Categories
Conflitos Geopolítica Geopolitica Opinião

Conexão Geo com Cmte. Leonardo Mattos

Conexão Geo 33

1) Atualizando a crise com o Irã.

2) As tensões que correlacionam China, EUA, Hong Kong e Taiwan.

3) 42 Reunião do Tratado Antártico.

 

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=Ak_Dm8ztGJM[/embedyt]

Categories
Conflitos Conflitos e Historia Militar Geopolítica Geopolitica História Israel Opinião Sugestão de Leitura

Estudo de palestinos ajuda a compreender sua sociedade fraturada

Nakba – “catástrofe” em árabe – expulsão das populações árabes pelos israelenses durante a guerra de 1948

 

Por José Ailton Dutra Júnior*

A Questão Palestina é um dos temas centrais da história contemporânea, pois a existência de uma sociedade que vive dividida em uma população exilada e expulsa por um movimento colonial de origem europeia apoiado pelas potências capitalistas anglo-saxãs hegemônicas no mundo desde o fim das guerras napoleônicas (primeiro a Grã Bretanha e depois EUA)-o sionismo-e outra sobre a ocupação do estado criado por esse movimento (Israel), sendo que esse povo é a população nativa do país no qual se encontram alguns dos mais importantes sítios religiosos da duas maiores religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo), sendo esse país uma terra sagrada para essas religiões e o povo vítima dessas perseguições ter populações que as praticam, se trata de um fato que de forma, direta ou indireta, acaba envolvendo. Aceitar ou repudiar o destino imposto ao povo palestino, nessa situação, significa definir um padrão de como se devem tratar os seres humanos nos séculos seguintes em todo o globo: ou se aceita que os direitos humanos, como definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, assinada pela maioria dos estados do mundo, são válidos- ao menos teoricamente-para todos os seres humanos, ou ela se aplica a alguma minoria poderosa e privilegiada dentro da ordem mundial atual.

Evidentemente, os palestinos não são a única população no mundo que sofre injustiças terríveis. Podemos citar os habitantes da Nova Guiné Ocidental vitimados por uma brutal ocupação militar da Indonésia (que pode ter matado entre 100 e 500 mil pessoas, segundo diversos órgãos de imprensa) cujo objetivo é entregar suas terras, florestas e subsolos para o saqueio por parte das corporações multinacionais americanas, australianas e britânicas, dentre outros países. Podemos citar a questão dos curdos na Turquia, país da mesma região da Palestina e de certa forma um vizinho, cujas políticas repressivas e negação de direitos, em maior ou menor grau, independente se suas forças políticas tenham ou não se aliado aos EUA e Israel, caracteriza a conduta padrão do estado turco há um século. Podemos citar inúmeros e mais terríveis e sangrentos casos, em relação à Palestina, ao longo do continente africano e outras partes do mundo. Todos são acontecimentos importantes, mas em nenhum deles existe essa questão colocada pela existência do drama palestino: o povo nativo da Terra Santa cristã e muçulmana, falante da mesma língua que os habitantes dos países vizinhos, compartilhando com eles-exceto os egípcios- uma identidade maior síria- foi parcialmente expulsa por colonos de origem judaica (que também considera a Palestina e vários de seus lugares sagrados), cujos líderes fundadores e movimentos vieram da Europa, e outro esta exilada nos países vizinhos, mas cada vez mais possui comunidades dispersas pelo mundo.

Por isso, para se poder compreender a Questão Palestina também é necessário conhecer informações básicas sobre a sociedade palestina e sua história. Bons sites, boas reportagens, bons documentários e bons livros de divulgação ajudam a começar a entender esse assunto tão complexo. Uma compreensão mais profunda requer livros de caráter mais acadêmico e uma das melhores obras nesse sentido é o trabalho de Samih K. Farsun e Christina E. Zacharia Palestina and the Palestinian, publicado em Nova York em 1997.

Infelizmente, como acontece com muitos livros bons em diversas áreas das ciências humanas, esse trabalho não foi editado no Brasil, mas ele pode ser encomendado pela internet em sites estrangeiros.

Nesse trabalho, os dois autores palestinos irão mostrar a sociedade palestina como ela existiu antes de depois da Nakba (desastre em árabe, a expulsão de 700 mil palestinos pelos sionistas em 1948), mais especificamente como era a sociedade palestina desde o século XVIII, as transformações por que passou no século XIX (Reformas Tanzimat no Império Otomano e a penetração do capitalismo ocidental), a colonização britânico-sionista (1918-1948), e depois, a sua transformação profunda como resultado da Nakba e sua divisão em três segmentos: os exilados, os habitantes da Faixa de Gaza e Cisjordânia (conquistados por Israel na guerra de 1967), os habitantes do interior do estado de Israel.

Os autores, ao falarem da sociedade palestina antes de 1948 comentam também sob sua geografia e a influência que esta teve na formação das culturas locais e nos sistemas econômicos de cada localidade e região que compõe a Palestina, assim como o papel importante dela como Terra Santa para muçulmanos e cristãos e, por isso, um local de peregrinação importante no Oriente Médio por séculos. (Estes fatos: abrigar lugares sagrados muçulmanos, cristãos e judeus), além de ser uma das rotas mais importantes de peregrinação para Meca e Medina (os dois mais importantes lugares sagrados do islamismo) na Arábia ocidental sempre a colocou em destaque em termos geopolíticos e também ajudou a configurar a sua economia, pois alimentar, ajudar a transportar, abrigar e vender artigos religiosos ou de outros tipos aos peregrinos sempre foi uma receita importante para a economia das cidades palestinas e fez com que duas delas se destacassem nesse processo: Jerusalém e a cidade portuária de Haifa, atualmente dentro do estado de Israel.

Um outro aspecto importante para se entender a sociedade palestina até o começo do século XX é o seu pertencimento a Síria histórica-geográfica fazendo com que a população palestina compartilhe a mesma língua (em versões dialetais locais): o árabe-levantino ou árabe sírio, e uma cultura e identidade mais geral, embora seus particularismos sejam importantes também para se poder compreender a sua dinâmica interna e particularismo culturais-religiosos importantes como a forte devoção aos profetas Moisés e Saleh, objetos de cultos nas mais importantes festas palestinas até a Nakba no qual participavam tanto muçulmanos como cristãos e também judeus não sionistas.

Celebração de um Casamento em 1929 em Ramallah, Sede Atual da Autoridade Palestina

Uma ideia central, segundo Farsun e Zacharia, é importante para se entender os palestinos antes e depois da Nakba: antes de 1948 os palestinos eram, apesar das modificações provocadas pela penetração capitalista ocidental desde o século XIX, uma sociedade que ainda era muito regida pelos valores tradicionais ligados a vida aldeã, a forte presença da religião (muçulmana ou cristã) na organização da vida privada e publica e os laços comunitários dos complexos familiares (hamulas) nas aldeias interioranas, um mundo assentado ainda em uma base econômica majoritariamente agrícola; depois da Nakba, diante do exílio ou da ocupação israelense, a antiga estrutura perde o sentido, apesar dos esforços dos palestinos para mantê-las. Como resultado a alfabetização, urbanização, proletarização, emancipação das mulheres, difusão dos ideais socialistas, comunistas, terceiro-mundistas e pan-árabes, democráticos e o islã político conservador moderno (que se expande com mais força a partir dos anos 1980), uma vida marcada pela precariedade, o receio e a presença da violência e da segregação, mudam o perfil psicocultural das gerações palestinas pós 1948 em relação aos seus antecessores. Também, como apontam Farsun e Zacharia, no caso dos refugiados: estes se dividiram em dois grupos: os das antigas elites palestinas, cuja possibilidade de reconstruir suas vidas era muito mais fácil, e os pobres que irão sentir todo o peso da condição de exilados.

O território da Palestina, como Farsum e Zacharia mostram, era tradicionalmente dividido em dois grupos de populações cujos meios de vida faziam com que se relacionassem constantemente a ponto de viverem em simbiose econômica: os beduínos nômades ou seminômades-dependendo da tribo-de economia pastoril, que se fixavam nas terras baixas ou nas zonas semidesérticas e as populações sedentárias, vivendo principalmente nos planaltos, majoritariamente de economia agrícola, no qual o sistema de posse coletiva da terra (chamada Musha´a) e distribuição dos lotes de acordo ao tamanho e necessidades das famílias era predominante. Junto a isso estavam as identidades coletivas locais baseadas nas hamulas, grupos de aldeias e regiões sobre o qual surgiam lideranças que eram reconhecidas oficialmente pela administração otomana. Os camponeses eram socialmente submetida à notáveis que viviam em aldeias maiores ou nas cidades. Essa população rural sustentava a população urbana de localidades como Nablus, Jerusalém, Haifa, Jaffa, Hebrom, Gaza, Belém e outras, que, no caso das cidades interioranas, formavam sistemas econômicos locais (no qual o artesanato e o comércio eram as atividades principais) com culturas regionais bem definidas, sendo que várias, ou eram cidades sagradas ou com locais sagrados ou eram parte das rotas de peregrinação religiosa e nas litorâneas no qual haviam os contatos permanentes com o exterior por meio do comércio internacional. Em Jerusalém havia também os Ashraf: as famílias descendentes dos generais conquistadores árabes do século VII, a quem o Califa Omar havia dado a guarda ou proteção dos lugares sagrados da cidade. Esse grupo tinha um papel de liderança na Palestina e se sobrepunha aos notáveis urbanos do restante do país.

Sobre esse complexo sistema econômico-social se imporá a ordem internacional capitalista vinda da Europa e estimulado pelas reformas sociais, legais, administrativas, econômicas e políticas pelo governo otomano desde 1839 chamadas de tanzimat (reorganização em turco). Estas reformas estabeleceram a propriedade privada plena e as garantias legais para sua estabilidade e transmissão por herança (cujos resultado a longo prazo será a formação de grandes propriedades fundiárias nas mãos das elites em todo país), centralização administrativa, regularização e modernização do sistema fiscal, igualdade jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos entre outras medidas. Esse processo de modernização otomana, por conta da expansão do imperialismo europeu (especialmente o britânico no caso da Palestina) teve como resultado a entrada do capital europeu na economia local orientando-a para as necessidades dos mercados ocidentais (exportações de produtos agrícolas como laranja e trigo), investimento e controle europeu das infraestruturas modernas como ferrovias, telégrafos e navegação a vapor entre outros, controle financeiro anglo-francês do governo otomano com impacto sobre a Palestina, importação de bens indústrias europeus (particularmente os britânicos), o que levou ao desenvolvimento de uma classe mercantil vinculada aos capitalistas europeus. Isso modificou a estrutura social, levando a progressiva proletarização dos camponeses, a introdução do sistema moderno de trabalho assalariado, decadência da classe artesanal nas cidades, o desmonte progressivo do sistema de propriedade coletiva musha´a e o aumento da diferenciação social e da concentração de renda.

Tudo isso foi muito intensificado após a Guerra da Crimeia (1853-1856) no qual o Império Otomano participou ao lado da Grã-Bretanha e da França contra a Rússia. Farsun e Zacharias comentam que “a penetração econômica imperialista do século XIX (que desviou para os seus interesses os efeitos das reformas tanzimat) criou as condições para que a colonização sionista pudesse acontecer”, pois ela foi retirando, progressivamente do controle otomano a Palestina e permitindo aos europeus se estabelecerem no país como privilegiados com poder econômico e social, fato que irá caracterizar os colonos sionistas no século XX sob a ocupação britânica.

Por outro lado, a modernização também levou a formação de um setor social com educação técnica e cultural moderna vivendo nas cidades, constituindo uma nova classe média, e a formação de ideias político-sociais distintas dos comunitarismos religiosos, clânicos, nômades, regionais e locais e outros que se expressavam no aparecimento da noção de nacionalismo (palestino, sírio, pan-árabe) e nos diversos projetos políticos-ideológicos de origem europeia: democracia, liberalismo, modernização econômica, a ideia moderna de tolerância religiosa e secularismo, etc.

Após a Primeira Guerra Mundial que levou a derrota do Império Otomano (aliado da Alemanha), a ocupação britânica em 1918 e o estabelecimento do mandato pela Liga das Nações (1920-1948) trouxe o projeto de colonização judaica promovido pelas elites britânicas que aceitaram promover o projeto do movimento sionista estabelecido por estes durante o I Congresso Sionista de 1897 em Basileia na Suíça. A Declaração Balfour de 11 de novembro de 1918 estabeleceu publicamente essa aliança entre sionistas e o império Britânico que tinha na burguesia financeira judaica inglesa, como o ramo britânico dos Rothichilds, os intermediários.

Farsun e Zacharias mostraram em seu trabalho como, ao longo de todo o mandato e independente dos críticos ingleses dentro e fora do governo, como o governo mandatário britânico (na verdade um governo colonial) promoveu uma política para aumentar a imigração judaica, protege-la economicamente, desfavorecer até as classes dominantes palestinas e fazer do cada vez maior enclave judeu uma zona mais ricas, mais industrializada, incorporadora de tecnologias estrangeiras e com melhores indicadores sociais. Ela era protegida até mesmo da concorrência econômica da burguesia metropolitana. Sua população cresceu de 84 mil em 1922 para 640 mil em 1947 (a população árabe era 666 mil em 1922 e 1,300 milhão em 1947). Essa colonização foi acompanhada de uma agressiva política de colonização por meio da compra de terras e o estabelecimento de colônias agrícolas (Kibbutzim) o e fechamento do mercado de trabalho judeu para os árabes, além disso aos judeus foi permitido a formação de uma força armada e seus grupos milicianos ilegais não eram reprimidos com muita ênfase. O resultado disso foi uma série de confrontos que culminaram na revolta anticolonial de 1936-1939 cuja derrota, desarmamento, controle policial da população, exílio ou prisão da classe política da época teve um impacto social e psicológico devastador que estabeleceu as condições locais finais para a Nakba de 1948.

Após 1948, Farsun e Zacharia, mostram como os palestinos se esforçaram para manter a sua unidade cultural e espiritual, identidade e recordação de sua pátria unificada em meio à realidade dura do exilio ou ocupação israelense. Apesar do apoio popular a sua luta no Mundo Árabe e do reconhecimento internacional do seu drama (por exemplo, a Resolução 194 da ONU de 11 de dezembro de 1948 exigindo o retorno dos exilados), os palestinos irão enfrentar em muitos países discriminação e restrição aos seus direitos vivendo a maioria nos inúmeros campos de refugiados montados nos países vizinhos e sob a administração de uma agência da ONU – a URWA, sigla em inglês para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados dos Oriente Próximo.

Família de refugiados palestinos no campo de Wadi Seer, na Jordânia em 1958.

A divisão da sociedade palestina em três grupos: os exilados, os habitantes de Gaza e Cisjordânia (sob a ocupação de Israel a partir de 1967) e os que viviam dentro do estado de Israel (definidos oficialmente como árabes de Israel) e que receberam uma cidadania de segunda mão e uma prática social marcada por forte discriminação racial, criou três distintas realidades que aumentava a tensão ainda mais por dentro a fraturada e traumatizada sociedade palestina e os obrigou a mudar muitos aspectos de sua vida para poder resistir ao poder sionista e o seu patrocinador principal desde 1967: os EUA. Os palestinos exiliados (6-7 milhões hoje) viveram em constante precariedade, nunca tendo certeza sobre o seu futuro e com a sombra da guerra sempre presente. Muitos se tornaram imigrantes, buscando emprego no exterior-particularmente a Europa e os estados árabes do Golfo Pérsico- formando novas comunidades de exilados nesses países e, no caso dos estados árabes do Golfo, formando desde os anos 1960, uma importante classe média de técnicos, médicos, professores e dirigentes que muito contribuiu com o desenvolvimento trazido pela riqueza do petróleo. Na Jordânia, a enorme população palestina também teve um papel similar, embora, por seu tamanho, muitos se tornaram um componente central da classe trabalhadora jordaniana. Mas essa população exilada sofreria muito com as guerras em diversos desses países (Jordânia 1969-1970), Líbano (1975-1990), Kuwait (1991), Iraque (2003-2009) e Síria (2011 ao presente), tendo estas as marcado e ajudado a definir sobre nova forma a sua identidade.

Já os habitantes de Gaza e Cisjordânia, que também tem refugiados vindos do território israelense, primeiro tiveram seus territórios sobre o controle de estados árabes vizinhos (Egito no primeiro caso e Jordânia no segundo) e depois passaram a viver sobre uma cada vez mais dura ocupação militar israelense, no qual a limpeza étnica e a colonização judaica eram realidades presentes. Estes palestinos passaram, após a guerra de 1967, por um processo de proletarização e urbanização, muitos deles se transformando em trabalhadores mal remunerados dentro de Israel. Estes, ainda mantiveram certas estruturas sociais anteriores a Nakba, como as hamulas, e a influência social das antigas famílias de notáveis, mas também, por conta da pressão sionista e influência de ideologias e movimentos progressistas do Mundo Árabe e de outras regiões do planeta, a se afastar dos valores tradicionais da sua antiga sociedade camponesa. Isso era evidente nas novas gerações nascidas depois dos anos 1950. Se os palestinos exilados se modernizavam como forma de resistir aos males do exílio, os de Gaza e Cisjordânia, como forma de resistir a perde de grande parte do seu país primeiramente e depois para enfrentar a dureza da ocupação israelense e da ausência de direitos.

Campo de Refugiados palestinos de Sabra, em Beirute, capital do Líbano

É dentro desse processo de modernização, explicam Farsun e Zacharia, que se deve entender a emergência dos movimentos políticos e guerrilheiros palestinos dos anos da Guerra Fria como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) de Yasser Arafat, a Frente Popular de Libertação da Palestina, de Georges Habash, marxista-leninista e a Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh, também marxista e sediada em Damasco, capital da Síria ou uma organização pan-arabista surgida no Líbano, mas fundada também por muitos palestinos exilados como o Movimento Nacionalista Árabe. Somente, por volta da década de 1980, é que o islã político crescerá para influenciar a luta palestina, sendo o grupo Hamas o mais importante deles.

O trabalho de Farsun e Zacharia é de 1997 e, portanto, não aborda a época do governo de Sharom (2001-2006), os ataques israelenses de 2002, a construção do Muro na Cisjordânia, a morte de Yasser Arafat e demais acontecimentos das últimas duas décadas e seu impacto sobre a sociedade palestina-no exílio ou vivendo sob o domínio israelense, mas ele fornece informações vitais para se compreender a condição dessa sociedade fraturada e traumatizada, mas cuja luta ajudará a definir os rumos que a humanidade tomará no século XXI e com isso os caminhos próprios da modernidade.

Mapa da atual ocupação política e militar israelense nos territórios palestinos.

 

* Doutor em História pela Universidade de São Paulo e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Árabe.

Categories
Balanço estrategico China Estados Unidos Geopolítica Geopolitica Opinião Uncategorized

Conexão Geo com Cmte. Leonardo Mattos

 

Pautas de hoje:

1) As eleições europeias e mais um capítulo do BREXIT
2) A Guerra entre China e EUA prossegue
3) Narendra Modi é reeleito na India
4) Atualizando a Venezuela
5) Notícias Militares
6) O que vem por aí

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=QUum4XDVrPA[/embedyt]

Categories
Geopolítica Geopolitica Opinião Uncategorized

Conexão Geo com Cmte. Leonardo Mattos

Pautas de Hoje:
1) O encontro de Lavrov com Pompeo.
2) A tensão no Golfo Pérsico.
3) China e EUA, o verdadeiro confronto.
4) Notícias Militares
5) O que vem por aí

 

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=qmgxdiA3FOc[/embedyt]

Categories
Africa Geopolítica Geopolitica História Opinião

OPINIÃO - O Golpe no Sudão e sua Encruzilhada Geopolítica

manifestantes e militares comemoram a queda de Omar Al-Bashir em Cartum

 

por José Ailton*

País do norte da África majoritariamente árabe, o Sudão é entre este conjunto de nações um dos mais singulares por ser composto por uma população negra que foi arabizada principalmente a partir da Baixa Idade Média por conta de várias ondas de migração de populações arabófonas do vale do Nilo ou dos desertos egípcios e da Arábia que se assentaram e se mesclaram com as distintas etnias núbias e de outros povos Nilo-chaarianos que habitam as terras ao sul do Egito. Esse processo lento e gradual de miscigenação foi acontecendo por conta das crises econômicas e políticas que sofreram os reinos núbios cristãos locais (pela ordem de norte a sul: Nobatia, Makurio e Alodia) cujo resultado vai ser a lenta formação do atual povo árabe sudanês cujo componente básico da sua cultura é esse substrato núbio (ou de outros povos nilo-chaarianos) mesclado com as distintas culturas beduínas dos desertos egípcios e da Arábia, mas a cultura egípcia (muçulmana mas também cristã copta), dependendo da tribo ou da população, sendo o componente egípcio ou beduíno maior ou menor.

Mapa do Sudão

 

Outros povos não-árabes também compõe o conjunto da população sudanesa e são elementos importantes na vida politica e social nacional, embora sejam minoritários. Os mais importantes são: os núbios não-arabizados (hoje majoritariamente muçulmanos); os bejas,- povo cushita conhecido desde a Antiguidade ainda em grande parte nômade- das Montanhas do Mar Vermelho e das cidades portuárias de Port Sudan e Suakim; os fures- agricultores Nilo-chaarianos de religião muçulmana da grande província ocidental de Dharfur-um reino independente até a conquista colonial britânica entre 1899 e 1916.

Entre 1899 e 1956 o Sudão foi conquistado e colonizado pelos Britânicos com a importante ajuda dos egípcios vizinhos, sendo por isso o país nessa época chamado de Sudão Anglo-Egípcio. Essa conquista foi, como em grande parte dos casos de colonização europeia, acompanhada por uma conquista militar sangrenta cujo trauma marca a sociedade sudanesa até os dias de hoje.

No caso especial do Sudão, essa conquista foi acompanhada de um enfrentamento militar entre um movimento político-religioso puritano e nacionalista, o movimento mahdista, cujo líder foi Muhammad Ahmad, dito o Mahdi (Profeta ou líder guiado por Deus), morta na luta contra os invasores anglo-egípcios. Esse movimento combinava nacionalismo e anticolonialismo com um forte conservadorismo político e social no qual uma prática intolerante com os sunitas tradicionais, cristãos e animistas vinha acompanhado de um forte controle da vida individual e coletiva onde os castigos físicos eram vistos como exemplos para disciplinarem os fiéis e evitar sua queda no pecado. Já a intransigência religiosa levava, especialmente para com os animistas das terras mais ao sul a práticas de escravização ou submissão violenta cujas memórias marcarão a vida do Sudão no século XX e serão um dos componentes para o constante estado de guerra civil no sul desse país desde 1955 até sua separação e independência formal em 2011.

Mesquita de al-Jami´i al-Kabir em Cártum, Capital do Sudão

Como quase todos os países africanos, o Sudão irá adquirir sua independência depois da II Guerra Mundial (1956) e passará por diversos processos revolucionários, tendo o Partido Comunista estado no poder, em uma coalizão progressista (1969-1971), quando houve uma aproximação com a URSS e a estatização de amplos setores da economia.

No plano internacional o país sofreu o impacto do nacionalismo árabe e da liderança de Gamal Abdel Nasser (presidente do Egito entre 1956-1970) ao mesmo tempo em que o país se recusou a fazer parte do Egito em uma união pan-árabe e se mostrava muito desconfiado dos seus vizinhos setentrionais por causa do processo longo de dominação que sofreu destes, que vinha de 1822, e da colaboração dos egípcios com os britânicos para que estes dominassem e administrassem o território sudanês, embora também fosse o Egito um país colonizado por Londres. O Sudão sempre resistiu ao expansionismo de Israel e declarou publicamente seu apoio a causa palestina, tendo sofrido ao longo dos anos diversos ataques israelenses, embora o empenho real na defesa dos direitos nacionais palestinos nem sempre acompanhassem a retórica dos governantes.

À partir de 1971 o Sudão será marcado por um duplo processo com fortes implicações até os dias de hoje: 1) O então presidente Gaafar al-Nimeiri alinhará o país aos EUA, abrindo gradualmente sua economia para as multinacionais ocidentais, reprimindo o Partido Comunista, sindicatos e movimentos sociais. 2) Uma retomada do conservadorismo social de raiz mahdista, mas agora sobre a forte influencia da Irmandade Muçulmana, grupo integrista de origem egípcia fortemente associado e protegido, primeiro pelos britânicos, depois pelos EUA e que adquiriu forte presença na classe política, elites econômicas e na vida social. Há um partido que representava, ainda que de forma moderada, a herança mahdista e que chegou, nos anos 1960 e entre 1986-1989, a estar no governo: o Partido Nacional Ummah de Sadiq al-Mahdi, mas estes vão aos poucos se afastando e se colocando na oposição, especialmente durante o governo de Omar al-Bashir (1989-2019).

Esse processo foi marcado pela guerra constante no território sul, habitado por povos tribais em grande parte nilo-chaarianos, muitos deles majoritariamente pastores, como os dinkas, nueres e shilluks, por exemplo e que haviam sido cristianizados por missões coloniais britânicas, em sua maioria, e tiveram grande parte de sua vida social alterada por conta da dominação de Londres. Suas lideranças e populações, em sua maioria, desejam não fazer parte de um Sudão independente por conta das memórias das guerras e raízes escravistas promovidas pelos sudaneses mesmo antes do aparecimento do movimento mahdista. Por conta disso realizaram duas longas guerras pela independência (1955-1972 e 1983-2004/2011), com um período de relativa paz e autonomia entre 1972-1982. Com a descoberta de petróleo por meio dos satélites americanos, Gaafar al-Nimeiri, em 1982, eliminou arbitrariamente a autonomia do sul do Sudão e, seis meses depois, impôs a Lei Islâmica (a Sharia), na sua versão mais dura, ao habitantes locais que não eram muçulmanos (algo contrário as práticas mais comuns no islã tradicional), entregando e expropriando aldeias para petroleiras ocidentais explorarem os poços de petróleo. Isto levou a deflagração de uma nova guerra no sul cujo resultado final foi a sua independência formal em 2011.

Em 30 de junho de 1989, por meio de um golpe militar, sobe ao poder um militar fortemente vinculado a Irmandade Muçulmana, o então brigadeiro Omar Hasan al-Bashir que governou de forma ditatorial o Sudão até o dia 11 de abril desse ano. Seu governo, e o seu grupo político-econômico reunindo em torno do Partido do Congresso Nacional, será caracterizado por uma complexa, e muitas vezes contraditória geopolítica, controle das forças armadas do estado, imposição das normas islâmicas da Irmandade Muçulmana na vida nacional, repressão política, empobrecimento e ausência de fortes politicas públicas, um estado constante de guerra dentro país.

Omar al-Bashir, Presidente do Sudão de 1993 a abril de 2019.

 

De início, como tantos governos integristas muçulmanos, o Sudão terá um posição pró-americana, atitude essa favorecida pelo contexto histórico do começo do governo de al-Bashir: fim da URSS e do socialismo de tipo soviético levando a hegemonia mundial plena dos EUA, a permanente situação de fragilidade geopolítico do Sudão por conta da continua guerra em seus territórios meridionais, a hegemonia regional saudita no mundo muçulmano e a presença sempre hostil de Israel cuja ameaça era intensificada pela fragilidade geopolítica sudanesa.

Nesse quadro, como mostram Michel Chossudovsky, Andrew Korybko, Thierry Meissan, Assad Abukhalil e tantos outros analistas políticos, o Sudão se engajará ativamente em muitas guerras promovidas pelos EUA no qual o uso de forças jihadistas será um instrumento central das conquistas colônias de Walshington-Wall Street. Dessa forma, o Sudão hospedará até 1995 o antigo comandante das forças expedicionárias árabes da CIA no Afeganistão nos anos 1980 Osama Bin Laden e o seu grupo guerrilheiro Al-Qaida, considerado pelos analistas citados acima e outros como Paul Craig Roberts, Atílio Borón, James Petras, o venezuelano Walter Martínez, etc, como sendo um agente permanente dos EUA mesmo quando era acusado por este de ataques importantes como o 11 de setembro. Somente após o fracassado suposto ataque da A-Qaida ao presidente egípcio Hosni Mubarak e, devido à pressão dos governos árabes, é que Bin Laden será expulso. Dentre as guerras por procuração dos EUA que o Sudão se envolveu cabe destacar as realizadas nos anos 1990 contra a Iugoslávia no qual foram empregadas em seu território da Bósnia jihadistas, dentre eles sudaneses ou gente enviada através do país árabe.

Mas, apesar disso e dos vínculos que as elites sudanesas tiveram sempre com o ocidente, e os EUA e suas corporações em particular (o analista de origem russa André Vltchek em seu texto de 2016 Sudan, Africa, And the Mosaico of Horrors afirma que até metade dos parlamentares sudaneses teriam cidadania estadounidense), o Sudão se caracterizaria por buscar a sua própria autonomia em relação a aquele país. Dessa forma, o Sudão já na segunda metade dos anos 1990 entra em conflito com os EUA que realizaram, no dia 20 de agosto de 1998 um bombardeio com mísseis Tomahawks, a partir do Mar Vermelho da fábrica farmacêutica montada com ajuda ONU de Al-Shifa na capital Khartum, usando como pretexto o atentado feito as embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia alguns dias antes. Os EUA também impõem um embargo econômico ao Sudão que prejudica seriamente a sua população já empobrecida por conta do estado permanente de guerra em muitas províncias e do pequeno investimento social do seu governo.

Ao longo desses anos os norte-americanos passam, a apoiar de forma mais intensa os rebeldes sulistas do Exército de Libertação do Sudão desde o território de Uganda e Quênia cujos governos eram vassalos dos EUA. Israel, que provavelmente sempre teve contato com os rebeldes do sul, também intensifica suas ações. Também um movimento guerrilheiro do povo beja-O Congresso Beja, na época sobre a liderança de Amin Shingrai-se subleva contra o governo sudanês. Na década de 2000 começa a sublevação étnica dos furs do Dhafur por meio da liderança do Movimento de Libertação do Sudão e do Movimento de Igualdade e Justiça apoiados pelo Chade e Eritreia. Mais tarde esses e outros grupos menores se reúnem uma federação chamada Frente de Redenção Nacional tendo como líder figuras como o ex-governador de Dhafur Ahmed Ibrahim Shiraige. Para diversos autores (Chossudovsky, Stephen Lendman, James Petras, Darius Mahdi Nazemroaya, Thierry Meyssan, etc) os EUA o tempo todo estavam promovendo uma política de balcanização do Sudão em quatro ou cinco países menores, seguindo um projeto de destruição (a política do caos programado) de diversos estados nacionais no mundo para facilitar o saque de seus recursos naturais e melhor dominar seus territórios fragilizados econômica, social e politica-institucionalmente. O Sudão de Bashir que havia apoiado essa politica americana em outras partes do mundo era agora vítima dela e isso se devia também ao seu acercamento a China com quem passou a realizar muitas trocas comerciais e abriu as suas reservas de petróleo a exploração por parte das empresas estatais chinesas (a maioria dos campos estavam no atual Sudão do Sul e uma parte no Dharfur), além de, na década de 2010, ir aderindo ao projeto chinês de infraestruturas econômico-comerciais e estratégicas conhecido pelo nome de Nova Rota da Seda. Esse projeto era um desafio aberto à dominação americana do mundo e tornou o Sudão, por mais que ele colaborasse com os EUA em determinadas situações, um alvo por parte destes.

Essa tensão toda produziu a Guerra do Dharfur cuja resposta do governo de Omar al-Bashir foi, através do exército e das milícias Janjawid, em 2008, realizar um grande massacre e limpeza étnica dos fures (2,8 milhões de deslocados e talvez 400 mil mortos numa população estimada em 7 milhões em 2007. Essa tragédia foi usado como arma política pelo governo de George W. Bush, que mobilizou a sua rede de imprensa, ONGs, celebridades como o ator George Clooney e organizações judaicas ligadas a Israel para acusar o governo sudanês de genocídio o que levou ao juiz argentino Luís Moreno Ocampo da Corte Penal Internacional, um instrumento político dos EUA, a pedir a prisão de Omar al-Barshir por crimes de genocídio e de guerra.

No entanto, como a geopolítica do Sudão é complexa e paradoxal há coisas ainda mais inesperadas a primeira vista. Mesmo tendo estabelecido laços até militares com o Irã e permitido uma forte presença econômica e tecnológica dos chineses no país, o governo de Bashir mantinha contatos com os EUA. Segundo Meyssan, em um artigo recente sobre o golpe (A Derrubada de Bashir 16/04/2019), o Sudão não só colaborou com os EUA nas guerras da Líbia (2011) e da Síria (2011 até hoje), enviando grandes contingentes, mas teve as forças especiais Janjawid treinadas por militares do Pentágono. Além disso, sempre foi forte a influência das monarquias do Golfo dentro do Sudão, tendo a Arábia Saudita sido, na maior parte do tempo, nos últimos 30 anos, a mais forte por conta de investimentos e empréstimos feitos ao governo.

No entanto, a população ainda que tivesse uma forte consciência anti-imperialista, foi sempre muito pouco beneficiada por investimentos em infraestrutura, educação, emprego, renda e outras necessidades vitais. Além disso, ainda que praticante de um islamismo sunita muito conservador, sofria o impacto em sua vida cotidiana das normas de controle moral e de repressão forte aos delitos segundo a forma mais dura de interpretação da sharia (lei islâmica) preconizada pela Irmandade Muçulmana.

Segundo a Review World Population, citado dados extraídos do escritório de estatísticas nacionais do Sudão e da ONU, mostra que a expectativa de vida no Sudão cresceu de 55 anos na década de 1980 para 65 anos em 2018 e a taxa de alfabetização acima de 15 anos teria alcançado 75,9% da população, sendo maior entre os homens (83, 3%) do que entre as mulheres (68,6%) em 2015. No entanto, em 2019, 20% da população econômica ativa estava desempregada, sendo 16% dos homens e 32% das mulheres. A taxa de fertilidade as população é alta (4,85 crianças por mulher) e a maior parte da população é composta de jovens, sendo que 43,07% são garotos de 0-14 anos. Como exemplo importante do grande subdesenvolvimento do Sudão: apenas 34,6% da população é urbana.

Esses problemas pouco ou nada resolvidos eram agravados pelo constante estado de guerra do País (Segundo Meyssan, até 75% do orçamento nacional ia para as forças armadas), pelo embargo americano ao país e a crise econômica que atingiu o Sudão levando ao aumento das tarifas e dos alimentos, com destaque para a farinha de trigo, criando uma situação de penúria em vastos setores da população. Essa crise econômica segundo o analista americano residente na Eritreia, Thomas Mountain, foi muito agravada pela separação em 2011 do Sudão do Sul e depois a paralização nesse país da exploração das reservas de petróleo, o que privou o Sudão de receitas importantes não compensadas pelas reservas de petróleo que sobraram os as exportações de goma arábica que entra na produção dos refrigerantes de cola pelo mundo.

Em 2011, durante a chamada “Primavera Árabe”, o Sudão já havia presenciado manifestações importantes contra o governo, mas diferente do seu vizinho Egito, elas não levaram a queda de Bashir. Agora, a partir do fim de 2018, mas especialmente desde janeiro do atual ano, diversas organizações, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos começaram a realizar grandes manifestações ao longo de diversas cidades, com destaque para a capital Cartum e a vizinha Ondurman (sede do Parlamento) aonde, apesar da forte repressão policial pediam não só a renuncia de Bashir e o afastamento dos islamistas do poder (militares ou civis), mas também soluções para os muitos problemas do país que iam de liberdades individuais, passando por serviços e infraestrutura social, politica anti-inflacionária e contra o desemprego até negociações de paz nas províncias em guerra.

Em 3 de janeiro, um manifesto público: A Carta da Liberdade e Mudança assinadas por partidos como o PC Sudanês, o Partido Nacional Umah, o Partido Republicano, sindicatos e associações de classes como grupos feministas, os estudantes da Universidade de Cartum, associações de advogados, médicos, engenheiros e professores secundaristas e universitários- a Associação de Profissionais do Sudão- e movimentos sociais (de agricultores, de mantenedores de tweeteres, dos núbios, etc) resumiram a pauta de reivindicações, pediam a formação de um governo de nacional de transição que preparasse no futuro uma assembleia constituinte e eleições livres. Essa carta e suas reivindicações foram à base para as ações de rua pedindo a renuncia de Bashir. O grupo político reunindo toda a oposição se chama Frente Nacional para a Mudança.

Nesse quadro também devemos lembrar três motivos que influenciaram na deflagração do golpe: 1) a aproximação com a Rússia, o que levou a acordos econômicos e de assistência militar, além do Sudão auxiliar a Rússia em sua ação política na vizinha, conturbada e sob intervenção ocidental República Centro Africana. Mesmo o Sudão participando ativamente na intervenção militar patrocinada pelos EUA da Arábia Saudita no Iêmen contra o movimento nacionalista dos Houthis e seus aliados, essa aproximação à Rússia-com quem o Sudão estaria negociando uma base no Mar Vermelho-desagradou o EUA e seus aliados no Mundo Árabe. 2) Apesar dessa aproximação a Moscou, segundo Meyssan, o governo Bashir teria tentado administrar a crise econômica recorrendo a uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e este aplicou sua tradicional política de austeridade contribuindo para o aumento dos protestos por todo o país. 3) A aproximação da Turquia, que se tornou uma rival no Oriente Médio da Arábia Saudita chegando a permitir a abertura de uma base da marinha turca na cidade portuária de Suakin no Mar Vermelho, algo que desagradou fortemente os sauditas ao projetar em seu mar ocidental o poder marítimo do governo de Ankara.

Assim, em meio a fortes manifestações, as forças armadas se antecipam e depõem Omar Al-Bashir em 11 de abril e assumem um governo de Transição (Conselho Militar de Transição), no primeiro dia sob o general Ahmed Awad ibn Awf e depois com o ex-comandante das tropas sudanesas no Iêmen, Abdel Fattah al-Burhan. Bashir teria sido preso e pouca informação sobre ele foi divulgada desde então.

A intervenção do exército não agradou muito os grupos de oposição da Carta de Liberdade e Mudança, embora a queda de Bashir tenha agradado muitos na sociedade sudanesa. Manifestações ocorreram nas ruas pedindo que os militares respeitassem a população e estabelecessem um governo misto de transição com civis e militares, mas predominando os primeiros, formando assim um Conselho de Civil de Transição. Reuniões começaram a ocorrer entre os militares e os representantes do grupo Liberdade e Mudança. Estes pediam até representantes dos grupos feministas e de jovens no governo interino, além de prisão e julgamento dos militares e oficiais de polícia responsáveis pela repressão as manifestações. O PC Sudanês também vem criticando os militares e, em 25 de abril, os acusou publicamente de não quererem sair do poder. Essa pressão seria também fortalecida pela ação da União Africana e da União Europeia para transferir o poder aos civis. A União Africana chegou até ameaçar suspender o Sudão em abril por conta da repressão as manifestações. Dia 30 exigiu a transferência para os civis dentro de dois meses.

Como, explicar satisfatoriamente o golpe, sem cair na ingenuidade de que a sociedade civil sudanesa, por si só, se levantou e derrubou o seu ditador no poder desde 1989, lembrando sempre do complicado cenário geopolítico no qual o Sudão está inserido?

Não temos respostas definitivas ainda, pois provavelmente muito do jogo político decisivo está sendo realizado nos bastidores. Pode-se, pelas informações já disponíveis, que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aprovaram a queda de Bashir, pois concederam ao Sudão um empréstimo de US$ 3 Bilhões. Este empréstimo e o fato de al-Burhan ser o comando das tropas sudanesas no Iêmen indicariam que o país africano caiu sob a influência saudita. A prisão do porta-voz da Frente Nacional para a Mudança, Said al-Jizuli, por algumas horas dia 24, após criticar em público a ingerência dos Emirados Árabes Unidos seria outro indicio de que o atual governo esta sob a influencia regional de Riad e Abu Dhabi.

Como as revoluções coloridas pelo mundo afora criaram uma forte desconfiança em relação às manifestações publicas, aparentemente não-violentas e com slogans democráticos, não sabemos o grau de sinceridade das lideranças envolvida na Carta de Liberdade e Mudança. Condições e legitimidade para as manifestações ocorrerem existiam e a imensa maioria saiu às ruas de forma sincera. Também nada se sabe no momento das ações de bastidores que acabaram conduzindo a derrubada de Bashir pelos militares. Como costuma ocorrer em eventos dessa natureza, ela deve ter sido coordenada ou acompanhada pelos EUA, Grã-Bretanha, ONU, Liga Árabe, União Africana, Arábia Saudita e os russos e chineses também a acompanharam e podem mesmo ter começado a negociar secretamente com os militares sudaneses a continuidade ou não dos acordos feitos sob a administração de Bashir, assim como o mesmo pode estar fazendo a Turquia.

O certo, nesse primeiro momento, é que muito pouco mudará no Sudão em termos sociais e econômicos e o país continuará a sofrer uma pesadíssima pressão geopolítica mundial, especialmente do poder norte-americano e de seus sócios locais, ainda muito presente no continente africano.

 

*José Ailton Dutra Júnior é doutor em História pela Univerisdade de São Paulo (USP) e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Islâmico.

Categories
Conflitos Conflitos e Historia Militar Destaques Estado Islãmico Estados Unidos Geopolítica Geopolitica História Iraque Síria Terrorismo

Coalizão liderada pelos EUA matou mais de 1.600 civis na Síria, acusa Anistia Internacional

Civis caminham emfrente a prédios severamente destruídos em Raqqa, na Síria Foto: Aboud Hamam / Reuters 14-05-18

Civis caminham emfrente a prédios severamente destruídos em Raqqa, na Síria (Foto: Aboud Hamam / Reuters 14-05-18)

Campanha para tomar a cidade de Raqqa do Estado Islâmico em 2017 deixou dez vezes mais vítimas civis do que apontam dados oficiais, segundo estudo

 

BEIRUTE – A coalizão liderada pelos Estados Unidos matou mais de 1.600 civis em Raqqa ao longo de vários meses em 2017, durante sua campanha para expulsar o Estado Islâmico da cidade, acusa um relatório lançado nesta quinta-feira pela Anistia Internacional e pelo Airwars, ONG de monitoramento de guerras.

O número indicado é dez vezes superior aos dados oficiais sobre vítimas civis. O documento diz que ataques aéreos e de artilharia americanos, franceses e britânicos mataram e feriram milhares de inocentes entre junho e outubro de 2017 na antiga capital do Estado Islâmico . Muitos dos casos, diz o texto, “constituem violações à lei humanitária internacional e exigem investigação adicional”.

As organizações passaram 18 meses pesquisando as mortes de civis, incluindo dois meses fazendo pesquisa de campo em Raqqa, disseram. “Nossa descoberta conclusiva depois de tudo isso é que a ofensiva militar da coalizão liderada pelos EUA (EUA, Grã-Bretanha e França) provocou diretamente mais de 1.600 mortes de civis em Raqqa”.

O relatório pede que os membros da coalizão criem um fundo para compensar as vítimas e suas famílias

A coalizão respondeu que tomou “todas as medidas razoáveis para minimizar as baixas civis” e que ainda existem alegações abertas que estão sendo investigadas. “Qualquer perda involuntária de vida durante a derrota do Daesh é trágica”, disse Scott Rawlinson, um porta-voz da coalizão, em um comunicado enviado por email mais tarde na quinta-feira, usando um acrônimo em árabe para Estado Islâmico.

“No entanto, estas perdas devem ser comparadas com o risco de permitir que o Daesh continuasse as suas atividades terroristas, causando dor e sofrimento a qualquer pessoa que quisesse”, acrescentou.

O Estado Islâmico dominou Raqqa no início de 2014, época em que avançou rapidamente na Síria e no Iraque e constituiu um autoproclamado califado. Caracterizado pelas execuções sumárias de opositores, o grupo cometeu uma matança em massa e escravizou minorias, em um processo que a ONU descreveu como um genocídio.

O grupo, que controlava um terço da Síria e do Iraque em 2014, já foi expulso de todo o território que controlou, a partir de campanhas militares empreendidas por um conjunto de forças, incluindo os governos da Síria e do Iraque, dos Estados Unidos, de seus aliados europeus e de seus rivais Rússia e Irã. Apesar de não controlar mais o território, o grupo ainda ameaça lançar ataques terroristas em todo o mundo.

As Forças Democráticas Sírias lideradas pelos curdos (SDF) e apoiadas por Washington  capturaram Raqqa em outubro de 2017, após uma ofensiva de cinco meses apoiada por ataques aéreos liderados pelos EUA e por forças especiais.

A Anistia disse no ano passado que havia evidências de que ataques aéreos e de artilharia da coalizão eem Raqqa violavam a lei humanitária internacional e punham em perigo as vidas de civis, mas até agora não tinha dado uma estimativa do número de mortos durante a batalha.

Durante e depois da campanha, repórteres em Raqqa noticiaram que o bombardeio causou destruição maciça na cidade, devastando bairros inteiros.

Fonte: O Globo e Reuters

Categories
Balanço estrategico Conflitos Conflitos e Historia Militar Geopolítica Geopolitica História Terrorismo

ONU: "Forças dos EUA e do governo afegão mataram mais civis do que os insurgentes"

Enterro de civis mortos num ataque aéreo conduzido por aeronaves remotamente pilotadas da CIA em Khogyani (Jim Huylebroek / New York Times)

Pela primeira vez, os civis afegãos são mortos em maior número pelas forças governamentais e pela coalizão liderada pelos EUA do que o Taleban e outros grupos insurgentes, informou um relatório da ONU divulgado nesta quarta-feira.

Esta triste cifra ocorre no momento em que os EUA intensifica sua campanha aérea no Afeganistão enquanto realiza conversações de paz com o Taleban, que agora controla grandes partes do país pela primeira vez desde que foi retirado do poder em 2001.

Nessa imagem, fotografada em 23 de Março, um homem afegão descobre os corpos de crianças em cima de um caminhão após serem mortas num ataque aéreo na província de Kunduz. Pelo menos 13 civis foram mortos, a maior parte crianças, num ataque aéreo por “forças internacionais” na cidade setentrional de Kunduz na semana passada, segundo informou a ONU, no dia 25 de março. Os EUA é o único membro da coalizão internacional no Afeganistão que providencia apoio aéreo no conflito. (Bashir Khan Safi / AFP)

Durante os três primeiros meses de 2019, as forças da ISAF (Força Internacional de Assistência para Segurança), uma força-tarefa da OTAN e outros parceiros, liderada pelos EUA que conduz as operações no Afeganistão, além do próprio governo afegão, foram responsáveis pela morte de 305 civis, enquanto os insurgentes mataram 227 pessoas, de acordo com o relatório da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA).

A maior parte das mortes resultam de ataques aéreos ou operações de busca em solo, primariamente conduzidas pelas forças afegãs treinadas e equipadas pelos EUA, o que a UNAMA qualifica como “ações realizadas com impunidade”.

“A UNAMA conclama que as forças de segurança afegãs e a coalizão internacional para conduzir investigações em alegações de danos e mortes a civis, que publiquem os resultados de seus dados coletados, e providenciem compensações apropriadas as vítimas,” conclui o relatório.

A UNAMA iniciou a copilação de dados de baixas civis em 2009 a partir da deterioração das condições de segurança no Afeganistão.

É a primeira vez desde que a coleta de dados começou que mostra que as forças pró-governamentais mataram mais do que as forças insurgentes.

Em 2017, As forças dos EUA iniciaram uma aceleração de seu tempo operacional após o presidente Donald Trump flexibilizou restrições e facilitou as condições para bombardeio a posições do Taleban.


Jovem fazendeiro afegão morto em 15 de janeiro de 2010 por um grupo de soldados do Exército norte-americano autointitulado “The Kill Team”.

Enquanto outras nações contribuem com apoio logístico e técnico, os EUA conduzem a maior parte dos ataques aéreos. E em menor escala, a pequena Força Aérea afegã está voando mais missões.

Os EUA enviaram os grandes bombardeiros estratégicos Boeing B-52 em traslados sobre o país, beneficiados pelo aumento da infraestrutura aérea para as operações contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, onde foram derrotados.

Entretanto, o relatório da UNAMA relatou uma diminuição das baixas civis em 23% em comparação com o primeiro trimestre de 2018.

O decréscimo resultou de uma diminuição dos ataques suicidas, mas a UNAMA não sabe se essa mudança ocorreu após o rigoroso inverno ou a diminuição de ataques do Taleban a civis durante as conversações de paz.

Ainda assim, o chefe da UNAMA, Tadamichi Yamamoto, que também serve como representante especial da Secretaria Geral da ONU no Afeganistão, disse que a morte de civis é um “número chocante”.

“Todas as partes envolvidas devem zelar mais pela segurança dos civis,” Yamamoto disse em declaração.

Ano passado foi o ano mais mortal para a população afegã, com 3.804 mortos, de acordo com a UNAMA

Em 17 anos de ocupação, foram 62 mil mortos nas Forças de Segurança afegãs, 3,5 mil mortos entre as forças da coalizão (sendo 2,4 mil mortos entre soldados dos EUA) contra 65 mil mortos entre os insurgentes do Taleban, além de pequenas células da Al-Qaeda e afiliados do Estado Islâmico. O total de civis mortos totaliza 38 mil mortos até o presente momento. E não há perspectivas concretas de estabilização política do país.

No vídeo abaixo mostra as dificuldades enfrentadas pelos EUA, o que resultou no fracasso dos esforços de reconstrução e estabilidade do país, que culminou na rápida expansão do Taleban nos últimos anos

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=XKVDXbIpW9Q[/embedyt]

Fonte: AFP e New York Times

Categories
Artigos Exclusivos do Plano Brasil Defesa Geopolitica Sistemas de Armas Tecnologia

A Rússia está ofertando à Índia um projeto de uma aeronave de transporte leve baseada no IL-112V

E.M.Pinto

A Rússia está ofertando à Índia um projeto de uma aeronave de transporte leve baseada no IL-112V e segundo informou   Tamara Kakushadze, diretora de marketing do Il PJSC, os parceiros Indianos manifestaram profundo interesse.

Segundo Kakushadz, o Ministério da Defesa indiano tem necessidade de aviões de transporte leve e a Ilyushin estaria interessada em não apenas na venda  da aeronave, mas numa parceria pra produção da mesma em solo indiano.

Em uma comitiva de imprensa ela ainda informou que uma versão customizada poderia vir ser produzida caso  fosse o interesse dos Indianos.

A índia necessita de cerca de 60 aeronaves militares e uma versão civil poderia alargar e viabilizar uma linha de montagem naquele país estendendo a produção para mais de 100 aviões.

O IL-112V  é o primeiro avião de transporte militar desenvolvido na Rússia a partir do zero surgido no período pós-soviético. O trabalho na criação da  aeronave de transporte militar leve foi iniciado de fato a partir de 2014. A aeronave deve substituir a frota antiga de An-26, cuja vida útil prevista está expirando. Até o momento, a primeira aeronave Il-112V (0101) foi transferida para a estação de testes de voo da PAO “VASO” onde realiza os testes de preliminares no protótipo.

 

Categories
Defesa brasileira. Geopolítica Geopolitica

Plano Brasil/Relações Militares Brasil e EUA/Análise: “EB, integrando os Interesses Estratégicos na condição de Vice Comandante de Interoperabilidade do Comando Sul das FFAA dos EUA, que abrange as Américas do Sul e Central e Caribe, fará parte pela primeira vez do USSOUTHCOM”  

NOTA DO PLANO BRASIL, por Gérsio Mutti: Plano Brasil/Relações Militares Brasil e EUA/Análise: “EB, integrando os Interesses Estratégicos na condição de Vice Comandante de Interoperabilidade do Comando Sul das FFAA dos EUA, que abrange as Américas do Sul e Central e Caribe, fará parte pela primeira vez do USSOUTHCOM”.

  “O anúncio foi feito no dia 9 de fevereiro de 2019 pelo Almirante Craig S. Faller, Chefe do Comando Sul, durante depoimento em uma comissão do Senado norte-americano.

O Comando do Sul (SOUTHCOM) integra tropas do Exército, da Força Aérea, da Marinha de Guerra e da Guarda Costeira dos Estados Unidos e tem como tarefa defender a “Política de Segurança dos EUA na América Central, América do Sul e o Caribe”.

No documento que apresentou ao Senado, o Almirante destaca Colômbia, Brasil e Chile como parceiros para uma “Estratégia de Segurança Regional e Global”. E cita nominalmente Rússia, China, Irã, Venezuela, Cuba e Nicarágua como ameaças aos interesses dos Estados Unidos na região.

O documento afirma que as Forças Armadas brasileiras, integrando-se ao Special Purpose Marine Air-Ground Task Force (SPMAGTF), se unirá ainda este ano a uma rede logística para apoiar possíveis ações militares dos EUA na região, além de liderar o Exercício Naval Multinacional UNITAS AMPHIB 2019, de modo que, permitirá o estabelecimento de uma Força-Tarefa Multinacional para apoiar a resposta humanitária, uma capacidade que o Brasil não desenvolve desde o terremoto no Haiti em 2010″.  Fonte: Sul 21.”

 

General brasileiro fará parte de comando militar americano pela primeira vez

Em negociação que vinha do governo Temer mas que se encaixa com diretriz de Bolsonaro, oficial irá substituir chileno em função de cooperação Folha de São Paulo (FSP), Mundo, Página A15, Quinta-Feira, 14/fevereiro/2019 

 Por Igor Gielow

BRASÍLIA

O Brasil terá, pela primeira vez, um general integrado ao Comando Sul, a unidade que coordena os interesses estratégicos e militares dos Estados Unidos na América do Sul, na América Central e no Caribe.

O Exército designou o general-de-brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior, hoje chefiando a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, de Ponta Grossa (PR), para o cargo.

A negociação vem desde o começo do ano passado. Ela foi acelerada agora porque o atual titular do cargo que o general irá ocupar, um chileno, decidiu deixar o posto antes do prazo previsto, em novembro.

Faria Júnior será subcomandante de interoperabilidade do Comando Sul, responsável por ajudar a comunicação entre forças na região. Ele deverá ir em março para Doral, na Flórida, onde fica sediado o órgão.

A indicação de um brasileiro para a função inédita foi revelada nesta quarta (13) pelo jornal Valor Econômico, que citou um discurso ao Senado americano do chefe do Comando Sul, almirante Craig Faller, sobre o caso.

Faller esteve no Brasil nesta semana para falar sobre cooperação militar e a crise na Venezuela, tendo se encontrado com o chanceler Ernesto Araújo e com oficiais no Ministério da Defesa.

O fato de a negociação já estar avançada desde o governo passado desautoriza a especulação de que a indicação faz parte da determinação do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de forjar uma aliança ampla com a gestão de Donald Trump nos EUA.

Na prática, contudo, ela cai como uma luva para essa intenção. O inegável simbolismo é grande e será explorado por adversários e apoiadores do governo, já que até aqui o Brasil só teve cargos de comando em missões multilaterais sob o guarda-chuva da ONU, com exceções históricas como a intervenção militar liderada pelos americanos na República Dominicana, em 1965.

Hoje, o Brasil tem cooperação com dezenas de países, geralmente com o envio e recebimento de oficiais para funções de instrução em academias militares, além da participação em missões das Nações Unidas como a que patrulha as águas do Líbano, que é comandada por brasileiros.

Não se trata, contudo, de algum prelúdio para o uso conjunto da força contra a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela.

A área militar brasileira é contrária a uma ação no vizinho, defendendo que ela seria catastrófica para venezuelanos e também para o Brasil, que receberia um fluxo ainda maior de refugiados pela fronteira em Roraima.

O Comando Sul abriga cerca de 1.200 militares e civis, sendo um dos dez existentes no mundo. Seis têm abrangência geográfica, cobrindo todo o globo na defesa de instalações e interesses americanos.

Outros quatro têm funções operacionais específicas e atendem a todos os demais, como os comandos de Transporte ou de Cibernética. Apenas os EUA têm esse tipo de capacidade de projeção de força por todo mundo hoje.

A relação entre forças americanas e de países latinos é longa e conturbada. No começo do século 20, para responder a uma crise justamente na Venezuela, o então presidente Theodore Roosevelt definiu que os EUA tinham direito de tratar a América Latina como sua zona de influência —eufemismo para quintal.

Ao longo dos anos, Washington apoiou golpes militares que lhe favoreciam politicamente, como o de 1964 no Brasil, e interveio diretamente em algumas ocasiões, como na República Dominicana ou em Granada, em 1983, em ambos os casos visando barrar governos esquerdistas alinhados à União Soviética.

O século 21 trouxe o Brasil para as missões de paz da ONU em função de destaque, como no Haiti, Congo e Líbano. A cooperação com outros países acentuou-se, mas ainda há temas tabus para os militares brasileiros. Quando o presidente Bolsonaro e o chanceler Araújo sugeriram que os americanos poderiam construir uma base no Brasil, para surpresa dos próprios diplomatas em Washington, a reação da cúpula da defesa foi rápida, vedando a iniciativa. Na região, os EUA mantém presença na Colômbia, onde atuaram por anos em colaboração com as forças locais contra a guerrilha do narcotráfico.

Outras desavenças acerca da condução das negociações sobre Venezuela levaram o chanceler a ser submetido a uma espécie de intervenção branca por parte da ala militar do governo, receosa de decisões contrárias a seus interesses em campos sensíveis. Agora, tanto Itamaraty quanto Defesa consideram as relações azeitadas.

Fonte: Folha de São Paulo (FSP)  

Categories
Artigos Exclusivos do Plano Brasil Brasil Conflitos Geopolítica Geopolitica

Bolsonaro e o problema da Venezuela

De Leon Petta para o Plano Brasil

            Cada vez mais a situação na Venezuela puxa o Brasil para alguma posição desconfortável. É muito comum após declarações agressivas do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, contra o recém-empossado presidente Jair Bolsonaro ver vários comentários nas redes sociais exaltando a capacidade militar brasileira e chamando para o “pau” os venezuelanos ou ainda diminuindo e subestimando a capacidade venezuelana.

Porém, a situação é bem mais complicada do que apenas a comparação de força militar entre os dois países, Brasil e Venezuela.

            Em 2017, durante a conferência anual da AAG (American Association of Geographers) em Boston, apresentei uma simulação de uma possível crise geopolítica na fronteira brasileira, apontando dois problemas principais. Primeiro, o risco de uma enxurrada de refugiados venezuelanos em Roraima, que pioraria em muito a situação já que o estado não tem grande capacidade de infraestrutura (algo que acabou se concretizando); Em segundo, em caso de guerra civil na Venezuela, alguma facção rebelde poderia vir a atravessar a fronteira arrastando consigo ações militares do governo venezuelano em território brasileiro.

            Neste segundo caso, a questão seria como as forças armadas brasileiras responderiam a isso. Uma vez que a capacidade aérea e antiaérea das forças armadas venezuelanas poderiam eventualmente neutralizar a capacidade logística área do Brasil na região, podendo facilmente levar a um confronto na fronteira, embora não a uma guerra total. Neste caso isso ainda não aconteceu.

            Na plateia um coronel dos Fuzileiros Navais Americanos assistia bastante interessado sobre como isso poderia respingar nos interesses norte-americanos na região, principalmente no Caribe e na Colômbia. Por outro, lado um professor de uma universidade federal de Minas Gerais que também estava presente, logo descartou que aquilo era bobagem, afinal de contas “a Venezuela está muito bem e não existe risco nem de crise de refugiados nem de guerra civil. Não entendo por que você iria simular uma coisa tão fantasiosa como essa”.

 Risco de guerra?

            Para quem quer guerra (mas provavelmente não está disposto a lutar nela), tenho más notícias. Como disse o General Augusto Heleno em Outubro de 2018: “Para declarar guerra não é fácil assim, não. Se para uma missão de paz é complicado para caramba, imagina para declarar guerra”.

            A complexidade de uma guerra é ABSURDA. No Brasil não temos absolutamente nenhuma experiência ou capacidade técnica para uma Guerra Total. Aliás, são poucos os países que possuem essa capacidade de forma unilateral.

            As guerras não são como eram até a Primeira Guerra Mundial. Colocar um capacete, uniforme e fuzil no soldado e manda-lo para o conflito desejando boa sorte não é o suficiente. Além dos custos exorbitantes que cada combate vale nos dias de hoje (lembre-se, ainda não nos recuperamos da crise) ainda há questões como logística, inteligência, apoio político (interno e externo) e etc.

            É um erro muito comum as pessoas pegarem os “números crus” das forças armadas de diferentes países e ver quem é o mais forte. Porém, toda guerra supera apenas a questão militar. Aliás, cada vez menos o fator “soldados” é importante para a guerra, cada vez mais toda uma estrutura anterior ao combatente se faz tão importante quanto o próprio combatente em si. Sem entrar em detalhes para o texto não ficar longo, o Brasil não possui capacidade de invadir e ocupar a Venezuela e a Venezuela obviamente também não o tem contra o Brasil.

Problemas indiretos

            O grande problema então não é um conflito aberto que se algo acontecesse estaria limitado a embates fronteiriços, mas sim os efeitos colaterais do regime venezuelano sobre a região norte e nordeste do Brasil.

            Em 2011, o então presidente Hugo Chávez que de bobo não tinha nada e aprendia lições. Assistiu a intervenção da OTAN que após meses de bombardeios sobre a Líbia acabaram por ruir com o governo líbio e terminaram com Gaddafi sendo linchado nas ruas. Preocupado de que estaria na fila para ser deposto no futuro, prontamente tomou três medidas preventivas e que se mostraram frutíferas ao seu sucesso Nicolás Maduro:

            A primeira, a repatriação das 160 toneladas das reservas de Ouro da Venezuela bem como outros ativos. Blindando o país de eventuais confiscos por governos estrangeiros em caso de sanções ou intervenção externa.

            O segundo, a compra em larga escala de diversos sistemas antiaéreos para causar danos insustentáveis a qualquer força aérea que eventualmente tentasse se meter na Venezuela. Dentre os equipamentos militares comprados, os sistemas antiaéreos eram a prioridade.

            E finalmente, a compra de milhares de fuzis Kalashnikov (AK-47 e outros) para serem distribuídos por entre as milícias bolivarianas. Compra que Nicolás Maduro iria repetir.

            Este terceiro é o grande soco no estomago do brasileiro entusiasta que subestima o tamanho do problema venezuelano e de Maduro. Pois essa compra dirigida as milícias bolivarianas geram como efeito preocupante não só o aspecto de que as próprias forças armadas venezuelanas fiquem limitadas caso resolvam se rebelar ou tentem um Golpe de Estado, como ainda para a preocupação do Brasil, um fornecimento quase ilimitado de armamento pesado para o Crime Organizado na região norte e também no nordeste.

            Ou seja, se por um lado tanto o Brasil como a Venezuela não conseguiriam invadir um ao outro. Por outro, a Venezuela consegue projetar sua capacidade de instabilidade de forma indireta, não importa se intencional ou não, sobre uma região que já vinha sofrendo com altos índices de violência (apesar de ser longe, os problemas recentes no estado do Ceará não são uma coincidência).

            Abastecidos por armamento pesado venezuelano, com refúgio e passe livre garantido em terras venezuelanas (uma vez que as autoridades venezuelanas fazem vista grossa para a presença do Crime Organizado e do narcotráfico) estas facções possuem o potencial de tumultuar toda a região desgastando pesadamente o novo governo. Deixando de ser um “mero” problema de Segurança Pública para evoluir a uma crise militar dentro do próprio território brasileiro.

 

Sobre o Autor:

De Leon é Autor associado ao Plano Brasil e Professor das Faculdades Integradas Rio Branco. Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Com estágio sanduíche na Virginia Commonwealth University (Estados Unidos) e University of Hong Kong (China). Tem experiência na área de Geopolítica e Crime Organizado. 

Categories
Defesa Geopolitica Meios Navais Navios Rússia Sistemas de Armas Sistemas Navais Tecnologia Traduções-Plano Brasil

Marinha russa pretende lançar mais de 30 drones submarinos Poseidon

De acordo com a fonte da indústria de defesa, espera-se que dois submarinos portadores do Poseidon entrem em serviço com a Frota do Norte e os outros dois  na Frota do Pacífico.

O veículo submarino não tripulado, movido a energia nuclear e armado com motor nuclear Poseidon

O veículo submarino não tripulado, movido a energia nuclear e armado com motor nuclear Poseidon

© Gabinete de Imprensa e Informação do Ministério da Defesa da Federação Russa / TASS

Tradução e adaptação- E.M.Pinto

MOSCOU, 12 de janeiro / TASS /. A Marinha russa planeja colocar no mar mais de 30 drones submarinos com capacidade nuclear estratégica Poseidon em combate, disse uma fonte da indústria de defesa  à TASS neste sábado.

“Dois submarinos transportadores do Poseidon devem entrar em serviço na Frota do Norte e os outros dois se juntarão à Frota do Pacífico. Cada um dos submarinos terá a capacidade de lançar um máximo de oito drones e, portanto, o número total de Poseidons em combate pode chegar a 32 veículos “, disse a fonte.

O submarino de propulsão nuclear Khabarovsk, atualmente em construção no Estaleiro Sevmash, se tornará um dos transportadores orgânicos do drone submarino Poseidon. Além disso, os submarinos para propósitos especiais e os cruzadores submarinos nucleares do Projeto 949A, operados na Marinha Russa, podem ser usados ​​como transportadores

“após a atualização apropriada”, observou a fonte.

Em seu discurso de Estado às duas casas do Parlamento da Rússia em 1º de março de 2018, o presidente russo Vladimir Putin mencionou pela primeira vez os esforços do país em desenvolver um veículo submarino nuclear não tripulado capaz de transportar ogivas nucleares e convencionais. Segundo alegou o veículo é capaz de destruir infraestruturas inimigas, grupos de porta-aviões e outros alvos.

Os drones Poseidon, junto com seus transportadores – submarinos movidos a energia nuclear – fazem parte do chamado sistema multiuso oceânico. O drone recebeu seu nome após os resultados da votação aberta no site do Ministério da Defesa da Rússia.

Uma fonte da indústria de defesa disse à TASS que o drone Poseidon que está sendo desenvolvido na Rússia seria capaz de transportar uma ogiva nuclear com capacidade de até 2 megaton para destruir as bases navais inimigas.

Fonte: TASS

Categories
Conflitos Geopolitica Terrorismo

Gabão: Militares tentam golpe de Estado

Militares invadiram a rádio pública e anunciaram um golpe de Estado para salvar o Gabão “do caos”. O Presidente Ali Bongo está fora do país. Mas Governo gabonês garante que já está tudo “sob controlo”.

Militares gaboneses anunciaram, esta segunda-feira (07.01) de madrugada, terem assumido o controlo do Governo para “restaurar a democracia” no país. Ouviram-se tiros junto à sede da televisão estatal e, na rádio, um grupo de oficiais apelou à criação de um “conselho nacional da restauração”.

“Chegou o tão esperado dia em que o Exército decidiu colocar-se do lado da população para salvar o Gabão do caos”, afirmaram os militares. “Se estão a comer, parem. Se estão a beber, parem. Se estão a dormir, acordem. Acordem os vizinhos… Ergam-se e tomem o controlo das ruas”. Os golpistas pediram ainda à população para ocupar edifícios públicos e os aeroportos do país.

A internet foi cortada. Nas imediações da rádio estatal, soldados leais ao Governo dispararam gás lacrimogéneo para dispersar 300 pessoas que tinham ido para as ruas, em apoio aos golpistas, contou uma testemunha à agência de notícias Reuters.

Gabun - Präsident Ali Bongo Ondimba - 2018 Illegal Wildlife Trade ConferencePresidente do Gabão, Ali Bongo

A meio da manhã, o porta-voz do Governo, Guy-Bertrand Mapangou, garantiu que “a situação está sob controlo”.

Segundo Mapangou, dos cinco militares que assumiram o controlo da televisão e rádio estatais, “quatro foram detidos e um está em fuga.” À DW, o porta-voz disse que o militar que fugiu é o líder dos golpistas, o tenente Kelly Ondo Obiang.

Militares insatisfeitos com Presidente

Os militares golpistas disseram estar insatisfeitos com a governação do Presidente Ali Bongo, de 59 anos. Segundo o líder Kelly Ondo Obiang, o discurso de Ano Novo de Bondo, emitido a 31 de dezembro, “aumentou as dúvidas sobre a capacidade do Presidente de continuar a desempenhar as suas responsabilidades”.

Ali Bongo, no poder desde 2009, ficou doente em outubro passado. Está atualmente em recuperação, em Marrocos. A sua família governa o Gabão há cinco décadas.

O porta-voz do Governo, Guy-Bertrand Mapangou, disse que a segurança na capital foi reforçada, e que esse reforço se deverá manter nos próximos dias.

Fonte: DW