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Ano de 2016 foi terrível

Guerras no Oriente Médio, terrorismo, Brexit, avanço do populismo, militarismo russo e a eleição de um presidente imprevisível nos EUA marcaram um ano difícil.

Também 2016 foi um annus horribilis, um ano terrível. O mundo entrou em desordem: no Oriente Médio ocorrem guerras terríveis – na Síria, no Iêmen, na Líbia, e, de forma velada, no Iraque. O chamado “Estado Islâmico”, o horror do terrorismo fundamentalista, assassino e brutal, ainda não foi derrotado. Os brotos tenros da Primavera Árabe foram pisoteados por autocratas, déspotas, ditadores. E isso causa impacto na própria região, que pode se tornar o epicentro de uma explosão política e social que abale o mundo. Parece que o Oriente Médio pode afundar numa guerra dos 30 anos, em que clãs, tribos e comunidades religiosas se combatem duramente.

A Europa, a cujas margens chegam os refugiados do Oriente Médio, também está abalada. A crise dos refugiados deixou claro que a “solidariedade europeia” é, na melhor das hipóteses, uma expressão bonita, sem efeitos práticos na política. Foi o Brexit, a despedida anunciada do Reino Unido da União Europeia, porém, que mergulhou a comunidade numa profunda incerteza. Um projeto de união propulsor da paz está com seu futuro em jogo – e a comunidade europeia se pergunta onde tudo isso vai parar. E já agora é certo que, além do caminho de retorno à autodeterminação e à identidade do Estado-nação adotado pelo Leste Europeu, também na Europa Ocidental as relações de poder vão mudar no próximo ano: na Holanda, provavelmente com Geert Wilders, e a França definitivamente terá um novo presidente – provavelmente um católico “thatcherista”, o que já será uma revolução.

E também na Alemanha, que atualmente aparece como o lar da estabilidade, haverá eleições em setembro. Neste momento, ninguém consegue realmente imaginar que Angela Merkel – seja em qual for a coalizão – deixe de ser chanceler. Ela é uma fortaleza perante os altos e baixos da política internacional, e isso há mais de 11 anos. Mas também neste país os populistas de direita do partido nacional-egoísta Alternativa para a Alemanha (AfD) conseguirão entrar no parlamento – com mais votos do que muitos gostariam. Também na Alemanha o pensamento e a ação de direita ganham popularidade, mesmo que não o suficiente para a tomada de poder. A Alemanha permanecerá sendo governada estavelmente. E, por isso, é uma boia de salvação na intempestiva e intranquila política mundial. E isso apesar de o ataque terrorista em Berlim ter abalado o país profundamente, pouco antes do Natal.

A próxima incerteza: nos EUA, Donald Trump vai governar. Será ele um presidente previsível? Como o empresário vai encarar a política externa? Ele vê as relações exteriores como um “negócio” ou uma arte diplomática? Ele vai se encaixar na política global como uma potência líder ou não? E, acima de tudo, ele se entende como parte do Ocidente – ou ele só vê e só aposta no Make America great again? É aqui que 2017 já lança suas sombras.

O ano de 2016 também trouxe um notável renascimento da Rússia e de Vladimir Putin no palco político internacional. A Rússia não é uma potência regional, como o presidente Barack Obama disse certa vez, de forma depreciativa. A Rússia se envolve no Oriente Médio e na Europa. E, sobretudo, Moscou aposta em soluções militares em vez de diplomacia, usa a violência de forma deliberada e cínica.

Na Síria ou em conflitos “congelados”, como no leste da Ucrânia. O retorno da Rússia ao cenário mundial é também o retorno das operações militares na política mundial, para garantir influência e poder. A isso, o Ocidente – caso ainda exista como uma unidade no “ano um” de Trump – terá que dar uma resposta. Inclusive a Alemanha, que tradicionalmente tem suas reservas quanto a intervenções.

Alexander Kudascheff

  • Alexander Kudascheff é o editor-chefe da DW

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

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Conselho de Segurança da ONU endossa cessar-fogo na Síria mediado por Rússia e Turquia

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas adotou neste sábado uma resolução que endossa o cessar-fogo na guerra civil da Síria mediado por Rússia e Turquia.

A Rússia, que apoia o presidente sírio, Bashar al-Assad, e a Turquia, aliada dos rebeldes armados que lutam contra as forças do governo, anunciaram esta semana o terceiro cessar-fogo do ano em busca de terminar o conflito de quase seis anos na Síria.

A resolução também saudou os planos para conversações a serem realizadas em Astana, no Cazaquistão, entre o governo sírio e a oposição, antes da retomada de conversas mediadas pela própria ONU em Genebra, em fevereiro.

Em declarações após a votação no Conselho de Segurança, diversos delegados disseram que o órgão saudou o cessar-fogo, mas disseram que o acordo contém áreas cinzentas e que sua implementação é frágil.

Yeganeh Torbati

Foto: Mark Lennihan / AP – Foto de arquivo / Conselho de Segurança 

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Reuters

Presidentes de Rússia e Irã concordam em manter trabalho conjunto por paz na Síria

O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente iraniano, Hassan Rouhani, concordaram em uma conversa por telefone nesta sábado em continuar o trabalho em coordenação próxima para tentar encerrar o conflito na Síria, informou o Kremlin em comunicado.

Os dois líderes concordaram sobre a importância do novo acordo de cessar-fogo na Síria mediado por Rússia e Turquia e dos planos para conversações de paz na capital do Cazaquistão, Astana, de acordo com o Kremlin.

Rússia e Irão são apoiadores firmes do presidente sírio, Bashar al-Assad, no conflito sírio, enquanto a Turquia apoia os rebeldes armados que lutam contra as forças do governo.

Polina Devitt

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Reuters

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EUA preparam sua maior operação militar na Europa desde a Guerra Fria

Cerca de 20 veículos de combate Bradley, limpos demais para terem circulado recentemente, aguardam sob o frio sol do Colorado (EUA).

A poucos metros, em um enorme pátio perto de Cheyenne, uma das Montanhas Rochosas, o capitão Musk passa em revista um grupo de contêineres coloridos carregados de material militar.

Dentro de poucas semanas, os veículos blindados e os imensos depósitos metálicos estarão em solo europeu. Assim como os quase 4.500 soldados norte-americanos procedentes da base de Fort Carson, que serão posicionados a partir de janeiro nos países do Leste Europeu, incluindo as nações bálticas.

Este é o maior deslocamento de tropas norte-americanas e armamento pesado na Europa desde a Guerra Fria. Tem por objetivo reforçar a região diante do expansionismo russo e mostrar o compromisso de Washington com seus aliados da OTAN.

O início da missão coincidirá com a chegada à Casa Branca do novo presidente, Donald Trump, que não apenas questionou a responsabilidade dos Estados Unidos com a aliança militar atlântica mas também tem inquietado muito seus parceiros que fazem fronteira com a Rússia por causa de sua afinidade com o presidente Vladimir Putin. Mas em Fort Carson – que o EL PAÍS visitou a convite da missão norte-americana na OTAN – nem Musk, com seu luminoso sorriso de jovem americano, nem seus superiores fazem cara feia para a postura do republicano. “Nada mudou. O compromisso e o ânimo das tropas é exatamente o mesmo”, afirma, sério, o sargento-major David Gunn. Seu objetivo, segundo o tenente-coronel Stephen Capehart, é triplo: verificar sua competência para lançar na Europa uma brigada blindada, reforçar a capacidade de trabalhar com as forças aliadas e “contribuir para a defesa coletiva frente a toda ameaça”.

E essa ameaça é a Rússia. No jargão militar e da OTAN dizem que o propósito da missão é “tranquilizar” os membros da Aliança na região, antigos membros da União Soviética e países satélites: Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia, România, Bulgária. Mas “tranquilizar” quer dizer, basicamente, dissuadir o Kremlin das tentações de violar a integridade de qualquer um desses Estados após a anexação da Crimeia pela Rússia e a guerra no leste da Ucrânia, que terá seu terceiro aniversário em fevereiro. A missão é também uma demonstração de força do Exército norte-americano, que, além de seus soldados, levará ao território europeu mais de 2.8000 veículos militares – incluindo os agora adormecidos Bradley, mais de 80 tanques e vários trailers – e milhares de armas de fogo.

Em Fort Carson, é hora do terceiro batalhão de combate da 4a brigada de infantaria – o que foi destacado para a Europa – fazer seu treinamento indoors. E os soldados desse que ficou conhecida como Brigada de Ferro provavelmente agradecem. São 6h e o termômetro não passa dos 12 graus negativos. No ginásio, em ritmo de música bate-estaca, o tenente David Hart levanta pesos. Mesmo assim, sua camiseta do Exército americano continua limpa. “A segurança europeia é nossa segurança”, afirma. Alto e com os cabelos bem curtos, esse especialista em engenharia de 29 anos conta que todo o batalhão viajará para a Polônia para depois se deslocar, por companhias, pelo resto dos países da região, onde farão treinamentos junto com as tropas aliadas no que serão os maiores exercícios da história recente da OTAN.

Hart será posicionado na Romênia. A soldado Abrianna Archuleta ficará na Polônia. Aos 18 anos, é a mais jovem da brigada. Pequena, mas forte, Archuleta foi campeã de luta livre em seu Estado, o Novo México, antes de se alistar, logo depois de concluir seus estudos. É especialista em sistemas de dados táticos e uma das primeiras mulheres na equipe de artilharia de primeira linha. Quer ser enfermeira. Assim como seus companheiros, permanecerá nove meses em seu destino, rotatório. A rotação foi a fórmula encontrada pela OTAN para evitar a proibição acordada com a Rússia de estabelecer bases aliadas permanentes nos países do antigo Pacto de Varsóvia. A missão no Leste Europeu é a primeira de Archuleta. É também a primeira vez que ela vai sair dos Estados Unidos. “Estou muito emocionada”, admite, com um ligeiro sorriso. Não pode dar detalhes técnicos sobre sua função na Polônia, mas ressalta que a missão da Brigada de Ferro, quase centenária, é “ajudar a manter a paz”.

O deslocamento – que tem um orçamento de 3,4 bilhões de dólares – é, até certo ponto, controverso. Não só pela postura do presidente-eleito em relação aos países de destino, a quem ameaça deixar de defender (como estabelece o artigo 5 da OTAN) caso não receba um aumento para o orçamento da Defesa. Há também quem acredite que as manobras são uma certa provocação à Rússia, como o ministro do Exterior alemão, Frank-Walter Steinmeier. O especialista em segurança Paul R. Gebhard, analista dathink tank Atlantic Council, discorda. “Quantos países a Rússia – que mudou suas fronteiras várias vezes nos últimos anos – terá que invadir para ser considerada uma ameaça?”, pergunta, com certa ironia.

No Pentágono, o sub-secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Townsend, já de saída do Governo, reconhece que após a invasão da Geórgia, em 2008, a Rússia foi subestimada. Algo que, destaca, não pode voltar a acontecer. Em Washington, diante de um pequeno grupo de jornalistas europeus, ele afirma que a nova missão – como as outras empreendidas na região – pretende assegurar que “a Rússia ou qualquer outro país” perceba, sem rodeios, que os membros da OTAN se defendem entre si.

O Pentágono, no entanto, não tem dados sobre a opinião dos norte-americanos sobre uma missão em países que muitos nunca ouviram falar, onde não há guerra e frente a uma ameaça que talvez não percebam. Em Colorado Springs, uma pequena enquete com os poucos habitantes que caminham sob a neve mostra um apoio esmagador. Mas a cidade, uma das mais conservadoras do país, reduto fervorosamente republicano em um Estado que apoiou Clinton nas eleições de novembro e capital das igrejas evangélicas, é também sede de quatro bases militares fundamentais. Não por acaso foi cenário do filme Jogos de Guerra.

Em Fort Carson, o sargento Matthew Venn, de 31 anos, finaliza os preparativos para seu deslocamento. Será a quarta missão desse ruivo do Kansas, depois de ter estado duas vezes no Iraque, e ainda no Afeganistão e no Kuwait, como comandante de tanques. “Agora não tem nada a ver. Como desta vez ele não vai para uma zona de conflito, estou muito segura e muitíssimo mais tranquila. Estou até com um pouco de inveja”, brinca, a seu lado, Theresa, sua esposa, veterana e agora professora de crianças especiais. O casal tem três filhos, ocupados com a tarefa de decorar uma das árvores de Natal da base. Apesar de, como os Venn, as famílias dos soldados não estarem tão inquietas com o posicionamento na Europa, o tenente-coronel Capehart insiste que não há diferença entre as várias operações. Assim como Townsend, para quem nenhuma missão é rotineira. “Não estão ali para um desfile militar. Não são uma guarnição. Não estão de férias. Estão ali para combater, se precisarem, embora esperamos que isso não aconteça”.

O SOLDADO DA SORTE VOLTA PARA CASA

Dimitar Dzherikarov ganhou seu Green Card na loteria. Sim, esse búlgaro de 32 anos, participou em 2014 do sorteio organizado pelo Governo dos Estados Unidos para obter o visto de residência permanente e conseguiu. Hoje é cidadão norte-americano e um dos soldados que participará do envio de tropas para o Leste Europeu. Casado e com dois filhos, Dzherikarov serviu no Exército búlgaro. Aliás, em 2005, foi enviado ao Iraque com o 5o batalhão da infantaria. Depois foi policial, até se mudar para os Estados Unidos. Assim que chegou, se alistou na Marinha. “Tive o sentimento de que queria devolver algo, que queria fazer alguma coisa para merecer estar aqui”, afirma.

De certa maneira, está agora voltando para casa, ainda que seu destino principal seja a Romênia. “Estou feliz por regressar à Europa porque sei quem é quem ali. Precisamos tornar nossas forças visíveis e mostrar quem são nossos amigos e que estamos ali por eles”, diz.

MARÍA R. SAHUQUILLO

Foto: 1°- ANGE DESINOR US ARMY – Vários soldados preparam um tanque para transportá-lo para a Europa, em Fort Carson (Colorado), em 2 de dezembro.

2°- M. R. S. – Dimitar Dzherikarov com seus dois filhos. 

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: El País

 

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Obama adota política externa agressiva no fim de mandato

Em suas últimas semanas na Casa Branca, presidente toma decisões drásticas como sanções à Rússia e a abstenção no Conselho de Segurança numa votação sobre Israel. Ele trabalha em seu legado ou quer desafiar Trump?

O presidente Barack Obama deixa a Casa Branca da maneira que entrou, em 2008: no centro das atenções da política mundial. Pouco antes do fim do seu mandato, o presidente cessante mostra que não está interessado em evitar conflitos. Pelo contrário: suas sanções à Rússia não provocaram nenhuma reação direta de Moscou, mas deterioraram ainda mais as relações russo-americanas, um pouco antes da chegada do presidente eleito Donald Trump.

Também as relações com Israel estão em crise depois de os Estados Unidos permitirem, por meio de sua abstenção no Conselho de Segurança, uma resolução da ONU contra a política de assentamentos nos territórios palestinos ocupados.

Surpreende a muitos que Obama, pouco antes do fim de sua presidência, siga uma linha tão agressiva.

O cientista político Patrick Horst, da Universidade de Bonn, avalia que Obama não está interessado no próprio legado ao adotar medidas tão drásticas contra a Rússia e Israel, já que elas não resultam exatamente em legados. “Outros exemplos se prestariam melhor, como o Tratado Transpacífico (TTP, na sigla em inglês) ou o acordo com o Irã. Obama quer sobretudo reiterar suas posições de política externa perante a história”, afirma Horst.

Porém, tanto nas sanções à Rússia como também na resolução na ONU sobre Israel pode haver muita frustração acumulada. “Isso vale principalmente para Israel, já que, no início da presidência, ele fez da solução de dois Estados um grande projeto. Kerry, Obama e também Clinton investiram muito tempo nisso. Isso provavelmente o deixa irritado”, opina Horst.

Salvar o que ainda pode ser salvo

Outra explicação para a partida barulhenta de Obama pode ser que ele deseje concluir algumas coisas que não serão mais possíveis durante o governo Trump. “O governo Obama passou toda a corrida eleitoral com a certeza – na verdade uma ilusão – de que Hillary Clinton seria eleita presidente”, afirma Irwin Collier, diretor do Instituto de Estudos Norte-Americanos John F. Kennedy, da Universidade Livre de Berlim. “Agora, em vez de simplesmente repassar certos problemas de sua presidência à próxima administração, Obama precisa, em pouco tempo, salvar o trabalho político de seus dois mandatos”, acrescenta.

Para Collier, Obama não tinha outra opção a não ser agir na resolução da ONU sobre Israel, tendo em vista os próximos quatro ou até oito anos. “Os EUA tinham a escolha: ou dizer algo agora ou permanecer inativo por todo o tempo em que Trump controlar a política externa”, avalia. No caso das sanções à Rússia, porém, Obama fez um favor para o futuro presidente, opina Collier. “Ele deu a Trump a possibilidade de apresentar Obama como bandido e, a si próprio, como mocinho.”

Não há nada de novo no fato de presidentes americanos que tiveram dois mandatos concentrarem seus dois últimos anos na política externa e no seu legado, diz Horst. Ronald Reagan, por exemplo, chegou a um acordo de desarmamento com Mikhail Gorbatchov em seus dois últimos anos de mandato. Já George W. Bush levou adiante um acordo nuclear com a Índia. “Obama tentou fazer o mesmo, por exemplo com a retomada das relações com Cuba”, afirma Horst.

No entanto, o especialista avalia como algo incomum o fato de Obama terminar sua presidência com um escândalo no Conselho de Segurança da ONU. “Eu não sei se isso já aconteceu antes, é algo realmente incompreensível. Mas Obama tem a fama de, em termos de política externa, ignorar seus assessores. Talvez tenha ocorrido o mesmo desta vez”, avalia.

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

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Em 2016, Brasil trocou de presidente e manteve a crise

No ano que viu o impeachment de Dilma, a queda de Cunha, a derrota do PT nas urnas e uma galeria inédita de políticos presos pela Lava Jato, só a crise continua a mesma. E as perspectivas para 2017 não são animadoras.

“Sei que tivemos um 2015 difícil, mas estou otimista com 2016”, disse a ex-presidente Dilma Rousseff no final do ano passado, após ter enfrentado meses de turbulência política e econômica.

A expectativa de Dilma já soava irreal à época, mas nem mesmo os pessimistas foram tão ousados em imaginar que a política brasileira cairia num abismo tão profundo. Em um espaço de 12 meses, o Brasil viveu o impeachment de um presidente, as maiores manifestações de rua da sua história, a queda do presidente da Câmara, um conflito entre Judiciário e Legislativo e revelações explosivas na Operação Lava Jato, que envolveram centenas de políticos. Tudo isso em meio a um cenário econômico mais e mais precário.

Cada um desses episódios não era exatamente inédito na história brasileira, mas 2016 concentrou crises pontuais que foram observadas em anos tão diferentes como 1992 (impeachment), 1993 (escândalo dos anões do orçamento, que desmoralizou o Congresso) e 2005 (a queda do presidente da Câmara), além de protestos que superaram em tamanho manifestações históricas como as de junho de 2013 e as Diretas Já!, de 1984. Já a economia vive a pior recessão desde a década de 1930.

Impulso da Lava Jato

O maior catalisador de todos esses episódios foi a Operação Lava Jato, cujos membros abandonaram a postura discreta observada ao longo de 2015 para adotar uma imagem pública abertamente combativa na tentativa de forçar mudanças na política, como o lobby pela aprovação do pacote anticorrupção. A nova postura chegou a render críticas, como no episódio da divulgação dos áudios dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma, mas a operação segue, apesar de tentativas do meio político de freá-la.

Tantos acontecimentos mudaram o cenário político brasileiro. Após reinar 13 anos no governo federal, o PT se tornou um partido médio, praticamente incapaz de influenciar a política nacional após sofrer derrotas humilhantes nas eleições municipais. A perda de influência também castigou movimentos sociais ligados às administrações petistas, que não conseguiram convocar manifestações que rivalizassem com as contrárias a Dilma, mesmo diante das reformas propostas pelo novo governo que vão ter impactos pelas próximas décadas.

Prisão de políticos

O antes todo-poderoso Eduardo Cunha (PMDB), um dos mais influentes presidentes que a Câmara já teve, experimentou o auge do seu poder no primeiro semestre, mas terminou o ano na cadeia. Seu sucessor adotou um estilo menos personalista no comando da casa.

A prisão também atingiu outros políticos outrora poderosos, como os ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho – responsáveis por algumas das fotografias mais marcantes do ano – e ex-ministros como Antônio Palocci, Paulo Bernardo e Guido Mantega. A galeria de presos na Lava Jato mereceu uma retrospectiva à parte em alguns jornais brasileiros.

Já o ex-presidente Lula, que foi encarado no início do ano como uma figura que poderia salvar o governo Dilma graças ao seu prestígio e habilidade política, chega ao final de 2016 como réu em cinco ações na Justiça e ameaçado de não poder concorrer nas eleições de 2018. Nos últimos doze meses, o ex-presidente se tornou um alvo preferencial da Lava Jato.

As eleições municipais sinalizaram novas tendências, com campanhas eleitorais mais baratas e o triunfo de candidatos que usaram um discurso antipolítico. Apesar disso, não surgiram lideranças nacionais capazes de trazer renovação para o sistema. O brasileiro continua avaliando mal seus políticos. Segundo pesquisa Datafolha de dezembro, 58% acham os membros do Congresso ruins ou péssimos.

Episódios como a desfiguração do pacote anticorrupção pelo Congresso acentuaram ainda mais o fosso entre os políticos e a população. “A classe política não entendeu que há um nível maior de controle sobre temas envolvendo corrupção ou a conduta política”, afirma o analista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências.

Substituto fraco

Do outro lado, o presidente Michel Temer foi tanto encarado como uma figura capaz de estancar a crise como um fator de desestabilização. Em pouco mais de seis meses, sua administração perdeu seis ministros e passou a ser acossada por acusações de corrupção, arrefecendo a euforia que alguns setores demonstraram com sua ascensão ao palácio do Planalto. Nas últimas semanas, até mesmo partidos aliados do presidente sentiram a fraqueza do governo e começaram a especular se o presidente irá sobreviver a 2017.

“Em vez de encerrar a crise que começou em 2015, Temer, um presidente fraco, está preparando um novo ano de turbulência em 2017”, afirma Thomas Manz, diretor da fundação Friedrich Herbert no Brasil, para quem 2016 foi um ano “horrível” para a política nacional. “O país está numa nova fase de desestabilização”, avalia Manz. “A crise e o impeachment provocaram um efeito devastador no sistema, como se um castelo de cartas tivesse caído. Muitos apostaram que haveria uma normalização após a queda de Dilma, mas a crise só se aprofundou. O sistema está doente e precisa de reforma.”

Guerra entre os poderes

No final do segundo semestre, um novo conflito surgiu, desta vez entre o Judiciário e o Legislativo. A Lava Jato já vinha colocando juízes e políticos em rota de colisão desde o ano passado, mas a atuação do Supremo Tribunal Federal levou essa queda de braço a níveis incendiários em 2016. “Com um Legislativo fraco, o papel do Judiciário cresceu ainda mais ao longo do ano”, afirma Michael Mohallem, professor da FGV Direito Rio.

Em 2016, o STF determinou o afastamento de Eduardo Cunha, uma operação nas dependências do Senado e se envolveu numa malograda tentativa de afastar o presidente da casa parlamentar, Renan Calheiros (PMDB), que também se tornou réu por decisão da corte suprema. Os episódios também revelaram conflitos internos dentro do STF, escancarando rivalidades entre os ministros.

“Depois de um ano desses, fica difícil fazer qualquer previsão. O cenário muda a cada 15 minutos. Só estou seguro que 2016 preparou o terreno para mais turbulência”, afirma Manz.

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

Opinião: O ano em que o Brasil se apequenou

Estruturas democráticas estão debilitadas, e enquanto brasileiros se insultam nas redes sociais, corruptos de todas as ideologias se aliam para salvar a própria pele.

O Brasil começou o ano de 2016 em uma profunda crise política e econômica e vai sair dele ainda mais frágil. A tão esperada recuperação da economia deve ficar para 2018, e o combate à corrupção parece não ter pressa, enquanto os poderes preferem trabalhar em causa própria.

Os ajustes para recuperar a economia brasileira poderiam ter sido feitos já no início do ano, mas o Congresso estava mais interessado em derrubar a presidente. Os primeiros oito meses foram tomados pelo processo de impeachment, até o afastamento definitivo de Dilma Rousseff, em 31 de agosto.

Duas semanas mais tarde viu-se a queda do articulador do impeachment e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, hoje preso em uma penitenciária do Paraná.

Só então a recuperação econômica voltou à pauta. E o preço pago por essa demora foi o avanço do desemprego e uma projeção pífia de crescimento de 0,8% para 2017 – depois de dois anos consecutivos de retração superior a 3% no PIB.

Quem apostava que o afastamento de Dilma Rousseff resolveria a crise política e econômica no Brasil  pôde rapidamente perceber que o problema é complexo e sistêmico, e que aqueles que assumiram o poder após a má gestão da petista são parte do problema.

Isso ficou evidente na forma como a classe política lidou com o pacote de combate à corrupção, principal bandeira dos protestos que levaram mais de um milhão de pessoas às ruas no início do ano. Em um grande acordo entre os maiores partidos do país, PT, PMDB, PSDB e PP boicotaram sistematicamente o projeto e, na calada da noite, enquanto o Brasil lamentava o desastre com o avião da Chapecoense, desvirtuaram a proposta, deixando claro que sua prioridade são os próprios aliados. Uma atitude que não é exatamente inesperada, visto que pelo menos uma centena de políticos são investigados por corrupção.

O pacote anticorrupção foi também pivô na guerra que se estabeleceu entre os poderes Judiciário e Legislativo. Uma disputa que mais uma vez colocou egos e interesses corporativos acima do espírito republicano. O ano testemunhou juízes deixando o Direito de lado para dar vazão ao ativismo, e a mesa diretora do Senado chegou ao ponto de afrontar uma ordem do Supremo Tribunal Federal.

No fim dessa guerra, concluiu-se que Renan Calheiros é ficha suja demais para assumir a Presidência da República, mas pode permanecer na presidência do Senado. Uma crise moral, portanto.

O combate sério à corrupção político-empresarial ficou a cargo da Operação Lava Jato, que, apesar das críticas e possíveis falhas, foi a única até agora capaz de punir políticos e grandes empresários, devolver dinheiro aos cofres públicos e desmantelar um esquema gigantesco que se estabeleceu há décadas no centro do sistema político.

O sucesso da Lava Jato, aliás, ameaça a lua de mel do atual presidente Michel Temer com o Legislativo, ao deixá-lo dividido entre políticos investigados por corrupção e a opinião pública. Até agora, as vitórias sucessivas no Congresso ante a uma aprovação popular de apenas 10% mostram que lado está mais satisfeito com o presidente.

A relação afinada com o Legislativo possibilitou a Temer, nos poucos meses em que assumiu a Presidência, encaminhar reformas de impacto duradouro, como a reforma da Previdência e a PEC do teto dos gastos, de maneira acelerada e controversa.

Ninguém questiona que o Brasil precisa de uma reforma do sistema previdenciário. O que se questiona é como um presidente – que goza de sua própria aposentadoria desde os 55 anos de idade – imagina que um trabalhador braçal terá saúde ou emprego para contribuir durante 49 anos, se quiser ter aposentadoria integral.

Da mesma forma, ninguém questiona que o Brasil precisa equilibrar as contas e aumentar a eficiência da máquina pública. O que não se compreende é por que, em vez de cortar privilégios e supersalários, taxar grandes fortunas e capital improdutivo, o governo resolve congelar justamente os investimentos em áreas-chave para o desenvolvimento, como saúde e educação.

Os acontecimentos do ano foram acompanhados de perto por uma população extremamente polarizada, com discursos acirrados, amplificados pelas redes sociais. E é natural que, em um país tão desigual, a solução para uma parte da população seja vista como um problema para outra.

Só que enquanto boa parte dos brasileiros investe sua energia em debates inócuos e insultos nas redes sociais, políticos corruptos de todas as vertentes e ideologias se aliam em pactos suprapartidários para salvar a própria pele.

Assim, se 2016 mostrou a agonia de um sistema político à beira do colapso, que 2017 possa indicar o caminho de volta ao diálogo. Porque a democracia é isso mesmo que aí está: um constante debate entre pessoas com ideias diferentes, muitas vezes opostas, mas que trabalham juntas para construir um país.

Francis França

  • Francis França editora-chefe da DW Brasil

Foto: Ana Volpe / Senado Federal

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

 

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Solução de dois Estados para conflito no Oriente Médio corre sério risco, diz Kerry

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, alertou nesta quarta-feira que o futuro de uma solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino está em perigo, dizendo que os Estados Unidos não podem ficar em silêncio conforme a violência e a construção de assentamentos israelenses colocam em risco as chances de paz.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reagiu ao discurso acusando Kerry de tendencioso contra o Estado judeu.

Em um discurso feito semanas antes de a administração Obama passar o poder para o presidente eleito Donald Trump, Kerry disse que Israel “nunca terá uma paz verdadeira” com o mundo árabe se não chegar a um acordo que se baseie em Estados próprios para israelenses e palestinos.

“Apesar de nossos melhores esforços ao longo dos anos, a solução de dois Estado está agora sob sério risco”, disse Kerry em discurso no Departamento de Estado. “Não podemos, em sã consciência, não fazer nada, e não dizer nada, quando vemos a esperança da paz desvanecer”.

“A verdade é que as tendências locais –a violência, o terrorismo, a incitação, a expansão dos assentamentos e uma ocupação aparentemente sem fim– estão destruindo a esperança de paz dos dois lados e cimentando cada vez mais uma realidade de um Estado irreversível que a maioria das pessoas de fato não quer.”

Kerry criticou a violência palestina, que disse incluir “centenas de ataques terroristas no último ano”.

Suas palavras de despedida dificilmente irão mudar alguma coisa entre israelenses e palestinos nos territórios ou salvar o histórico de esforços de paz malfadados da gestão Obama no Oriente Médio.

Em um comunicado divulgado em inglês por seu gabinete, Netanyahu disse que Kerry “obsessivamente lidou com assentamentos”, que os Estados Unidos se opõem fortemente, e criticou o secretário de Estado por apenas tocar a “raiz do conflito –oposição palestina a um Estado judeu quaisquer que sejam as fronteiras”.

Os israelenses já estão mirando um horizonte para além de Obama e esperam receber um tratamento mais favorável de Trump, que toma posse no dia 20 de janeiro. O republicano usou sua conta de Twitter nesta quarta-feira para criticar o governo Obama, incluindo sua votação no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e o acordo nuclear que firmou com o Irã no ano passado.

Trump fez lobby contra a resolução da ONU abertamente, e se espera que vete quaisquer outras que sejam consideradas anti-Israel.

No discurso de 70 minutos, Kerry defendeu a decisão norte-americana de, abstendo-se, permitir a aprovação de uma resolução que exige o fim dos assentamentos israelenses, dizendo que ela teve como objetivo preservar a possibilidade de uma solução de dois Estados.

Kerry endossou vigorosamente a medida da ONU e rejeitou a crítica segundo a qual “este voto abandona Israel”.

“Se tivéssemos vetado esta resolução no outro dia, os Estados Unidos estariam dando licença para a construção adicional e irrestrita de assentamentos à qual nos opomos fundamentalmente”, disse Kerry. “Não é esta resolução que está isolando Israel, é a política permanente de construção de assentamentos que cria o risco de tornar a paz impossível”.

Lesley Wroughton / Yeganeh Torbati

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Reuters

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Terroristas do Daesh dissipam mito de invulnerabilidade de tanques alemães Leopard

Os jihadistas do grupo terrorista Daesh (proibido na Rússia e em vários outros países) publicaram na Internet as imagens de carros de combate alemães Leopard 2 destruídos no decorrer dos combates perto da cidade síria de Al-Bab.

Após terem analisado os danos causados a esse material militar, os analistas concluíram que dois veículos de combate passaram sobre minas, enquanto os restantes foram destruídos por canhões antitanque.

O jornal russo Rossiyskaya Gazeta escreveu que, tendo em conta o fato acima mencionado, se pode constatar que “o mito de invulnerabilidade dos tanques alemães Leopard foi dissipado”.

Antes, a Turquia reforçou suas tropas com um batalhão de tanques Leopard 2A4, no âmbito da operação militar na Síria batizada de Escudo do Eufrates e iniciada em 24 de agosto do ano em curso. Segundo foi informado, essa manobra teve por objetivo limpar de terroristas Al-Bab, uma cidade síria de importância estratégica.

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Sputnik News

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Turquia e Rússia acordam cessar-fogo na Síria

Trégua começa a valer a partir da meia-noite, em todo o país. Medida prepara terreno para as negociações de paz entre regime sírio e oposição, previstas para se realizarem no início do ano em Astana, Cazaquistão.

A Turquia e a Rússia fecharam um acordo de cessar-fogo na Síria, que entra em vigor a partir da meia-noite desta quarta-feira (28/12), segundo informações divulgadas pela agência de notícias turca Anadolu.

O acordo visa preparar terreno para que possam ser realizadas negociações políticas de paz entre governo sírio e grupos opositores, previstas para janeiro em Astana, capital do Cazaquistão. Os encontros organizados por Ancara e Moscou ainda não têm data definida.

De acordo com a agência turca, o acordo estende para todo o país o cessar-fogo instaurado em Aleppo no início de dezembro, mas sem incluir os “grupos terroristas”. Como já ocorrido com outros acordos, por exemplo, com os Estados Unidos, o entendimento de quem deve ser considerado “grupo terrorista” pode representar obstáculo a esta nova tentativa de cessar-fogo.

Do ponto de vista Ancara, a milícia jihadista “Estado Islâmico” (EI) e as Unidades de Proteção do Povo (YPG) curdas são responsáveis por atos de terrorismo. Já Damasco e Moscou consideram como terroristas quase todos os grupos contrários ao governo do presidente Bashar al-Assad. A agência turca não especifica quais grupos serão excluídos do novo cessar-fogo.

Desde o início da guerra na Síria, em março de 2011 durante a assim chamada “Primavera Árabe”, Turquia e Rússia estiveram de lados opostos do conflito. Enquanto o posicionamento da Turquia era contrário a Assad, defendendo sua saída do poder, a Rússia sempre esteve do lado das forças do governo sírio.

Após o início da intervenção militar russa no país, em setembro de 2015, e a retomada de Aleppo pelo governo sírio, a Turquia mudou seu posicionamento, passando a cooperar de forma mais estreita com Damasco, ao lado de Moscou, para pôr fim à guerra civil da Síria. O destino de Bashar al-Assad numa futura transição política na Síria permanece controverso entre a Turquia, Rússia, Irã e EUA.

NT/afp/dw/ots

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

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Alta recorde do dólar é ameaça à recuperação industrial dos EUA

O fortalecimento do dólar ressurge como uma ameaça para o setor manufatureiro americano, colocando em risco os lucros obtidos no exterior por empresas exportadoras e complicando as promessas do presidente eleito Donald Trump de sustentar o emprego industrial.

O dólar, que se valorizou fortemente nos últimos dois anos, atingiu o nível mais alto em 14 anos após a eleição de Trump e a decisão recente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, de aumentar a taxa básica de juros.

É certo que o fortalecimento do dólar sinaliza um otimismo cada vez maior com relação à economia americana num momento em que o mercado de ações também atinge novos recordes. Perspectivas de inflação mais alta e elevação das taxas de juros incentivam o investimento em ativos do país, refletindo a crescente esperança do investidor de obter melhores retornos.

Um dólar mais forte aumenta o poder de compra dos americanos. Se as importações são mais baratas, os consumidores do país têm mais dinheiro disponível para gastar. Isso, por sua vez, poderia impulsionar as vendas no varejo, um fator-chave para o crescimento econômico, e geraria mais confiança nos EUA em geral.

Mas, embora seja positivo para os consumidores e empresas dos EUA que compram matéria-prima e peças no exterior, a alta do dólar ameaça os fabricantes americanos que dependem das vendas no exterior. Muitas multinacionais começaram a reduzir suas previsões de receita e buscar formas de cortar os custos. A 3M Co. e a United Technologies Corp. indicaram que o dólar forte pode dificultar um aumento das vendas em 2017.

Algumas concessionárias das motocicletas Harley-Davidson Inc. e das escavadeiras da Caterpillar Inc. estão se preparando para o risco de que seus rivais japoneses tirem proveito da queda do iene contra o dólar e ofereçam preços mais baixos. A Caterpillar informou que o iene fraco intensificou a concorrência. A Harley não quis comentar.

Vários líderes empresariais disseram ao The Wall Street Journal que as promessas de Trump de promover os negócios do país iriam mais que compensar os efeitos de um dólar mais forte, especialmente se os impostos e o peso da regulação forem aliviados. Eles esperam que o plano de Trump de reformar a infraestrutura impulsione o crescimento econômico e que um aumento nas vendas no mercado interno possa compensar qualquer queda nas exportações.

“Não estou em pânico em relação ao dólar”, diz Mike Haberman, diretor-superintende da fabricante de equipamentos de construção Gradall Industries Inc., de Ohio, que exporta cerca de 20% de seus produtos.

Jerry Johnson, presidente da divisão agrícola da Blount International Inc., fabricante de produtos para o campo do Oregon, diz que o dólar forte pode ser compensado pela queda nos preços de importação. Cerca de 50% dos componentes usados pela Blount vêm do exterior.

O dólar tem se mantido relativamente fraco em relação à maioria das principais moedas do mundo ao longo dos últimos dez anos. Isso ajudou as exportações dos EUA a crescerem rapidamente após a crise financeira.

No fim de 2010, as exportações atingiram níveis recorde e continuaram aumentando, chegando a US$ 598 bilhões por trimestre em 2014. O emprego na indústria manufatureira começou a se recuperar e acreditava-se que os EUA podiam estar iniciando um renascimento industrial.

Desde então, o dólar subiu fortemente contra moedas como o iene e o euro. Enquanto isso, a libra britânica caiu na esteira da votação de junho em que os eleitores do Reino Unido optaram por sair da União Europeia. No início deste mês, o Fed subiu os juros e sugeriu que haverá mais aperto monetário em 2017.

O índice do dólar do WSJ, que compara a moeda americana com outras 16, atingiu o maior nível em 14 anos na semana passada. O rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA também tem subido devido a expectativas de maior crescimento e de inflação durante o governo Trump, mas a alta do dólar poderia prejudicar o plano do presidente eleito ao elevar o valor das exportações e tornar as importações mais baratas. A equipe de transição de Trump não respondeu a um pedido de comentário.

Para algumas empresas, um dólar mais forte provavelmente irá limitar o interesse na expansão da manufatura doméstica.

O yuan caiu para seu nível mais baixo em relação ao dólar em oito anos, o que poderia incentivar os fabricantes a manter suas fábricas na China em vez de repatriá-las para os EUA.

O peso mexicano, por sua vez, acumula queda de 13% em relação ao dólar desde as eleições americanas, ampliando a tentação de levar as fábricas para o outro lado da fronteira, apesar das promessas de Trump de punir empresas que levarem empregos para o exterior.

A Boeing Co., maior empresa exportadora dos EUA, citou na semana passada “menos oportunidades de vendas e uma concorrência feroz” ao anunciar que fará novas demissões em sua divisão de aviões comerciais em 2017. Este ano, ela reduziu sua força de trabalho em 8%.

A Boeing não mencionou especificamente as flutuações do câmbio, mas a alta do dólar tem ajudado sua rival Airbus Group SE, que por anos sofreu os efeitos de um euro valorizado. A Boeing não quis comentar e um porta-voz da Airbus disse que os bons ventos oferecidos pelo dólar forte são muito limitados, já que 40% dos componentes de seus aviões vêm dos EUA.

Vários fabricantes já estão reduzindo sua força de trabalho. Entre janeiro de 2015 e novembro deste ano, foram eliminados 51 mil empregos na indústria, segundo o Departamento do Trabalho dos EUA.

Ben Herzon, economista sênior da consultoria Macroeconomic Advisers, realizou uma simulação para o WSJ para mostrar o impacto de um aumento adicional de 10% no valor do dólar sobre a economia dos EUA.

Ao longo dos próximos três anos, as empresas gradualmente se ajustariam através de, entre outras coisas, um aumento da capacidade em fábricas no exterior e uma redução da fabricação nos EUA, modificando sua cadeia de abastecimento ou ampliando o uso de automação.

Num cenário em que o dólar não fique ainda mais forte, o produto interno bruto real registraria uma alta cumulativa de 6,3% nos próximos três anos. Se o dólar subir outros 10%, o crescimento do PIB seria 1,8 ponto percentual mais baixo, ou seja, 4,5% no acumulado, de acordo com a simulação da Macroeconomic Advisers.

O efeito negativo de um aumento de 10% no valor do dólar seria especialmente concentrado no setor manufatureiro dos EUA. A produção industrial seria 3,6 pontos percentuais mais baixa, as importações reais seriam 3,6 pontos percentuais mais elevadas e as exportações reais dos EUA para o resto do mundo cairiam 6,2 pontos percentuais.

Inicialmente, os consumidores se beneficiariam ao pagar menos pelos bens importados. “É bom para os consumidores, desde que continuem tendo empregos”, diz Herzon. Com o tempo, esse benefício também será reduzido pelas inevitáveis perdas de emprego no setor manufatureiro, alerta.

Andrew Tangel / Josh Zumbrun

Bob Tita

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: WSJ

 

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Mowag Piranha, a família de blindados leves de maior sucesso comercial no mundo

 

Fonte: Hoje no Mundo Militar – O Mundo Militar é um canal (You Tube) exclusivamente voltado para temas atuais do mundo militar.

Edição: konner@planobrazil.com

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‘Systema’: arte marcial russa conquista América Latina

Pela primeira vez a arte marcial “Systema” foi levada à Argentina por um soldado que passou por treinamentos na Rússia. Desde essa altura, a arte se tornou popular não só dentro, mas também fora da Argentina.

O “Systema” destaca especialmente o conhecimento de si próprio, o que poderá ter determinado em muito a sua popularidade.

O nome é a variante breve de “sistema nacional russo de autodefesa” (ROSS na sigla em russo). Embora este seja considerado um tipo de arte marcial, na verdade ele é mais amplo do que isso.

“É uma combinação de técnica, conhecimentos e conceitos que ajudam em combate, na defesa e na vida. É um sistema completo”, contou à Sputnik Mundo Dmitry Mamedov, instrutor de “Systema”.

Pela primeira vez essa arte marcial única foi apresentada nos anos 1960 por Aleksei Kadochnikov.

© FOTO: SYSTEMA SUDAMÉRICA – Fãs com cartaz da arte marcial “Systema” na Argentina

Falando dos objetivos que o sistema esportivo prevê atingir, Mamedov explicou:

“O objetivo aqui não é competição ou concorrência, não é a liquidação do rival ou formação do ego, mas pelo contrário, o sentido é se superar a si mesmo e se conhecer a si próprio.”

Cabe destacar que na época da criação do “Systema” muitas artes marciais estavam proibidas na Rússia, mas as tradições de combate dos cossacos e outros povos continuavam existindo em sua cultura.

O governo da União Soviética confiou a Kadochnikov a missão de estudar diferentes artes marciais e a restauração de patrimônio de povos que durante séculos “estiveram protegendo suas fronteiras, sua família e sua pátria” com o fim de usar depois estes conhecimentos em treinamentos de forças especiais.

© FOTO: SYSTEMA SUDAMÉRICA – Pessoas praticando arte marcial russa “Systema” na Argentina

O criador do “Systema” aproveitou assim o “conhecimento dos antepassados” e partilhou deste com pilotos de aviação, agentes secretos e outros elementos que deveriam “ter uma arma invisível” para que não fosse claramente visível que essa pessoa pratica algum tipo de arte marcial.

Nos anos 2000, Fabián García, soldado argentino de forças especiais, chegou à Rússia para continuar seus treinamentos no âmbito do método de Kadochnikov usado pelas forças especiais argentinas.

“Ele ficou tão impressionado com o método que, após retornar à Argentina, decidiu continuar estudos do ‘Systema’ russo porque este é mais próximo da filosofia ocidental do que da oriental. Foi por isso que ele continuou os treinamentos e as viagens à Rússia”, contou Mamedov à Sputnik.

Em comparação com outras artes marciais como, por exemplo, o caratê ou taekwondo, é muito mais fácil estudar o “Systema” russo porque não tem caráter de competição ou uma série de regras e proibições.

Na verdade, segundo Mamedov, “quando você chega ao treino de “Systema” você não compreende quem é quem” porque não existem regras para se dirigir ao treinador, ao contrário de outras disciplinas.

Em parte, essa é a razão pela qual o processo de estudos está sendo realizado com alta eficácia e em curto prazo.

“Porque não existe concorrência, se um dos alunos conhece algo de útil – uma técnica ou conceito – ele transmite isso imediatamente a outro”, contou.

Ainda de acordo com ele, outra vantagem do método é que ele “se adapta à pessoa”, pode ser por isso que ele interessa a pessoas de variadas idades e experiências.

Atualmente a popularidade do programa “Systema” está crescendo em muitos países do mundo, inclusive no Brasil.

 

Foto:  Systema Sudamérica

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Sputnik News

 

 

 

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Ministro da Defesa russo: mais de 160 modelos de armas avançadas testadas na Síria

O ministro da Defesa da Rússia Sergei Shoigu declarou na terça-feira (27) que mais de 160 modelos de armas avançadas e perspectivas foram testadas no decorrer da operação militar russa na Síria.

Segundo o ministro, essas armas “demonstraram sua alta confiabilidade”.

De acordo com Shoigu, que discursou durante uma reunião do Ministério da Defesa transmitida pelo canal Rossiya 24, “foram realizados mais de 3.630 exercícios militares e cinco inspeções de combate. Eles demonstraram o aumento de nível de preparação e coordenação das Forças Armadas russas”.

Em 22 de dezembro, Shoigu declarou que desde o início da campanha aérea na Síria a Força Aeroespacial russa lançou 71.000 ataques aéreos e eliminou 35.000 terroristas, destruindo também 700 campos de treinamento na Síria.

A Rússia lançou uma operação aérea contra as posições terroristas na Síria, em 30 de setembro de 2015, a pedido do presidente sírio Bashar Assad. Nesse período, até março de 2016, a aviação russa realizou mais de 9 mil missões contra o Daesh (grupo terrorista proibido na Rússia), apoiando Damasco em ofensivas nas regiões decisivas do país.

Foto: Ministério da Defesa russo

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Sputnik News