Categories
Braço Forte

ENGESA : Uma História de Sucesso e Fracasso

Por General de Exército Armando Luiz Malan Paiva Chaves

O nome ou, melhor dizendo, o acrônimo ENGESA é muito mais do que o batismo de uma empresa. É o relato da obra de um empresário altamente dotado de inteligência, bagagem técnica e cultural, acurada visão de futuro e aptidão para selecionar valores humanos e que levou uma modesta firma de fabricação de componentes para exploração petroleira a se transformar num complexo industrial-militar, o qual disputou mercados com os maiores e mais tradicionais produtores de armamentos de alta tecnologia mundiais. Vencido pela concorrência por justa ambição de crescimento, que ignorou a ponderação no cumprimento de compromissos contratuais e bancários assumidos, esse empreendedor mergulhou na inadimplência, na concordata e na falência. Deixou de existir. Passou a ser uma história, a contar e lembrar.

Nascimento e evolução

Em 1958, a ENGESA (Engenheiros Especializados S/A) foi criada por José Luiz Whitaker Ribeiro. Em 1968, produzia componentes para a exploração de petróleo e os fornecia a Petrobras. Ao ter seus caminhões enfrentando estradas de terra e barro para chegarem ao destino no litoral, desenvolveu, “de motu próprio”, uma caixa de transferência com tração total, aplicada com sucesso em seus veículos nacionais. Em 1970, o Exército interessou-se em testar o invento. Aprovado, passou a usá-lo.

Na época, estavam em desenvolvimento no Parque Regional de Motomecanização, da 2ª Região Militar, os blindados S/R Cascavel e Urutu. Convidada, a ENGESA aceitou associar-se à Força Terrestre e participar do empreendimento. Em 1974, a empresa tomou a iniciativa pioneira de oferecer à Líbia o blindado Cascavel, com canhão 90 milímetros. Foi um sucesso! A ENGESA começava a crescer com a exportação. Em poucos anos, vendeu esse blindado a 18 países localizados no Oriente Médio, na África, na América do Sul e no Mediterrâneo.

Veículo de transporte de tropas EE-11 Urutu, um dos mais bem sucedidos produtos da Engesa.

Nos anos de 1980, iniciou o desenvolvimento em computador (hoje, AutoCad) doEE-T1 Osório, carro de combate (CC) armado de canhão 120 milímetros. Em 1985, a Arábia Saudita convidou Alemanha, Brasil, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia a levarem seus CC para demonstração. O Osório, já testado aqui, foi transportado de avião ao destino. Teve muito bom desempenho.

Em 1986, a ENGESA obteve financiamento de US$ 65 milhões pelo BNDES. No mesmo ano, assinou contratos com o Exército para grandes fornecimentos: 40 mil tiros de morteiro; 100 conjuntos de rádio; 51 blindados Urutu; 500 a 600 viaturas de 2 1/2 toneladas; 380 viaturas de 3/4 toneladas e 82 jipes. Apesar do subsídio, os recursos foram aplicados para a aquisição de fábricas, como a IMBEL, de Juiz de Fora, bem como para novos desenvolvimentos, como mísseis e helicópteros, que não chegaram a ser efetivados. O Exército exigiu e obteve uma Confissão de Dívida, porém, nada do contratado jamais foi entregue.

Plano inclinado descendente

Do exposto, deduz-se que 1986 foi o ano de entrada da empresa no plano inclinado descendente, que a levaria, mais adiante, à extinção. Em 1987, a Arábia Saudita convocou para segunda avaliação o Abrams norte-americano, o AMX 40 francês, o Challenger britânico e o Osório brasileiro, este, mais uma vez, transportado de avião. Pelo relato dos dirigentes da ENGESA, tudo indicava que seu produto foi o vencedor do certame. Prova disto é que foi assinado um pré-contrato para a aquisição de 316 carros de combate, por US$ 2,2 milhões.

Em 1989, o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa norte-americanos apresentaram ao Congresso minucioso relatório defendendo a conveniência de o Abrams ser vendido à Arábia Saudita, tanto pelo que a fabricação representaria para a indústria nacional, como pelo que significaria a entrada de um novo fabricante (ENGESA) no mercado do Oriente Médio. A ação diplomática produziu seus efeitos e o Abrams foi vendido aos árabes, deixando a ENGESA “a ver navios”.

Acima: O MBT Osório foi o mais sofisticado produto da Engesa.

Nos anos de 1990, a ENGESA pediu concordata. O Governo brasileiro autorizou o Tesouro Nacional a conceder à IMBEL NCz$ 30 milhões (de cruzados novos) para adquirir o acervo tecnológico da ENGESA, excluído o do Osório. A empresa vendedora teria três anos de prazo para recompra. Caso isto não ocorresse, o acervo tecnológico do Osório seria cedido à IMBEL por preço simbólico de NCz$ 1,00.

Deduz-se do parágrafo anterior que os méritos tecnológicos da ENGESA eram amplamente reconhecidos, seja pelo Exército, seja pelo mais alto escalão da administração pública. E que a inconsistência de sua política econômico-financeira vinha sendo severamente avaliada e mesmo sancionada, como o foi com a aquisição do acervo tecnológico.

Caminhão 6×6 EE-25

Um Grupo de Trabalho criado na Presidência da República, ligado ao Gabinete Militar, reuniu representantes do Tesouro, do BNDES e do Banco do Brasil, para acompanhar a evolução do saneamento. Foi, inclusive, proposta a concessão de aumento de capital da IMBEL, pelo BNDES e BB, para que a ela fossem transferidas todas as garantias da ENGESA depositadas nos dois bancos. A IMBEL não aceitou a proposta, pois nada receberia em caso de falência. Em contraposição, propôs a entrega do acervo tecnológico, o que ocorreu, já que o prazo para recompra se esgotara. Os 30 milhões recebidos para a aquisição temporária do acervo tecnológico foram aplicados na recompra da Fábrica de Juiz de Fora, que voltou a ser propriedade da IMBEL.

Agonia

Em 1991, firmou-se um Protocolo de Intenções e Procedimentos. Nele, foi estabelecido que as ações dos controladores passassem ao domínio da IMBEL, a preço simbólico. A Fábrica foi credenciada para negociar com os credores redução de 90% das dívidas. O BNDES e o BB receberiam 53% do resultado da alienação de ativos não operacionais e os 47% restantes passariam para a IMBEL pagar parcialmente os credores. Seria criada nova empresa afim, com os recursos devidos aos trabalhadores, que virariam acionistas, com os valores desses recursos.

Em 1992, os ativos não operacionais não obtiveram preço. Em consequência, todo o plano falhou. Em 1994, o Gabinete Militar da Presidência apresentou proposta de desapropriação da ENGESA por interesse público. Na época, o Governo julgou temerária tal iniciativa e a arquivou.

Ainda naquele ano, o Presidente da IMBEL viajou à Grã-Bretanha para apresentar, ao Conselho de Administração da British Aerospace, uma proposta de associação com sua subsidiária Royal Ordnance para a copropriedade e a gerência conjunta da ENGESA, mediante investimento de US$ 125 milhões. Os britânicos disseram concordar com o valor da participação, porém, os recursos não poderiam ser aplicados para saldar dívidas tributárias, trabalhistas e bancárias. Mais uma tentativa frustrada de salvar a empresa.

EE 18 SUCURI o mais sofisticado veiculo sobre rodas desenvolvido pela empresa

Em 1995 decretou-se a falência da ENGESA. O juiz passou a tratar das alienações. Questionou a propriedade da IMBEL sobre o acervo tecnológico, que só foi assegurada com ganho de causa obtido na justiça. Todo o material do acervo foi transferido para a Fábrica de Piquete, à exceção dos planos do Osório, que não foram encontrados nem na fábrica, em São José dos Campos, nem no complexo administrativo de Barueri. Em 2005 a fábrica de São José dos Campos foi vendida à EMBRAER.

Considerações finais

A epopeia da ENGESA – da criação ao declínio, e deste à falência – é exemplo frustrante da aptidão criativa e tecnológica do empresariado brasileiro, bem como da carência de recursos financeiros governamentais para assegurar a regularidade de encomendas de que depende a sobrevivência das empresas. As motopeças, os blindados Charrua e Bernardini, e o carro de combate Tamoio reforçam a exemplificação.

Enquanto foi possível financiar demandas não entregues, a ENGESA foi largamente apoiada. Porém, seu ímpeto de produzir e exportar gerou compromissos financeiros que foram muito além do que o Governo brasileiro poderia apoiar. Veio-lhe a inadimplência e não houve como contorná-la, nem como moderar sua ambição. À frustração da venda do Osório somou-se o fracasso de novas iniciativas, como a de helicópteros e a de mísseis.

EE-3 JARARACA

O Governo e o Exército Brasileiro, via IMBEL, procuraram caminhos para salvar a ENGESA, contudo, a cova que a enterraria já era muito funda, cavada por seu próprio Conselho de Administração. O Brasil perdeu uma empresa que lhe poderia dar autossuficiência em muitos itens de emprego militar, destruída pelas mãos de quem a criara e a quis maior do que lhe disponibilizavam os meios.

Não se tem notícia da utilização do acervo tecnológico guardado na Fábrica de Piquete, que poderia ser muito útil nos desenvolvimentos programados pelo Exército. Também não se sabe do acervo do Osório, sem dúvida muito valioso, que é propriedade da Força. Caberia uma ação, mesmo policial, para descobrir seu destino. Localizado, teria grande valor na orientação da fabricação de blindados brasileiros.,

FONTE: Blog do Exército Brasileiro / Agência Verde-Oliva

Categories
Defesa Destaques História Rússia Sistemas de Armas

A pistola de Kalashnikov que nunca chegou ao Exército Vermelho

IGOR ROZIN

Mikhail Kalashnikov estava tão ocupado projetando o fuzil de assalto AK-47 que outro projeto seu – uma pistola totalmente automática – foi colocado na geladeira. Depois da Segunda Guerra Mundial, o modelo adiado acabou perdendo para outro mais moderno.

O modelo de pistola totalmente automática programado para os oficiais do Exército Vermelho tinha coldre de madeira e carregador de 20 rodadas com cartucho de 9 x 18mm – bem parecida com a pistola automática Stechkin, que venceu nos testes.

A criação de Mikhail Kalashnikov pesava 1,7 quilo, e seu coldre de madeira tinha dupla função: era também um ferrolho rebocável para disparar com maior precisão. Suas características principais eram o gatilho de ação simples e o fato de poder funcionar como uma pistola semi ou totalmente automática com cadência de tiro extremamente alta.

No entanto, como Kalashnikov estava embrenhado na criação do icônico rifle de assalto AK-47 no final dos anos 1940, o projeto da pistola foi colocado na geladeira, e o outro modelo já mencionada, de Igor Stechkin, acabou sendo adotado pelo Exército no lugar.

Hoje existem alguns poucos exemplares de pistolas automáticas de Kalashnikov, que podem ser observadas na cidade de Ijevsk, onde ficam as instalações da fabricante.

A criação de Stechkin, por sua vez, começou a ser usada pelos militares em 1951: duas variantes foram produzidas na Rússia por 40 anos até o fim da Guerra do Afeganistão.

Fotos: Consórcio Kalashnikov

Fonte: Russia Beyond

Edição: Plano Brasil

 

 

 

 

 

 

Categories
América do Sul Defesa Destaques Equipamentos Meios Navais Navios Negócios e serviços Patrulheiros Sistemas de Armas Sistemas Navais Tecnologia Vídeo

Colômbia: primeiro navio-patrulha oceânico OPV 93 – ou “OPV de segunda geração”

 

http://www.planobrazil.com/continuamos-comendo-poeira-cotecmar-e-armada-colombiana-fixam-para-o-3o-trimestre-de-2022-a-entrega-do-1o-patrulheiro-de-2-550-tons-porte-comparavel-ao-da-cct-brasileira/

Categories
Conflitos Destaques Estados Unidos Geopolítica Israel Opinião

Trump acabou com a hipocrisia do "processo de paz"

Presidente americano apenas reconheceu a realidade dos fatos: nenhum dos dois lados deseja a paz dentro de condições aceitáveis para ambos, afirma jornalista Rainer Hermann, do “Frankfurter Allgemeine Zeitung”.

Mundo islâmico protestou contra a decisão de Trump, incluindo o Paquistão

Há uma série de assuntos nos quais a hipocrisia está na ordem do dia. Eles incluem a discussão se a Turquia deve ser membro da União Europeia e o chamado processo de paz entre Israel e os palestinos. O primeiro tema se encerrou com a simples existência do presidente Recep Tayyip Erdogan. Quanto à segunda questão foi o presidente dos EUA, Donald Trump, quem pôs um fim à hipocrisia, nesta quarta-feira (06/12).

Com o seu anúncio de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e transferir a embaixada americana para lá, ele simplesmente reconheceu a realidade dos fatos. Porém, também desencadeou um pequeno terremoto, que prejudicará também os interesses americanos.

Como empresário, Trump sabe que, após um fracasso e uma falência, há um recomeço. Então, como presidente, ele quer destruir o que acredita ter fracassado. Em sua opinião, isso inclui o chamado processo de paz entre Israel e os palestinos. Então, por que não tentar outra abordagem?

Afinal, nenhum dos dois atores jamais desejou nem deseja a paz dentro de condições aceitáveis para ambos. Em 2001 e 2007, os palestinos rejeitaram a devolução de 97% dos territórios ocupados, incluindo Jerusalém Oriental. Eles queriam tudo ou nada e agora estão de mãos vazias. Por sua vez, Israel povoou de forma consequente os territórios ocupados – criando uma nova situação. Sob o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o país não está disposto a mais nenhuma concessão. Israel quer tudo e, como parte mais forte, também fica com tudo – incluindo a embaixada americana em Jerusalém.

Trump provavelmente não sabe o que a sua decisão vai provocar no Oriente Médio. Pois ele seguiu apenas motivos políticos internos, cumprindo uma promessa feita a seus apoiadores evangélicos e ao poderoso lobby judaico. Mas, no Oriente Médio, ele fortalece o Irã, que – ao lado da Turquia – pode agora se sobressair como defensor dos interesses islâmicos.

Rainer Hermann

Ainda não se sabe qual será o novo big deal após a destruição, após a “ruptura” provocada por Trump. Concretiza-se cada vez mais que o Egito disponibilizará parte do Sinai como “território substituto” para os palestinos. Isso certamente não irá pacificar a região, e talvez a solução será apenas mais uma paz que acabe com todas as pazes.

  • Rainer Hermann é jornalista do “FAZ”

Fonte: DW

 

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | WhatsApp | App

 

Categories
Conflitos Conflitos e Historia Militar Destaques História Israel

O que são as intifadas?

Líderes do Hamas convocaram terceira intifada após reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. O que significa essa palavra e como ocorreram dois primeiros levantes?

Militantes palestinos participam de protestos contra a decisão dos Estados Unidos

O que é intifada?

A palavra intifada é muitas vezes traduzida como “rebelião”, “revolta” ou “insurreição”, mas o significado original em árabe está mais próximo de livrar-se de algo ou alguém por meio de um movimento de agitação ou sacudida.

Quando a palavra é usada no contexto das décadas de conflitos entre palestinos e israelenses, ela se refere a um levante organizado de palestinos contra o Exército israelense.

Os lados opostos já lutaram em dois desses conflitos. O primeiro começou em 1987 e terminou em 1993. O segundo, muito mais sangrento, iniciou-se em 2000 e durou mais de quatro anos. Irritado com a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, o grupo militante palestino Hamas está agora convocando uma terceira intifada.

Israel reivindica Jerusalém como sua capital. Os palestinos também afirmam que Jerusalém Oriental, atualmente ocupada por Israel, deve ser a capital de um futuro Estado palestino. Com sua decisão, Trump praticamente acabou encerrou a questão a favor de Israel.

O que é o Hamas?

O Hamas é uma organização fundamentalista palestina que consiste de um partido político, uma ação social e uma brigada paramilitar. O Hamas é considerado uma organização terrorista por Estados Unidos e União Europeia.

O grupo é a segunda maior força política nos territórios palestinos, atrás do Fatah, que é moderado. Os dois grupos estão trabalhando para superar suas divisões e formar um governo de unidade.

A carta de princípios do Hamas afirma que o grupo busca a criação de um Estado islâmico no território remanescente da antiga Palestina, o que inclui o atual Estado de Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, tendo Jerusalém como capital. Assim, o Hamas nega o direito de existência de Israel e defende sua destruição.

O grupo lutou várias guerras contra Israel nos últimos anos, incluindo o conflito sangrento na Faixa de Gaza no verão europeu de 2014. A facção também cometeu uma série de ataques terroristas e atentados suicidas contra alvos israelenses.

O Hamas foi fundado em 1987, logo após a primeira intifada, a partir da Irmandade Muçulmana.

Como foi a primeira intifada?

A primeira intifada começou em 8 de dezembro de 1987, quando um caminhão militar israelense colidiu contra um carro civil que transportava trabalhadores palestinos que retornavam à Faixa de Gaza. Quatro palestinos morreram. Enquanto os israelenses afirmavam que o motorista perdeu o controle de seu veículo, muitos observadores árabes diziam que o caminhão colidiu intencionalmente contra o carro para vingar a facada mortal que custara a vida de um israelense alguns dias antes. Os meses anteriores foram caracterizados por violência de ambos os lados.

As mortes dos trabalhadores palestinos provocaram violentos tumultos contra soldados israelenses, que repetidamente dispararam contra as multidões. A violência aumentou nos dias seguintes, com os manifestantes levantando barricadas e atacando veículos israelenses com pedras. Inicialmente, a agitação foi espontânea. Logo depois, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat, começou a organizar a insurreição.

Arafat liderou a OLP até sua morte, em 2004

Ao mesmo tempo, muitos palestinos também se recusaram a trabalhar em Israel, pagar impostos ou comprar produtos israelenses, entre outros atos de desobediência civil. O início da primeira intifada também levou ao surgimento do Hamas, que foi fundado pelo xeque Ahmed Yassin com a ajuda da Irmandade Muçulmana e membros religiosos da OLP.

Israel lançou uma repressão em áreas ocupadas para sufocar a revolta. As forças israelenses impuseram toques de recolher e fizeram uso de espancamentos, tortura e prisões em massa, exacerbando o conflito.

Após anos de violência, a primeira intifada terminou com a assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993, entre o governo israelense e a OLP. O documento criou a Autoridade Palestina e permitiu a autogovernança nas regiões ocupadas, mas isso foi rejeitado pelo Hamas.

As estimativas do número de mortos diferem entre as várias fontes, mas a ONG israelense B’Tselem afirma que 1.203 palestinos e 179 israelenses morreram até o final de 1993.

A repressão brutal de Israel prejudicou seriamente a reputação internacional do país.

Como foi a segunda intifada?

Em 28 de setembro de 2000, o político israelense Ariel Sharon visitou o Monte do Templo em Jerusalém Oriental, ocupada por Israel, desencadeando a segunda intifada. Os líderes palestinos encararam a visita como Israel reivindicando tanto os territórios ocupados quanto os locais sagrados do islã no Monte do Templo, em Jerusalém.

No momento da visita, Sharon era líder da oposição no Parlamento de Israel e, alguns meses depois, foi eleito primeiro-ministro. A mudança também alimentou o ressentimento já existente entre os palestinos, ligado ao colapso das negociações de paz em Camp David, em julho de 2000.

Sharon foi ao Monte do Templo sob uma enorme escolta policial, mas evitou visitar a mesquita Al-Aqsa. Ainda assim, sua visita desencadeou tumultos e foi duramente criticada pela mídia palestina.

Manifestantes atacaram centenas de policiais que protegiam Sharon e seus colegas parlamentares. Mais uma vez, a violência aumentou rapidamente e, dois dias depois, um tiroteio na Faixa de Gaza custou a vida de Muhammad al-Durrah, de 12 anos, num incidente amplamente divulgado.

Em 6 de outubro de 2000, o Hamas declarou um “dia de fúria” e pediu aos palestinos que atacassem postos militares avançados de Israel, acirrando ainda mais o conflito, que continuou por anos.

Se, na primeira intifada, os palestinos usaram principalmente pedras e coquetéis molotov contra as forças israelenses, o segundo levante em massa viu o Hamas e outros grupos fazendo luta armada contra soldados israelenses e bombardeando cidades de Israel.

Ambos os lados também cometeram assassinatos. O Hamas usou terroristas suicidas para matar civis israelenses, sendo que seus alvos incluíram ônibus, restaurantes e hotéis.

Por sua vez, Israel lançou ataques aéreos contra alvos em Gaza e ataques militares em larga escala nos territórios palestinos. A intifada também levou as autoridades israelenses a começar a construir a grande barreira “antiterrorista”.

O jornal israelense Haaretz estima que, nos cinco anos de luta, cerca de 1.330 israelenses e 3.330 palestinos morreram. A segunda intifada não teve uma data final precisa, mas alguns observadores consideram a morte de Arafat, em novembro de 2004, como o momento decisivo. No entanto, ataques letais continuaram por vários meses após sua morte.

Fonte: DW

 

Categories
Conflitos Destaques Estados Unidos Geopolítica Israel

Confrontos entre israelenses e palestinos deixam mortos

Cisjordânia e Faixa de Gaza registram mais um dia de protestos violentos em reação à decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Manifestações se espalham por países árabes e muçulmanos mundo afora.

Confrontos violentos em mais um dia de protestos na Cisjordânia

Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas nesta sexta-feira (08/12) em vários países árabes e muçulmanos, para mais um dia de protestos contra a decisão dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Ao menos dois palestinos morreram na Faixa de Gaza.

Segundo um porta-voz do Ministério da Saúde local, as mortes foram provocadas por forças de segurança israelenses, que teriam disparado com arma de fogo contra os manifestantes. Os confrontos violentos ainda deixaram dezenas de feridos, incluindo dois em estado crítico.

O Exército de Israel, por sua vez, defendeu que, em razão de “tumultos violentos” em Gaza, “os soldados responderam de forma a dispersar o motim”. A força armada confirmou que duas pessoas – descritas como instigadoras – foram atingidas por balas.

Ainda segundo os militares israelenses, protestos em reação à decisão americana ocorreram em ao menos 30 localidades da Cisjordânia e da Faixa de Gaza nesta sexta-feira, um dia depois das manifestações que também terminaram em confrontos violentos e dezenas de feridos na região.

Manifestante carrega bandeira palestina durante confrontos com militares na Faixa de Gaza

Na Cisjordânia, palestinos incendiaram pneus, provocando intensas nuvens de fumaça negra sobre as cidades de Ramala e Belém. Enquanto manifestantes jogavam pedras em militares israelenses, esses respondiam com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Os paramédicos do Crescente Vermelho e as autoridades de saúde palestinas relataram um total de 13 pessoas feridas por disparos de arma de fogo e 47 por balas de borracha nos protestos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Além disso, dezenas foram tratadas por inalar gás lacrimogêneo.

Na quinta-feira, em discurso durante uma manifestação em Gaza, o líder do movimento palestino Hamas, Ismail Haniyeh, havia convocado palestinos, árabes e muçulmanos a realizarem novos protestos nesta sexta-feira. “Façamos do 8 de dezembro o primeiro dia da nova intifada [levante popular]” contra o Estado israelense, pediu o líder.

Confrontos também foram registrados em protestos na Cidade Antiga de Jerusalém

Em apoio aos palestinos, manifestações foram registradas também em países como Jordânia, Líbano, Iraque, Irã, Paquistão, Turquia, Bahrein, Egito, Sudão, Tunísia, Indonésia e Malásia. Os presentes repetiam palavras de ordem contra o anúncio do presidente americano, Donald Trump, e levavam cartazes que pressionavam os líderes árabes a responder de maneira firme a Washington.

“Com o espírito e o sangue, não deixaremos que Jerusalém se vá”, “Jerusalém é árabe e continuará sendo capital eterna da Palestina, e não de Israel”, “Jerusalém para nós, não para os ocupantes” e “não à judaização de Jerusalém” foram alguns dos gritos ouvidos nas cidades árabes.

No Egito e na Jordânia, os únicos países que têm assinado um tratado de paz com Israel, os participantes exigiam a paralisação dos acordos. Centenas de pessoas protestaram dentro e fora da mesquita de al-Azhar, a mais emblemática do Egito e situada no centro histórico do Cairo, após a finalização da oração do meio-dia.

Em Amã, capital jordaniana, centenas de manifestantes gritaram “Estados Unidos são a cabeça da cobra” e pisaram num cartaz que trazia o rosto de Trump ao lado de uma suástica nazista. Estima-se que 20 mil pessoas tenham participado de protestos ao redor do país.

Manifestantes em frente ao Domo da Rocha, um dos edifícios mais sagrados do islã, na Cidade Antiga de Jerusalém

Conselho de Segurança se reúne

Enquanto isso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas deu início a uma reunião para discutir a decisão dos Estados Unidos sobre o reconhecimento de Jerusalém.

“Existe um sério risco hoje de que possamos ver uma cadeia de ações unilaterais, que só podem nos afastar ainda mais de alcançar nosso objetivo compartilhado de paz”, alertou Nickolay Mladenov, enviado da ONU para o Oriente Médio, durante o encontro.

Há dois dias, Trump anunciou que vai transferir a embaixada americana de Tel Aviv – onde estão as embaixadas de outros países – para Jerusalém, ignorando alertas de líderes estrangeiros sobre os riscos que a medida pode trazer aos esforços de paz no Oriente Médio.

Durante o anúncio na Casa Branca, Trump disse que a medida apenas reconhece o “óbvio”: que Jerusalém é sede do governo israelense. “Não é nada mais que o reconhecimento da realidade.”

A decisão, que acarreta o reconhecimento da cidade disputada como capital do governo israelense, logo provocou reações indignadas de entidades e líderes internacionais. Uma série de países, incluindo Reino Unido e França, solicitaram então uma reunião de emergência da ONU.

Israel considera Jerusalém sua capital “eterna e indivisível”, enquanto os palestinos defendem que a porção leste de Jerusalém deve ser a capital de seu almejado Estado.

As Nações Unidas estabelecem que o status de Jerusalém deve ser definido em negociações entre israelenses e palestinos, razão pela qual os países com representação diplomática em Israel têm suas embaixadas em Tel Aviv e imediações.

Fonte: DW

Israelenses, palestinos e a busca por um mediador

Após decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, processo de paz é visto como “enterrado”. Caso seja reiniciado, ainda não se sabe quem poderá mediá-lo. Os EUA continuam sendo candidatos.

Protesto em Gaza contra o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel

Na semana passada, uma delegação enviada pelo líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, já havia advertido Jared Kushner, cunhado e assessor de Donald Trump, de que a decisão do presidente americano dereconhecer Jerusalém como capital israelenseiria minar as negociações de paz entre israelenses e palestinos.

Abbas alertou que, se a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para a cidade disputada se concretizasse, os palestinos não veriam mais Washington como um “mediador honesto”.

Trump oficializou sua decisão na última quarta-feira (06/12). Com isso, os americanos “enterraram” o processo de paz, disse o líder do movimento palestino Hamas, Ismail Haniyeh, durante um discurso em Gaza, acrescentando que a decisão foi uma “declaração de guerra” contra os palestinos.

A ativista palestina Hanan Ashrwai afirmou que a decisão de Trump “acaba com a farsa de que os EUA podem ser um mediador imparcial”.

Influência necessária

“O processo de paz realmente fracassou? Que processo de paz?”, indagou o jornal israelense The Jerusalem Post em editorial. O periódico aponta que, de qualquer forma, nos últimos três anos não houve mais nenhuma negociação e que a decisão de Trump não somente não melhoraria as negociações de paz, mas também prejudicaria os interesses estratégicos e diplomáticos dos Estados Unidos.

Mas tudo isso não muda nada no fato de os EUA continuarem a ser mediadores indispensáveis na região, acrescentou The Jerusalem Post. “Se um dia houver negociações sérias, os palestinos precisarão dos EUA, porque nenhum outro país tem a influência necessária sobre Israel para apoiar a conclusão de um acordo”, escreveu o diário.

Decisão de Trump é “declaração de guerra a palestinos”, disse Ismail Haniyeh, líder do Hamas

O poder político e militar é o fator mais importante nas negociações de paz. O cientista político Gil Murciano ressalta que, tanto no passado quanto no presente, houve iniciativas sérias e bem-sucedidas que não partiram dos EUA. Isso inclui a visita do então presidente egípcio, Anwar al-Saddat, a Jerusalém, em 1977, e os Acordos de Oslo de 1993, por exemplo.

De acordo com Murciano, os EUA são, no entanto, indispensáveis ​​para futuras iniciativas. “Porque, infelizmente, os americanos ainda são os únicos que têm poder suficiente para adotar a política de punição e recompensa. Somente eles são capazes de fornecer as necessárias garantias de segurança.”

Apesar da retirada da região, os EUA continuam a ser um parceiro importante – especialmente para Israel e, assim, indiretamente também para os palestinos. Pelo simples motivo de que não existem outros potenciais mediadores.

A Rússia, um dos novos atores-chave na região desde a guerra da Síria, está fora de questão para o papel, disse Murciano, explicando que falta ao país outra condição indispensável: confiabilidade.

De acordo com o cientista político, para conduzir as negociações, o mediador precisa ter a confiança de ambas as partes. Murciano disse acreditar que, no entanto, Moscou não preenche esse pré-requisito, pois especialmente os últimos meses fizeram com que Israel ficasse bastante cético em relação à Rússia. Isso porque, durante a guerra na Síria, os russos não puderam reduzir de forma convincente a influência do Irã no país em conflito – e assim junto à fronteira com Israel.

O movimento xiita Hisbolá se encontra nas Colinas de Golã, ao lado do território israelense, “e isso abalou fortemente a confiança dos israelenses”, apontou Murciano.

UE irrelevante

E a Europa ou a União Europeia (UE)? Para o cientista político, o bloco europeu também está fora de questão, observando que certamente a UE apoia o processo de paz – mas ela não dá nenhum impulso significativo.

Quando John Kerry, então secretário de Estado dos EUA, quis reiniciar as conversas entre israelenses e palestinos em 2011, cogitando também um congelamento dos assentamentos de Israel na Cisjordânia, a UE realmente apoiou esse processo. O bloco europeu prometeu aos dois parceiros de negociação uma parceria privilegiada, caso chegassem a um acordo.

Murciano ressaltou, porém, que nesse contexto a União Europeia nunca foi um ator independente, nunca mostrou motivação ou poder de negociação, nem qualquer posição própria ou cenário em que as conversas poderiam ter ocorrido. “É por isso que a UE não é relevante para o processo de paz”, avaliou o cientista político.

A hora dos demagogos

É claro que, se o processo de paz se reiniciar, ele deverá ser mais difícil do que nunca. Pois devido à guerra na Síria, a situação estratégica de Israel tornou-se consideravelmente mais difícil. O país vê-se mais do que nunca ameaçado pelo Irã.

Teerã percebeu logo que o uso propagandístico que poderia ser feito da decisão do presidente dos Estados Unidos. “Os muçulmanos devem permanecer unidos contra essa grande conspiração”, declarou o presidente iraniano, Hassan Rohani, ainda antes da respectiva declaração de Trump. Suas palavras devem ter encontrado ouvidos, mesmo no mundo sunita.

Como a situação vai se desenvolver, se vai se acirrar ou se acalmar, irá depender muito das declarações dos responsáveis ​​nos próximos dias. Parece estar claro que as conversações de paz devem ser retomadas. A questão é quem será capaz de mediá-las. Apesar de todo o desagrado, no final, essa escolha poderá recair mais uma vez sobre os EUA.

Fonte: DW

 

 

 

 

Categories
Conflitos Destaques Estados Unidos Geopolítica

Muçulmanos da Ásia protestam contra decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como capital

Homens muçulmanos queimam bandeiras israelenses e dos EUA durante um protesto contra a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel em Banda Aceh, Indonésia, sexta-feira, 8 de dezembro de 2017. – Foto: AP / Heri Juanda

Por Kanupriya Kapoor e Joseph Sipalan

Milhares de manifestantes se reuniram nesta sexta-feira em países de maioria muçulmana na Ásia para protestar contra a decisão dos Estados Unidos de reconhecerem Jerusalém como a capital de Israel, e as autoridades reforçaram a segurança diante das embaixadas norte-americanas.

Os líderes da Indonésia, Malásia e Paquistão se dois países do sudeste da Ásia se uniram a um coro global de condenação da medida do presidente dos EUA, Donald Trump.

Centenas de manifestantes reuniram-se na capital do Afeganistão com cartazes, efígies de Trump e pelo menos uma bandeira queimada nos Estados Unidos.

“Morte à América! Morte a Trump e Israel!” entoavam a multidão.

Na capital malaia, Kuana Lumpur, os manifestantes se reuniram diante da embaixada norte-americana, também entoando slogans contra os EUA.

Na Indonésia, maior país de maioria muçulmana do mundo, algumas centenas de manifestantes, em sua maioria vestidos de branco, se congregaram diante da representação dos EUA em Jacarta, capital do país.

Alguns usavam echarpes quadriculadas e erguiam bandeiras palestinas, e outros gritavam “Allahu Akbar” (Deus é o maior).

“Estamos aqui em nome da justiça e da humanidade. Estamos reunidos para defender nossos irmãos e irmãs palestinos”, disse o líder de uma manifestação em Jacarta.

Canhões de água foram posicionados no local, mas o protesto foi pacífico e o número de manifestantes pareceu muito menor do que os 500 a mil que a polícia previu.

Um deles, Yuddy Kurniawan, de 30 anos, disse não estar satisfeito com a reação de seu governo à decisão norte-americana.

“Jokowi pode ser mais duro e pediu um boicote a produtos norte-americanos, por exemplo”, disse, referindo-se ao presidente indonésio, Joko Widodo, por seu apelido.

A embaixada dos EUA em Jacarta aconselhou seus cidadãos a evitarem manifestações e disse que seu consulado em Surabaya, a segunda maior cidade do país, suspendeu os serviços públicos nesta sexta-feira.

Um grupo pequeno de estudantes se reuniu na cidade de Makassar, na ilha indonésia de Sulawesi, e ateou fogo em bandeiras dos EUA e de Israel, noticiou a mídia.

A Indonésia é uma defensora de longa data da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino e testemunhou manifestações a favor dos palestinos nos últimos anos.

Na quinta-feira Widodo exortou os EUA a reconsiderarem sua decisão, e no mesmo dia o primeiro-ministro malaio, Najib Razak, pediu aos muçulmanos de todo o mundo que se oponham fortemente a qualquer reconhecimento de Jerusalém como capital israelense.

Fonte: Reuters

 

Categories
Conflitos Defesa Destaques Equipamentos Mísseis Sistemas de Armas

Japão vai comprar mísseis capazes de atingir Coreia do Norte

Imagem meramente ilustrativa

O Japão vai adquirir mísseis de cruzeiro de médio alcance capazes de atingir a Coreia do Norte, numa compra controversa do que se tornará a arma de maior alcance de um país que se recusou a promover guerras.

O ministro da Defesa, Itsunori Onodera, não se referiu à Coreia do Norte ao anunciar a planejada aquisição e disse que os novos mísseis serão usados para defesa, com o Japão ainda dependendo dos Estados Unidos para atingir bases inimigas.

“Estamos planejando introduzir o JSM (sigla para mísseis conjuntos de ataque) que serão montados nos caças F-35 como mísseis que podem ser disparados além do alcance das ameaças do inimigo”, disse Onodera em entrevista coletiva.

Reuters

Fonte: Terra