Defesa & Geopolítica

OPINIÃO – O Golpe no Sudão e sua Encruzilhada Geopolítica

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manifestantes e militares comemoram a queda de Omar Al-Bashir em Cartum

 

por José Ailton*

País do norte da África majoritariamente árabe, o Sudão é entre este conjunto de nações um dos mais singulares por ser composto por uma população negra que foi arabizada principalmente a partir da Baixa Idade Média por conta de várias ondas de migração de populações arabófonas do vale do Nilo ou dos desertos egípcios e da Arábia que se assentaram e se mesclaram com as distintas etnias núbias e de outros povos Nilo-chaarianos que habitam as terras ao sul do Egito. Esse processo lento e gradual de miscigenação foi acontecendo por conta das crises econômicas e políticas que sofreram os reinos núbios cristãos locais (pela ordem de norte a sul: Nobatia, Makurio e Alodia) cujo resultado vai ser a lenta formação do atual povo árabe sudanês cujo componente básico da sua cultura é esse substrato núbio (ou de outros povos nilo-chaarianos) mesclado com as distintas culturas beduínas dos desertos egípcios e da Arábia, mas a cultura egípcia (muçulmana mas também cristã copta), dependendo da tribo ou da população, sendo o componente egípcio ou beduíno maior ou menor.

Mapa do Sudão

 

Outros povos não-árabes também compõe o conjunto da população sudanesa e são elementos importantes na vida politica e social nacional, embora sejam minoritários. Os mais importantes são: os núbios não-arabizados (hoje majoritariamente muçulmanos); os bejas,- povo cushita conhecido desde a Antiguidade ainda em grande parte nômade- das Montanhas do Mar Vermelho e das cidades portuárias de Port Sudan e Suakim; os fures- agricultores Nilo-chaarianos de religião muçulmana da grande província ocidental de Dharfur-um reino independente até a conquista colonial britânica entre 1899 e 1916.

Entre 1899 e 1956 o Sudão foi conquistado e colonizado pelos Britânicos com a importante ajuda dos egípcios vizinhos, sendo por isso o país nessa época chamado de Sudão Anglo-Egípcio. Essa conquista foi, como em grande parte dos casos de colonização europeia, acompanhada por uma conquista militar sangrenta cujo trauma marca a sociedade sudanesa até os dias de hoje.

No caso especial do Sudão, essa conquista foi acompanhada de um enfrentamento militar entre um movimento político-religioso puritano e nacionalista, o movimento mahdista, cujo líder foi Muhammad Ahmad, dito o Mahdi (Profeta ou líder guiado por Deus), morta na luta contra os invasores anglo-egípcios. Esse movimento combinava nacionalismo e anticolonialismo com um forte conservadorismo político e social no qual uma prática intolerante com os sunitas tradicionais, cristãos e animistas vinha acompanhado de um forte controle da vida individual e coletiva onde os castigos físicos eram vistos como exemplos para disciplinarem os fiéis e evitar sua queda no pecado. Já a intransigência religiosa levava, especialmente para com os animistas das terras mais ao sul a práticas de escravização ou submissão violenta cujas memórias marcarão a vida do Sudão no século XX e serão um dos componentes para o constante estado de guerra civil no sul desse país desde 1955 até sua separação e independência formal em 2011.

Mesquita de al-Jami´i al-Kabir em Cártum, Capital do Sudão

Como quase todos os países africanos, o Sudão irá adquirir sua independência depois da II Guerra Mundial (1956) e passará por diversos processos revolucionários, tendo o Partido Comunista estado no poder, em uma coalizão progressista (1969-1971), quando houve uma aproximação com a URSS e a estatização de amplos setores da economia.

No plano internacional o país sofreu o impacto do nacionalismo árabe e da liderança de Gamal Abdel Nasser (presidente do Egito entre 1956-1970) ao mesmo tempo em que o país se recusou a fazer parte do Egito em uma união pan-árabe e se mostrava muito desconfiado dos seus vizinhos setentrionais por causa do processo longo de dominação que sofreu destes, que vinha de 1822, e da colaboração dos egípcios com os britânicos para que estes dominassem e administrassem o território sudanês, embora também fosse o Egito um país colonizado por Londres. O Sudão sempre resistiu ao expansionismo de Israel e declarou publicamente seu apoio a causa palestina, tendo sofrido ao longo dos anos diversos ataques israelenses, embora o empenho real na defesa dos direitos nacionais palestinos nem sempre acompanhassem a retórica dos governantes.

À partir de 1971 o Sudão será marcado por um duplo processo com fortes implicações até os dias de hoje: 1) O então presidente Gaafar al-Nimeiri alinhará o país aos EUA, abrindo gradualmente sua economia para as multinacionais ocidentais, reprimindo o Partido Comunista, sindicatos e movimentos sociais. 2) Uma retomada do conservadorismo social de raiz mahdista, mas agora sobre a forte influencia da Irmandade Muçulmana, grupo integrista de origem egípcia fortemente associado e protegido, primeiro pelos britânicos, depois pelos EUA e que adquiriu forte presença na classe política, elites econômicas e na vida social. Há um partido que representava, ainda que de forma moderada, a herança mahdista e que chegou, nos anos 1960 e entre 1986-1989, a estar no governo: o Partido Nacional Ummah de Sadiq al-Mahdi, mas estes vão aos poucos se afastando e se colocando na oposição, especialmente durante o governo de Omar al-Bashir (1989-2019).

Esse processo foi marcado pela guerra constante no território sul, habitado por povos tribais em grande parte nilo-chaarianos, muitos deles majoritariamente pastores, como os dinkas, nueres e shilluks, por exemplo e que haviam sido cristianizados por missões coloniais britânicas, em sua maioria, e tiveram grande parte de sua vida social alterada por conta da dominação de Londres. Suas lideranças e populações, em sua maioria, desejam não fazer parte de um Sudão independente por conta das memórias das guerras e raízes escravistas promovidas pelos sudaneses mesmo antes do aparecimento do movimento mahdista. Por conta disso realizaram duas longas guerras pela independência (1955-1972 e 1983-2004/2011), com um período de relativa paz e autonomia entre 1972-1982. Com a descoberta de petróleo por meio dos satélites americanos, Gaafar al-Nimeiri, em 1982, eliminou arbitrariamente a autonomia do sul do Sudão e, seis meses depois, impôs a Lei Islâmica (a Sharia), na sua versão mais dura, ao habitantes locais que não eram muçulmanos (algo contrário as práticas mais comuns no islã tradicional), entregando e expropriando aldeias para petroleiras ocidentais explorarem os poços de petróleo. Isto levou a deflagração de uma nova guerra no sul cujo resultado final foi a sua independência formal em 2011.

Em 30 de junho de 1989, por meio de um golpe militar, sobe ao poder um militar fortemente vinculado a Irmandade Muçulmana, o então brigadeiro Omar Hasan al-Bashir que governou de forma ditatorial o Sudão até o dia 11 de abril desse ano. Seu governo, e o seu grupo político-econômico reunindo em torno do Partido do Congresso Nacional, será caracterizado por uma complexa, e muitas vezes contraditória geopolítica, controle das forças armadas do estado, imposição das normas islâmicas da Irmandade Muçulmana na vida nacional, repressão política, empobrecimento e ausência de fortes politicas públicas, um estado constante de guerra dentro país.

Omar al-Bashir, Presidente do Sudão de 1993 a abril de 2019.

 

De início, como tantos governos integristas muçulmanos, o Sudão terá um posição pró-americana, atitude essa favorecida pelo contexto histórico do começo do governo de al-Bashir: fim da URSS e do socialismo de tipo soviético levando a hegemonia mundial plena dos EUA, a permanente situação de fragilidade geopolítico do Sudão por conta da continua guerra em seus territórios meridionais, a hegemonia regional saudita no mundo muçulmano e a presença sempre hostil de Israel cuja ameaça era intensificada pela fragilidade geopolítica sudanesa.

Nesse quadro, como mostram Michel Chossudovsky, Andrew Korybko, Thierry Meissan, Assad Abukhalil e tantos outros analistas políticos, o Sudão se engajará ativamente em muitas guerras promovidas pelos EUA no qual o uso de forças jihadistas será um instrumento central das conquistas colônias de Walshington-Wall Street. Dessa forma, o Sudão hospedará até 1995 o antigo comandante das forças expedicionárias árabes da CIA no Afeganistão nos anos 1980 Osama Bin Laden e o seu grupo guerrilheiro Al-Qaida, considerado pelos analistas citados acima e outros como Paul Craig Roberts, Atílio Borón, James Petras, o venezuelano Walter Martínez, etc, como sendo um agente permanente dos EUA mesmo quando era acusado por este de ataques importantes como o 11 de setembro. Somente após o fracassado suposto ataque da A-Qaida ao presidente egípcio Hosni Mubarak e, devido à pressão dos governos árabes, é que Bin Laden será expulso. Dentre as guerras por procuração dos EUA que o Sudão se envolveu cabe destacar as realizadas nos anos 1990 contra a Iugoslávia no qual foram empregadas em seu território da Bósnia jihadistas, dentre eles sudaneses ou gente enviada através do país árabe.

Mas, apesar disso e dos vínculos que as elites sudanesas tiveram sempre com o ocidente, e os EUA e suas corporações em particular (o analista de origem russa André Vltchek em seu texto de 2016 Sudan, Africa, And the Mosaico of Horrors afirma que até metade dos parlamentares sudaneses teriam cidadania estadounidense), o Sudão se caracterizaria por buscar a sua própria autonomia em relação a aquele país. Dessa forma, o Sudão já na segunda metade dos anos 1990 entra em conflito com os EUA que realizaram, no dia 20 de agosto de 1998 um bombardeio com mísseis Tomahawks, a partir do Mar Vermelho da fábrica farmacêutica montada com ajuda ONU de Al-Shifa na capital Khartum, usando como pretexto o atentado feito as embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia alguns dias antes. Os EUA também impõem um embargo econômico ao Sudão que prejudica seriamente a sua população já empobrecida por conta do estado permanente de guerra em muitas províncias e do pequeno investimento social do seu governo.

Ao longo desses anos os norte-americanos passam, a apoiar de forma mais intensa os rebeldes sulistas do Exército de Libertação do Sudão desde o território de Uganda e Quênia cujos governos eram vassalos dos EUA. Israel, que provavelmente sempre teve contato com os rebeldes do sul, também intensifica suas ações. Também um movimento guerrilheiro do povo beja-O Congresso Beja, na época sobre a liderança de Amin Shingrai-se subleva contra o governo sudanês. Na década de 2000 começa a sublevação étnica dos furs do Dhafur por meio da liderança do Movimento de Libertação do Sudão e do Movimento de Igualdade e Justiça apoiados pelo Chade e Eritreia. Mais tarde esses e outros grupos menores se reúnem uma federação chamada Frente de Redenção Nacional tendo como líder figuras como o ex-governador de Dhafur Ahmed Ibrahim Shiraige. Para diversos autores (Chossudovsky, Stephen Lendman, James Petras, Darius Mahdi Nazemroaya, Thierry Meyssan, etc) os EUA o tempo todo estavam promovendo uma política de balcanização do Sudão em quatro ou cinco países menores, seguindo um projeto de destruição (a política do caos programado) de diversos estados nacionais no mundo para facilitar o saque de seus recursos naturais e melhor dominar seus territórios fragilizados econômica, social e politica-institucionalmente. O Sudão de Bashir que havia apoiado essa politica americana em outras partes do mundo era agora vítima dela e isso se devia também ao seu acercamento a China com quem passou a realizar muitas trocas comerciais e abriu as suas reservas de petróleo a exploração por parte das empresas estatais chinesas (a maioria dos campos estavam no atual Sudão do Sul e uma parte no Dharfur), além de, na década de 2010, ir aderindo ao projeto chinês de infraestruturas econômico-comerciais e estratégicas conhecido pelo nome de Nova Rota da Seda. Esse projeto era um desafio aberto à dominação americana do mundo e tornou o Sudão, por mais que ele colaborasse com os EUA em determinadas situações, um alvo por parte destes.

Essa tensão toda produziu a Guerra do Dharfur cuja resposta do governo de Omar al-Bashir foi, através do exército e das milícias Janjawid, em 2008, realizar um grande massacre e limpeza étnica dos fures (2,8 milhões de deslocados e talvez 400 mil mortos numa população estimada em 7 milhões em 2007. Essa tragédia foi usado como arma política pelo governo de George W. Bush, que mobilizou a sua rede de imprensa, ONGs, celebridades como o ator George Clooney e organizações judaicas ligadas a Israel para acusar o governo sudanês de genocídio o que levou ao juiz argentino Luís Moreno Ocampo da Corte Penal Internacional, um instrumento político dos EUA, a pedir a prisão de Omar al-Barshir por crimes de genocídio e de guerra.

No entanto, como a geopolítica do Sudão é complexa e paradoxal há coisas ainda mais inesperadas a primeira vista. Mesmo tendo estabelecido laços até militares com o Irã e permitido uma forte presença econômica e tecnológica dos chineses no país, o governo de Bashir mantinha contatos com os EUA. Segundo Meyssan, em um artigo recente sobre o golpe (A Derrubada de Bashir 16/04/2019), o Sudão não só colaborou com os EUA nas guerras da Líbia (2011) e da Síria (2011 até hoje), enviando grandes contingentes, mas teve as forças especiais Janjawid treinadas por militares do Pentágono. Além disso, sempre foi forte a influência das monarquias do Golfo dentro do Sudão, tendo a Arábia Saudita sido, na maior parte do tempo, nos últimos 30 anos, a mais forte por conta de investimentos e empréstimos feitos ao governo.

No entanto, a população ainda que tivesse uma forte consciência anti-imperialista, foi sempre muito pouco beneficiada por investimentos em infraestrutura, educação, emprego, renda e outras necessidades vitais. Além disso, ainda que praticante de um islamismo sunita muito conservador, sofria o impacto em sua vida cotidiana das normas de controle moral e de repressão forte aos delitos segundo a forma mais dura de interpretação da sharia (lei islâmica) preconizada pela Irmandade Muçulmana.

Segundo a Review World Population, citado dados extraídos do escritório de estatísticas nacionais do Sudão e da ONU, mostra que a expectativa de vida no Sudão cresceu de 55 anos na década de 1980 para 65 anos em 2018 e a taxa de alfabetização acima de 15 anos teria alcançado 75,9% da população, sendo maior entre os homens (83, 3%) do que entre as mulheres (68,6%) em 2015. No entanto, em 2019, 20% da população econômica ativa estava desempregada, sendo 16% dos homens e 32% das mulheres. A taxa de fertilidade as população é alta (4,85 crianças por mulher) e a maior parte da população é composta de jovens, sendo que 43,07% são garotos de 0-14 anos. Como exemplo importante do grande subdesenvolvimento do Sudão: apenas 34,6% da população é urbana.

Esses problemas pouco ou nada resolvidos eram agravados pelo constante estado de guerra do País (Segundo Meyssan, até 75% do orçamento nacional ia para as forças armadas), pelo embargo americano ao país e a crise econômica que atingiu o Sudão levando ao aumento das tarifas e dos alimentos, com destaque para a farinha de trigo, criando uma situação de penúria em vastos setores da população. Essa crise econômica segundo o analista americano residente na Eritreia, Thomas Mountain, foi muito agravada pela separação em 2011 do Sudão do Sul e depois a paralização nesse país da exploração das reservas de petróleo, o que privou o Sudão de receitas importantes não compensadas pelas reservas de petróleo que sobraram os as exportações de goma arábica que entra na produção dos refrigerantes de cola pelo mundo.

Em 2011, durante a chamada “Primavera Árabe”, o Sudão já havia presenciado manifestações importantes contra o governo, mas diferente do seu vizinho Egito, elas não levaram a queda de Bashir. Agora, a partir do fim de 2018, mas especialmente desde janeiro do atual ano, diversas organizações, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos começaram a realizar grandes manifestações ao longo de diversas cidades, com destaque para a capital Cartum e a vizinha Ondurman (sede do Parlamento) aonde, apesar da forte repressão policial pediam não só a renuncia de Bashir e o afastamento dos islamistas do poder (militares ou civis), mas também soluções para os muitos problemas do país que iam de liberdades individuais, passando por serviços e infraestrutura social, politica anti-inflacionária e contra o desemprego até negociações de paz nas províncias em guerra.

Em 3 de janeiro, um manifesto público: A Carta da Liberdade e Mudança assinadas por partidos como o PC Sudanês, o Partido Nacional Umah, o Partido Republicano, sindicatos e associações de classes como grupos feministas, os estudantes da Universidade de Cartum, associações de advogados, médicos, engenheiros e professores secundaristas e universitários- a Associação de Profissionais do Sudão- e movimentos sociais (de agricultores, de mantenedores de tweeteres, dos núbios, etc) resumiram a pauta de reivindicações, pediam a formação de um governo de nacional de transição que preparasse no futuro uma assembleia constituinte e eleições livres. Essa carta e suas reivindicações foram à base para as ações de rua pedindo a renuncia de Bashir. O grupo político reunindo toda a oposição se chama Frente Nacional para a Mudança.

Nesse quadro também devemos lembrar três motivos que influenciaram na deflagração do golpe: 1) a aproximação com a Rússia, o que levou a acordos econômicos e de assistência militar, além do Sudão auxiliar a Rússia em sua ação política na vizinha, conturbada e sob intervenção ocidental República Centro Africana. Mesmo o Sudão participando ativamente na intervenção militar patrocinada pelos EUA da Arábia Saudita no Iêmen contra o movimento nacionalista dos Houthis e seus aliados, essa aproximação à Rússia-com quem o Sudão estaria negociando uma base no Mar Vermelho-desagradou o EUA e seus aliados no Mundo Árabe. 2) Apesar dessa aproximação a Moscou, segundo Meyssan, o governo Bashir teria tentado administrar a crise econômica recorrendo a uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e este aplicou sua tradicional política de austeridade contribuindo para o aumento dos protestos por todo o país. 3) A aproximação da Turquia, que se tornou uma rival no Oriente Médio da Arábia Saudita chegando a permitir a abertura de uma base da marinha turca na cidade portuária de Suakin no Mar Vermelho, algo que desagradou fortemente os sauditas ao projetar em seu mar ocidental o poder marítimo do governo de Ankara.

Assim, em meio a fortes manifestações, as forças armadas se antecipam e depõem Omar Al-Bashir em 11 de abril e assumem um governo de Transição (Conselho Militar de Transição), no primeiro dia sob o general Ahmed Awad ibn Awf e depois com o ex-comandante das tropas sudanesas no Iêmen, Abdel Fattah al-Burhan. Bashir teria sido preso e pouca informação sobre ele foi divulgada desde então.

A intervenção do exército não agradou muito os grupos de oposição da Carta de Liberdade e Mudança, embora a queda de Bashir tenha agradado muitos na sociedade sudanesa. Manifestações ocorreram nas ruas pedindo que os militares respeitassem a população e estabelecessem um governo misto de transição com civis e militares, mas predominando os primeiros, formando assim um Conselho de Civil de Transição. Reuniões começaram a ocorrer entre os militares e os representantes do grupo Liberdade e Mudança. Estes pediam até representantes dos grupos feministas e de jovens no governo interino, além de prisão e julgamento dos militares e oficiais de polícia responsáveis pela repressão as manifestações. O PC Sudanês também vem criticando os militares e, em 25 de abril, os acusou publicamente de não quererem sair do poder. Essa pressão seria também fortalecida pela ação da União Africana e da União Europeia para transferir o poder aos civis. A União Africana chegou até ameaçar suspender o Sudão em abril por conta da repressão as manifestações. Dia 30 exigiu a transferência para os civis dentro de dois meses.

Como, explicar satisfatoriamente o golpe, sem cair na ingenuidade de que a sociedade civil sudanesa, por si só, se levantou e derrubou o seu ditador no poder desde 1989, lembrando sempre do complicado cenário geopolítico no qual o Sudão está inserido?

Não temos respostas definitivas ainda, pois provavelmente muito do jogo político decisivo está sendo realizado nos bastidores. Pode-se, pelas informações já disponíveis, que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aprovaram a queda de Bashir, pois concederam ao Sudão um empréstimo de US$ 3 Bilhões. Este empréstimo e o fato de al-Burhan ser o comando das tropas sudanesas no Iêmen indicariam que o país africano caiu sob a influência saudita. A prisão do porta-voz da Frente Nacional para a Mudança, Said al-Jizuli, por algumas horas dia 24, após criticar em público a ingerência dos Emirados Árabes Unidos seria outro indicio de que o atual governo esta sob a influencia regional de Riad e Abu Dhabi.

Como as revoluções coloridas pelo mundo afora criaram uma forte desconfiança em relação às manifestações publicas, aparentemente não-violentas e com slogans democráticos, não sabemos o grau de sinceridade das lideranças envolvida na Carta de Liberdade e Mudança. Condições e legitimidade para as manifestações ocorrerem existiam e a imensa maioria saiu às ruas de forma sincera. Também nada se sabe no momento das ações de bastidores que acabaram conduzindo a derrubada de Bashir pelos militares. Como costuma ocorrer em eventos dessa natureza, ela deve ter sido coordenada ou acompanhada pelos EUA, Grã-Bretanha, ONU, Liga Árabe, União Africana, Arábia Saudita e os russos e chineses também a acompanharam e podem mesmo ter começado a negociar secretamente com os militares sudaneses a continuidade ou não dos acordos feitos sob a administração de Bashir, assim como o mesmo pode estar fazendo a Turquia.

O certo, nesse primeiro momento, é que muito pouco mudará no Sudão em termos sociais e econômicos e o país continuará a sofrer uma pesadíssima pressão geopolítica mundial, especialmente do poder norte-americano e de seus sócios locais, ainda muito presente no continente africano.

 

*José Ailton Dutra Júnior é doutor em História pela Univerisdade de São Paulo (USP) e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Islâmico.

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