sonho antigo do empresário goiano Paulo Humberto Barbosa, que há dois anos tomou a iniciativa dos primeiros contatos. Neste período, buscou parcerias, até manter contato direto com o chefe de Operações da empresa, o germânico Robert Hirt. O acordo fechado diretamente com o príncipe Hamad Al Almeri é o ponto auge dessa trajetória.

Momento de assinatura do acordo entre a Caracal International LLC e a Delfire Insdustria e Comércio de Extintores
Momento de assinatura do acordo entre a Caracal International LLC e a Delfire Insdustria e Comércio de Extintores

De acordo com o memorando de entendimento, as três partes se comprometem a trabalhar no sentido de viabilizar a instalação de uma indústria da Caracal no Brasil, buscando a aprovação inicial do governo para a fabricação de armamentos. Se comprometem, também, a construir um plano de viabilidade para o empreendimento. Devem, ainda, elaborar um projeto para o início das atividades da indústria, primeiramente para montagem de peças e avançando para a fabricação de armas. Assinaram o memorando Hamad Al Almeri, presidente da Caracal International, os empresários Paulo Humberto Barbosa e Augusto de Jesus Delgado, Luiz Maronezi (SED) e Emmanuel Henrique (SSPAP) que representaram o governo local. A previsão é de que sejam gerados com a consolidação da iniciativa cerca de 1.250 empregos diretos e indiretos.

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Fuzileiros Navais do Peru e dos EUA preparados para UNITAS 2017

Um grupo de fuzileiros navais em um ponto de controle enfrenta uma suposta ameaça na área de Quebrada Inocente, no município litorâneo de Ancón. (Foto: Marinha do Peru)
Um grupo de fuzileiros navais em um ponto de controle enfrenta uma suposta ameaça na área de Quebrada Inocente, no município litorâneo de Ancón. (Foto: Marinha do Peru)

Julieta Pelcastre

Koa Moana 2016 treinou 120 fuzileiros navais dos dois países para planejar respostas rápidas e eficazes perante desastres naturais.

Uma equipe formada por 70 engenheiros de combate do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, juntamente com 50 integrantes do recém-formado Batalhão de Engenharia da Força de Fuzileiros Navais da Marinha do Peru, participaram do exercício conjunto Koa Moana 2016. Os marinheiros trocaram conhecimentos para melhorar a capacidade de resposta em caso de desastres naturais, para fornecer assistência humanitária, como parte da preparação do batalhão para o exercício naval multinacional UNITAS 2017.

Os engenheiros de combate dos dois países realizaram uma série de atividades em diferentes tipos de terreno, entre os dias 2 e 8 de setembro, dentro das instalações da Base de Fuzileiros Navais do Peru e a área de Quebrada Inocente, no município litorâneo de Ancón. O exercício incluiu treinamento em casos de desastres naturais como terremotos, chuvas torrenciais, inundações e deslizamentos de terra, que colocam em perigo a segurança da população.

UNITAS é o exercício marítimo de maior trajetória da Marinha dos Estados Unidos. É organizado todos os anos, desde 1960, para capacitar e aumentar a interoperabilidade entre as forças navais de cada uma das marinhas latino-americanas. O exercício consiste em operações navais conjuntas de interdição marítima, combate ao crime organizado transnacional e guerra de superfície. O UNITAS 2017 terá sede no Peru.

Reação do pessoal de segurança de um comboio perante a presença de uma ameaça
Reação do pessoal de segurança de um comboio perante a presença de uma ameaça

O intercâmbio de conhecimentos e experiências obtidas pelos fuzileiros navais do Peru e seus homólogos norte-americanos, no exercício Koa Moana 2016 (guerreiro do mar no idioma havaiano), origina uma resposta eficaz e rápida de ajuda à população em casos de desastres naturais. “Isto faz parte da preparação da nova unidade de engenharia de combate da Marinha do Peru, que participará pela primeira vez do exercício UNITAS 2017”, disse à Diálogo, em 21 de outubro, o Capitão de Corveta Armando A. Daviu, Oficial de Relações Públicas das Forças do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha, Sul.

“Este exercício normalmente ocorre no círculo do Pacífico. Nessa ocasião, pedimos ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos para realizar um intercâmbio com nossos homólogos peruanos. Esse intercâmbio não apenas mostra o Peru como uma nação latino-americana, mas também como uma nação do Pacífico”, afirmou o CC Daviu.

Durante o Koa Moana 2016, os participantes reforçaram suas capacidades de sobrevivência, posições defensivas, engenharia de combate, colocação e remoção de obstáculos, transporte de equipamentos, construção de pontes e hospitais modulares, segurança em pontos de verificação, registro de veículos, tiro, utilização de explosivos, operação contra armadilhas explosivas improvisadas e tratamento de água do mar, sem deixar de lado o treinamento físico com atividades esportivas recreativas.

Além disso, os fuzileiros navais norte-americanos instruíram os oficiais peruanos sobre várias técnicas para estabilizar feridos. Essas técnicas são utilizadas nos campos de combate do Iraque e do Afeganistão, assim como em hospitais civis dos EUA.

“Como anfitrião do UNITAS 2017, a Marinha de Guerra do Peru pensa em realizar, exercícios que sirvam para unificar procedimentos e critérios que permitam somar esforços para enfrentar as emergências de apoio humanitário de forma combinada”, e aumentar o nível das capacidades do Batalhão de Engenharia sobre desastres naturais, comentou à Diálogo, em 13 de outubro, o Contra Almirante Aníbal Juan Cueva López, comandante da Força de Fuzileiros Navais do Peru.

“Esses exercícios são muito positivos porque o mundo mudou com respeito aos desastres naturais. Devemos ter consciência de que os soldados não estão apenas treinados para a guerra; eles estão treinados também para manter a paz em situações de desastres naturais”, disse à Diálogo César Ortiz Anderson, analista de segurança e presidente da Associação Pró-Segurança do Cidadão no Peru.

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Nos desastres naturais, os primeiros danos ocorrem em pontes, estradas e aeroportos. As forças armadas são as primeiras a abrir novamente as comunicações para levar ajuda humanitária e proteger as áreas afetadas.

Apesar do Batalhão de Engenharia estar focado na luta contra o terrorismo, a transição para contribuir com a segurança humana, a logística e a adaptação da sua estrutura orgânica a esse novo papel foram os desafios imediatos durante o desenvolvimento do exercício. “Todos os envolvidos cumpriram de forma eficaz o trabalho confiado e foi possível desenvolver o treinamento sem contratempos”, enfatizou o C Alte Cueva.

UNITAS, Koa Moana e outros exercícios “nos ajudam a entender melhor outras regiões caso sejamos solicitados em outras áreas do planeta. Deve-se lembrar que muitos de nossos fuzileiros navais estiveram no Iraque e no Afeganistão nos últimos dez anos. Trabalhar no deserto não é o mesmo que trabalhar na selva do VRAEM, no Peru”, refletiu o CC Daviu.

Os fuzileiros navais peruanos e norte-americanos também trocaram experiências profissionais no VRAEM. A Marinha dos Estados Unidos proporciona capacitação às Forças de Fuzileiros Navais do Peru como preparação para seu desenvolvimento no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM por sua sigla em espanhol), onde as Forças Armadas mantêm uma operação contra o Sendero Luminoso e os grupos de traficantes de drogas. A cada seis meses, uma equipe de fuzileiros navais norte-americanos viaja ao Peru para complementar o treinamento.

“Com todos esses exercícios, trocas de experiências, desenvolvimento de capacidades, equipamento e cooperação superiores, temos a certeza de que o Batalhão de Engenharia da Força de Fuzileiros Navais da Marinha do Peru será uma referência em unidades deste tipo no país e na região”, concluiu o C Alte Cueva. “Continuaremos com nossa tarefa principal orientada para a defesa.”

Fonte: Dialogo Americas