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O lado obscuro do “made in Europe”

Marcas de roupas ocidentais se beneficiam de baixos custos de fabricação no Leste Europeu, onde leis são ignoradas, e trabalhadores acabam muitas vezes explorados.

“Eu disse ao meu supervisor que eu não conseguia respirar perto da máquina. Fazia 30ºC na fábrica e, se trabalhássemos próximos dela, ficaria muito mais quente”, conta uma operária do setor têxtil na Sérvia.

O superior virou o tubo de escape da máquina, atingiu com gases os rostos da costureira e de seus colegas de trabalho e disse: “Isso é problema seu. E, se você não aguenta isso, há pessoas suficientes esperando para ocupar seu lugar. A porta é logo ali!”

Outra funcionária relata: “A administração nos pediu que arrecadássemos dinheiro para comprar um aparelho de medir pressão arterial, porque eles mesmos nos ‘tratariam’ e não chamariam um médico se nós desmaiarmos.”

As duas mulheres pediram para não terem suas identidades reveladas – como todos os outros trabalhadores que tiveram a coragem de descrever as condições na indústria têxtil da Sérvia em um estudo realizado pela Clean Clothes Campaign (CCC), uma ONG que visa melhorar as condições de trabalho na indústria de vestuário.

Fábrica na Sérvia: condições de trabalho precárias no setor têxtil

Na Sérvia, muitos têm medo de perder seus empregos, num país onde a taxa de desemprego geral é de 16% – entre os jovens, chega a 30%. Na Sérvia, os empregos bem remunerados estão no setor público, e a contratação é baseada em conexões e afiliação política.

Os trabalhadores da indústria têxtil, em particular, são forçados a aceitar condições de trabalho desumanas e a tirania de superiores, numa indústria predominantemente controlada por empresas estrangeiras que fabricam roupas para o mercado da Europa Ocidental.

Prevalece o ambiente de medo: há ameaças constantes de demissão, e os empregadores negam aos trabalhadores o direito de tirar férias.

“As trabalhadoras relatam que são tratadas como máquinas ou escravas, e não como seres humanos. Os superiores gritam com elas, e o assédio sexual faz parte da vida cotidiana”, afirma Bettina Musiolek, coordenadora do CCC para a região oriental e sudeste da Europa.

Os casos de abuso acontecem em empregos que pagam menos que o salário mínimo do país e nos quais horas extras não são necessariamente remuneradas. O salário mínimo legal na Sérvia é de 278 euros (pouco mais de mil reais), mas uma família de quatro pessoas precisa de ao menos 652 euros (cerca de 2.500 reais) mensais para se sustentar.

As mulheres que trabalham na indústria têxtil ganham em média 202 euros (775 reais), na indústria de couro e calçado, 227 euros (870 reais). O setor emprega cerca de 100 mil trabalhadores na Sérvia, o que equivale a aproximadamente 8% da força de trabalho no país.

As condições da indústria de vestuário sérvia não são diferentes de outros países com baixo-custo de fabricação.

“Para as marcas de moda globais, países do Leste e do Sudeste da Europa são paraísos com baixos salários”, dizem os autores do estudo. Varejistas bem conhecidos, como H&M, Benetton e Esprit, ou mesmo marcas de luxo como Louis Vuitton, Prada ou Versace fabricam seus caros produtos em fábricas de baixo custo.

As sweatshops europeias são conhecidas por seus trabalhadores baratos, mas experientes e qualificados. Em regra, pagam aos trabalhadores – a maioria deles mulheres – o salário mínimo legal, que varia de 89 euros (cerca de 340 reais) por mês na Ucrânia a 374 euros (cerca de 1.430 reais) na Eslováquia.

A fim de garantir o sustento de uma família e permitir que a remuneração atenda as necessidades básicas, os salários deveriam ser de quatro a cinco vezes maiores.

Mesmo marcas de luxo como Dolce&Gabbana têm interesse em construir linhas de produção no leste europeu

“Made in Europe”

Muitas marcas escrevem “Made in Europe” ou “Made in EU” em suas etiquetas, sugerindo que as roupas foram produzidas sob condições justas, mas, “na realidade, muitos dos 1,7 milhão de trabalhadores de vestuário da região vivem na pobreza”, revela o estudo da CCC.

“Às vezes, nós simplesmente não temos nada para comer”, frisa uma mulher em uma fábrica de têxteis na Ucrânia. Um trabalhador na Hungria diz: “Nossos salários são apenas suficientes para pagar pelo aquecimento de nossas casas e serviços públicos.”

Essas condições só são possíveis em um ambiente que favorece o empregador. “É essencialmente uma zona livre de sindicatos. Ninguém representa efetivamente os interesses dos trabalhadores”, diz Musiolek.

Os governos também dão às empresas estrangeiras subsídios diretos e indiretos. Na Sérvia, por exemplo, as companhias recebem altos subsídios, terrenos abaixo do valor de mercado ou mesmo gratuitos, isenções fiscais e infraestrutura gratuita. Além disso, os governos “estabelecem salários mínimos muito baixos”, ressalta Musiolek.

Stefan Aleksic, um dos autores do estudo, afirma que uma corrida econômica está em andamento no sudeste da Europa. “Muitas nações pobres cercam a Sérvia e todos estão lutando pelos mesmos investimentos. Um clima de competição surgiu: quem oferecerá aos investidores estrangeiros melhores condições para fabricar de forma barata?”, diz.

O resultado é devastador. “O Estado financia a manutenção de uma economia atrasada.”

Apesar de tudo, a Clean Clothes Campaign não exige um boicote às empresas envolvidas. “Os trabalhadores continuam nos dizendo que precisam desses empregos. Eles deveriam ser pagos adequadamente, e as condições de trabalho deveriam ser ajustadas para atender aos padrões da União Europeia”, defende Musiolek.

Fonte: DW

Edição: Plano Brasil

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Conflitos Destaques Geopolítica Opinião Rússia Síria

Opinião: Putin se alia ao Irã, mas não contra Arábia Saudita

Continuidade de Assad no poder é símbolo de vitória para o Kremlin. Agora, porém, é hora de se retirar da Síria para não ficar no centro de um confronto entre Arábia Saudita e Irã, opina jornalista Konstantin von Eggert.

Assad se encontra com Putin em Sochi

O êxito do Kremlin – temporário, talvez, como costuma ser no Oriente Médio – surpreende muitos, inclusive o próprio autor destas linhas. Esse sucesso se deve, em primeira linha, à fraqueza dos EUA, que sob o governo de Barack Obama se retirou de fato da região.

Putin é um oportunista, um mestre quando se trata de preencher o vácuo político. Ele desenvolveu e implementou o conceito de Yevgeny Primakov [diretor da inteligência estrangeira russa, ministro do Exterior e primeiro-ministro sob Boris Yeltsin] sobre uma cooperação estratégica com o Irã.

Consta que o falecido Primakov acreditava que o programa nuclear iraniano não era um perigo para a Rússia. Sua tese era de que, caso o regime fundamentalista arriscasse um conflito com Moscou, no lugar de Teerã restaria uma grande cratera produzida por uma explosão. Vendo de outra forma, o regime fortemente antiamericano no Irã está em linha com os interesses do Kremlin: provocar o maior número de problemas possíveis para os odiados americanos.

Em três anos, o Kremlin ajudou os mulás de Teerã a realizar o sonho do aiatolá Khomeini – criar uma região controlada pelo Irã, de Bagdá a Beirute. O regime alauita do ditador Bashar al-Assad é uma peça-chave na esfera de influência iraniana. Depois de uma tomada de poder na prática no Líbano, este mês, pelos agentes de Teerã – o grupo islâmico Hisbolá –, o Irã pode falar de uma grande vitória geopolítica.

Então, por que Putin falou, ao receber Assad em 21 de novembro em Sochi, de um fim rápido da fase militar da missão na Síria, assegurando que somente permanecerão no país os militares russos necessários para garantir a funcionalidade e a segurança das bases em Tartus e Latarkia?

Não é a primeira vez que o presidente russo anuncia uma redução de contingente. Ainda não se sabe se a prometida retirada vai realmente acontecer. Sem o forte apoio aéreo russo, as forças fiéis a Assad não são muito eficazes.

Mas, na realidade, parece-me que Putin quer reduzir o papel da Rússia na região para não estar no centro de um futuro confronto entre a Arábia Saudita e o Irã. Além disso, contra Israel, que pode se aliar à Arábia Saudita. Os laços entre os dois países estão se fortalecendo. Sob o governante de facto do reino saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que é fortemente anti-iraniano, fala-se de um possível estabelecimento de relações diplomáticas com Israel. Os sauditas e os israelenses não fazem nenhum segredo de que veem Teerã como um perigo existencial.

Moscou não quer tomar partido nessa disputa, mas Assad também não pode ser abandonado. A sua continuidade no poder é o principal símbolo da vitória do Kremlin e da transformação de Putin num líder informal de uma coalizão antiamericana de regimes autoritários. É justamente por isso que Putin foi o primeiro líder russo da história a receber um rei saudita em Moscou. O Kremlin procura melhorar suas relações com os sauditas, antes que os EUA “retornem” ao Oriente Médio e desafiem o Irã, ao lado de israelenses e sauditas.

Há também razões políticas internas para o anúncio do fim da operação síria, mesmo que, na realidade, isso ainda esteja muito distante. Primeiro, aumentou a necessidade de anunciar uma “vitória” antes das chamadas “eleições presidenciais” na Rússia em 2018. Em segundo lugar, as finanças estatais não estão nas melhores condições e é melhor economizar. Em terceiro lugar, Putin quer se concentrar em outras áreas – a Ucrânia, a resistência contra novas sanções e a manutenção do controle político sobre a própria Rússia.

Putin quer sair da Síria como vencedor. Mas não haverá solução política e uma guerra civil é possível a qualquer momento. Com a ajuda dos EUA, os curdos poderão proclamar seu próprio Estado. Ou a atuação agressiva do Irã poderá levar Israel a ações resolutas.

Konstantin von Eggert

Depois de se aliar ao regime em Teerã, o Kremlin terá que compartilhar com esse não somente as vitórias, mas também as dificuldades. A reunião em Sochi não é um ponto, mas uma vírgula na política de Moscou para o Oriente Médio.

  • Konstantin von Eggert é comentarista e moderador da emissora independente de TV russa Dozhd.

Fonte: DW

 

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Acidentes e Catástrofes América do Sul Defesa Destaques Meios Navais Navios Sistemas de Armas Sistemas Navais

Demora em associar ruído a submarino que desapareceu causa polêmica na Argentina

ARA San Juan – submarino TR-1700 da Armada Argentina

A pista mais concreta sobre o submarino argentino que desapareceu na semana passada, com 44 pessoas a bordo, foi fornecida pela Organização do Tratado de Proibição Completa dos Ensaios Nucleares (OTPCE), com base em Viena, na Áustria. No dia 15 de novembro, duas estaçoes hidro-acústicas detectaram “um sinal incomum”, produzido três horas após a última comunicação da tripulação com a base e a 48 quilômetros do local onde o submarino estava.

As duas estações, que registraram um ruído “consistente com o de uma explosão debaixo da água”, ficam na ilha britânica de Ascenção, no Atlântico, e o arquipélago francês de Crozet, ao sul do Oceano Índico. Ambas formam parte de uma rede internacional, montada pelos membros da OTPCE, para monitorar a realização de testes nucleares que possam ameaçar a paz mundial.

As informações dessas estações foram cruzadas com outras, obtidas pela megaoperação de busca e resgate, da qual participam 12 países, além da Argentina. A conclusão, divulgada pela Marinha argentina nessa quinta-feira (23) de manhã, foi de que houve uma explosão no submarino. Navios e aviões foram mobilizados para buscar o ARA San Jose no local indicado pelos sensores, mas as esperanças de encontrar alguém com vida são pequenas. Um submarino só tem capacidade para armazenar oxigênio durante oito dias. Depois, precisa subir à superfície para renovar o ar – coisa que, tudo indica, não ocorreu.

“Foi uma explosão pequena. Não estou dizendo que o submarino explodiu totalmente. Mas, pela localização e a hora (da explosão), é possível que esteja relacionado ao submarino argentino”, disse o secretário-geral da OTPCE, Lassina Zerbo. Em sua conta no Twitter e em entrevistas, ele respondeu às perguntas que muitos fizeram: por que tanta demora em associar um ruído, emitido no dia 15 de novembro, ao submarino, desaparecido no mesmo dia?

Zerbo explicou que, ao contrário do que muitos pensam, o fundo do mar não é silencioso, está cheio de ruídos. “Um volume enorme de dados foi examinado para obter as pistas do submarino perdido”, escreveu. “Milhares de sinais possíveis e sons tiveram que ser examinados, para descartar ruídos naturais (como os das baleias) e industriais”.

O embaixador argentino na Áustria, Rafael Grossi – que também é especialista em temas nucleares – explicou que recorreu à OTPCE porque sabia que a organização tinha os meios para detectar anomalias no fundo do mar. As estações dão sinal de alerta quando há uma atividade nuclear, mas – a pedido do governo argentino – foi realizada uma revisão dos dados coletados na semana passada. Com isso, identificou-se não apenas a explosão, mas também o local exato e a hora em que aconteceu: às 11h 51m (horário de Brasília), a 48 quilômetros ao norte do local onde o submarino estava, quando se comunicou com a base três horas antes.

Navios, aviões e até um mini-submarino norte-americano foram mobilizados para vasculhar a área, a 432 quilômetros da costa argentina, na altura do Golfo de São Jorge. Dependendo do local, a profundidade das águas pode variar entre 200 e 3 mil metros. “Estamos em uma corrida contra o tempo para salvar vidas”, disse Zerbo que, a exemplo do porta-voz da Marinha argentina, Enrique Balbi, e de especialistas consultados pela imprensa argentina, não dão o episódio por encerrado até encontrar o submarino.

Busca do submarino por via aérea realizada pela Marinha argentina

Algumas famílias dos 44 tripulantes ainda guardam alguma esperança e continuam na base naval de Mar del Plata, onde o submarino deveria ter chegado na segunda-feira (20). Do lado de fora, bandeiras, cartazes e correntes de orações, em solidariedade aos tripulantes desaparecidos. Afinal, ao longo dos últimos oito dias, houve vários alarmes falsos. Mas a “anomalia acústica”, detectada primeiro pelos Estados Unidos na quarta-feira (22) acabou sendo confirmada no dia seguinte pela OPTCE. Muitos reagiram com raiva e indignação à notícia, acusando o governo de ter escondido a verdade durante uma semana: nos primeiros dias, falavam em uma falha elétrica, e nunca numa explosão.

A operação de busca do submarino reuniu países que, em outros tempos, jamais fariam uma patrulha conjunta. A começar pelo Reino Unido, que derrotou a Argentina na guerra de 1982 pela posse das Ilhas Malvinas. O território, considerado “em disputa” pelas Nações Unidas, ainda é reivindicado pelo governo argentino, que até recentemente tem denunciado a presença militar britânica no Atlântico Sul. Além do Reino Unido, da França e da Noruega, vizinhos (como Brasil, Chile, Uruguai e Peru), e potências antagônicas (Estados Unidos e Rússia) estão cooperando na busca do submarino.

O caso do ARA San Juan tem sido comparado com o desaparecimento do submarino russo Kursk, há 17 anos. Ele sofreu uma explosão no compartimento de armas, quando navegava no Oceano Ártico. Alguns dos tripulantes conseguiram se refugiar em um compartimento da embarcação e emitir sinais de socorro, durante 48 horas. Mas a Rússia – ao contrário da Argentina – demorou uma semana para aceitar ajuda internacional, para não revelar “segredos militares”. Na tragédia, morreram 118 pessoas.

O submarino argentino não é nuclear – é movido por baterias elétricas e usado para patrulhar a costa e as atividades de navios de pesca piratas. O ARA San Juan foi construído nos anos 1980 na Alemanha e reformado em 2014 para ampliar sua vida útil por mais 30 anos.

Fonte: Agência Brasil via, Jornal do Brasil

Edição: Plano Brasil

 

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Aviação Defesa Estados Unidos Opinião Rússia Sistemas de Armas Tecnologia

Novo bombardeiro dos EUA ‘B-21 Raider’ conseguirá romper defesa da Rússia

O novo bombardeiro norte-americano B-21 não só garantirá a superioridade aérea aos EUA, mas também será capaz de ultrapassar a defesa antiaérea russa, informa o Stern.

Planeja-se que EUA obterão cerca de 100 aviões deste tipo em breve, afirma o autor do artigo Gernot Kramper.

Nos últimos tempos a “superioridade norte-americana” aérea era questionada por causa da existência de sistemas avançados da defesa antiaérea como os S-400 russos, informa o jornal alemão Stern.

Agora os EUA estão desenvolvendo o novo bombardeiro estratégico pesado B-21 que conseguirá ultrapassar a defesa russa.

O desenvolvimento do bombardeiro tem um caráter completamente secreto. O objetivo final, é que o B-21 deve ser capaz de efetuar um ataque a qualquer objeto em qualquer lugar e a qualquer hora, afirma a publicação.

De acordo com o observador do Stern, os desenvolvedores aparentemente conseguiram alcançar um avanço na tecnologia stealth. “O novo B-21 deve ser uma resposta ao avanço no campo da tecnologia de radar e mísseis terra-ar”, diz Stern.

De acordo com Kramper, o Pentágono pode ganhar em uma batalha dos “bombardeiros contra radares” com o seu novo B-21.

“Qualquer radar terá problemas em detectá-lo”, sublinha o autor do artigo.

O novo bombardeiro norte-americano já recebeu o apelido de Raider. Até meados de 2020, devem entrar de 80 a 100 B-21 para o serviço da Força Aérea dos EUA, disse o jornalista alemão.

Fonte: Sputnik

 

 

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América do Sul América Latina Brasil Economia Geopolítica Negócios e serviços

México e Brasil – Dois gigantes de costas um para o outro

México e Brasil respondem por 60% do PIB da América Latina, mas a relação comercial bilateral continua muito aquém de seu potencial

RICARDO DELLA COLETTA

México e Brasil respondem, juntos, por mais de 60% do PIB da América Latina e metade da população. São os dois países mais industrializados da região, mas se mantiveram distantes durante todo o século XX e início do XXI: só 2% das exportações brasileiras têm como destino o México e as vendas mexicanas ao Brasil somaram menos de 1% do total das exportações. As crescentes dúvidas sobre o futuro do Tratado de Livre Comércio da América do Norte(Nafta, na sigla em inglês), que une México, Estados Unidos e Canadá há mais de duas décadas, e a necessidade mexicana de buscar novos parceiros comerciais, abre uma porta, ainda incerta, para o entendimento.

Por que dois países decisivos para o desenvolvimento econômico da América Latina se dão as costas? O isolamento histórico das duas principais economias regionais tem origem, segundo todos os especialistas em comércio internacional consultados pelo EL PAÍS, em sua percepção histórica como concorrentes e não tanto como parceiros. Mas México e Brasil aceleraram sua aproximação comercial nos últimos anos; uma convergência de interesses que, segundo apontam os especialistas em comércio internacional, tem boa perspectiva.

Em meio à turbulenta renegociação do Nafta — em que, por momentos, a ruptura parece o desenlace mais provável —, o México precisa urgentemente diminuir sua dependência do vizinho do norte. Uma necessidade que coincide com a mudança política ocorrida no ano passado em Brasília, depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O Governo de Michel Temer definiu como prioridade desenvolver uma política comercial mais aberta e trabalhar para desbloquear acordos que vêm sendo negociados há anos, como o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Embora sempre em segundo plano, o México também está no radar.

“Em pleno século XXI as duas grandes potências latino-americanas ainda não têm um esquema de livre comércio, mas agora veem a necessidade de aproximar-se”, afirma Ignacio Bartesaghi, diretor do Departamento de Negócios Internacionais e Integração da Universidade Católica do Uruguai e um dos maiores especialistas em comércio internacional do subcontinente. “Além disso, uma convergência entre a Aliança do Pacífico [de que o México faz parte, junto com Colômbia, Peru e Chile] e o Mercosul só é possível se ambos os países fecharem um acordo comercial profundo”, conclui.

Apesar de insuficiente, a relação comercial entre México e Brasil experimentou um forte crescimento os últimos anos. De acordo com os dados do Ministério de Indústria, Comércio Exterior e Serviços do Brasil, as exportações mexicanas ao Brasil passaram de 754 milhões de dólares em 2000 para 3,50 bilhões de dólares no ano passado. No sentido inverso, as vendas brasileiras para México totalizaram 3,8 bilhões de dólares em 2016, há 16 anos somavam 1,7 bilhão de dólares.

Esse crescimento recente está estreitamente relacionado com a assinatura, em 2002, do Acordo de Complementação Econômica. O pacto reduziu as tarifas para mais de 800 produtos e marcou o caminho a seguir. Ao Brasil interessa, sobretudo, abrir novas vias para a exportação de produtos agrícolas à segunda maior economia da América Latina e lhe poder competir de igual para igual com os EUA no mercado mexicano. Hoje, a maior potência mundial é, de longe, o principal vendedor de matérias-primas alimentares para o México. Boa parte de produtos como milho, soja, açúcar e carne consumidos no país latino-americano procede do vizinho do norte. E em todos os casos, principalmente se se concretizar o pior dos cenários no Nafta, o Brasil pode substituir o gigante norte-americano — pelo menos parcialmente — com sua produção.

“O Brasil é o quinto maior exportador mundial de alimentos, uma ruptura do tratado seria uma grande oportunidade para ambos os países”, afirma Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o braço das Nações Unidas para o desenvolvimento na região.

Por outro lado, o México tem um dos parques industriais mais desenvolvidos do mundo e condições perfeitas para exportar, a preços competitivos, muitos produtos manufaturados que o Brasil importa. “O México tem uma competitividade enorme nas compras que hoje o Brasil realiza de parceiros como China, Japão e Argentina”, argumenta Bartesaghi.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que qualquer aproximação entre as duas nações tenderá a ser gradual. O grau de interdependência entre México e EUA torna impensável a existência de uma alternativa comercial da mesma magnitude para o México. Menos ainda no curto prazo. Mas a retórica de Donald Trump com relação ao Nafta acendeu todos os alertas na capital mexicana e reavivou a necessidade de buscar alternativas para sua enorme dependência da maior potência mundial. “Não que o México queira substituir tudo o que importa dos EUA, mas pelo menos envia o sinal de que pretende diversificar sua matriz comercial”, acrescenta Bartesaghi, que enquadra nesse mesmo esforço os crescentes contatos do México com União Europeia, Coreia do Sul e Argentina.

“Se o Nafta se debilitar, pode-se abrir uma porta para que o México aumente as compras dos produtos industriais que tradicionalmente adquire do Brasil e também de soja, milho, açúcar e carne”, aponta Andréia Adami, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo. “É lógico que o México trabalha para reduzir a dependência dos EUA, mas não é algo que vá acontecer de um dia para outro”.

Fonte: El País

Edição: Plano Brasil

 

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Conflitos Destaques Geopolítica Rússia Síria

Putin leva conflito sírio ao campo político

Sem Moscou, Assad não teria vencido “Estado Islâmico”. Mas isso tem seu custo. Presidente russo tenta, agora, entrar no terreno diplomático – e estabelecer uma nova ordem no Oriente Médio conforme os interesses russos.

Bashar Al-Assad se encontra com Vladimir Putin em Sochi, na Rússia

 

O presidente russo, Vladimir Putin, recebeu nesta semana o ditador sírio, Bashar al-Assad, e os líderes de Irã e Turquia, em encontros que confirmam o papel cada vez mais influente de Moscou no Oriente Médio – e a intenção de levar o conflito sírio do patamar militar ao político.

Em pauta em Sochi, no Mar Negro, esteve a guerra civil síria, que parece estar se aproximando do fim em meio aos constantes avanços obtidos contra o “Estado Islâmico” – em grande parte graças ao apoio militar russo.

Na terça-feira (21/11), na reunião com Assad, transmitida pela TV russa, a atmosfera descontraída, mas ao mesmo tempo concentrada na mesa de negociações, confirmou a impressão de uma cooperação consensual e bem-sucedida.

Foi um sinal importante para as conversas sobre a Síria, realizadas no dia seguinte também em Sochi, entre Putin e os presidentes do Irã, Hassan Rohani, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Diante da diminuição do interesse americano pela região, Putin está incorporando cada vez mais o papel de mediador – ou novo “arquiteto” do Oriente Médio, como avaliam alguns especialistas.

Guerra em nova fase

Foi principalmente para Rohani e Erdogan que se dirigiu a observação de Putin durante o encontro com Assad, de que a guerra na Síria entra agora numa nova fase. Os esforços conjuntos na luta contra o terrorismo, afirmou o líder russo, estão chegando ao fim.

“Agora, chegou a hora de iniciar o processo político”, disse Putin, ressaltando que, para tal, Assad seria o parceiro ideal. “Estou contente que você esteja disposto a trabalhar com qualquer um que queira a paz e uma solução para o conflito”, afirmou o chefe do Kremlin ao ditador sírio.

Essa frase foi um ao mesmo tempo um compromisso e uma advertência: um compromisso de Putin junto a Assad e uma advertência para que o líder sírio não fracasse nos consensos e discussões a se seguir. Assad deve ter entendido o recado: ele deve a sua sobrevivência política principalmente à intervenção russa, pois sem as armas e as forças militares de Moscou, ele já teria deixado o poder há anos.

Foi por isso que Assad também aceitou que a Rússia tentasse realizar em Sochi, em 18 de novembro último, um “Congresso Sírio para o Diálogo Nacional”. Um total de 33 grupos e partidos políticos da Síria chegou a ser convidado, inclusive das fileiras da oposição – um sinal claro de que a Rússia está disposta a levar o conflito para o nível político.

Para Moscou, esse passo é um enorme alívio militar e econômico. De acordo com o jornal Krasnaya Zvezda, publicado pelo Ministério da Defesa em Moscou, a Força Aérea russa realizou quase 31 mil voos sobre o espaço aéreo sírio até 20 de setembro deste ano, efetuando 92 mil ataques aéreos.

Esse engajamento saiu caro para a Rússia. De acordo com a agência russa de notícias Tas, entre setembro de 2015 e meados de março de 2016, cada dia de missão custou aos cofres russos 2,8 milhões de dólares. Isso explica, em parte, o interesse de Putin em pacificar a Síria – e explica por que ele queria convidar tantos grupos de oposição.

Fonte: DW