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Conflitos Geopolítica

Ataque militar do Quênia na Somália mata mais de 30 do Al Shabab

Mais de 30 membros da milícia radical islâmica Al Shabab, inclusive vários dirigentes importantes, morreram ontem em um ataque de aviões de combate quenianos em um acampamento dos insurgentes no sul da Somália, informaram nesta sexta-feira as Forças Armadas do Quênia.

“No dia 9 de janeiro de 2014 às 18h locais (13h de Brasília), caças das Forças de Defesa do Quênia atacaram um acampamento do Al Shabab no qual era realizada uma reunião em Garbarahey, na região somali de Gedo”, explicou o Exército queniano, em comunicado.

“A avaliação inicial de danos da batalha indica que morreram mais de 30 integrantes do Al Shabab, inclusive alguns dirigentes importantes. Vários insurgentes escaparam com ferimentos múltiplos”, diz a nota.

Além disso, “mais de cinco veículos e grandes ativos foram destruídos”. Por enquanto, os fundamentalistas não se pronunciaram sobre o incidente.

Em outubro de 2011, o Exército do Quênia entrou na Somália devido a uma onda de sequestros em território queniano que foram atribuídos ao Al Shabab, grupo que ameaçou retaliar com ataques terroristas.

De fato, os radicais se responsabilizaram pelo ataque cometido em setembro do ano passado no shopping center de Westgate em Nairóbi, que causou pelo menos 72 mortes (incluídos cinco terroristas), segundo os números oficiais.

A milícia, que em 2012 anunciou sua adesão formal à rede terrorista Al Qaeda, controla amplas zonas do centro e do sul do Somália, onde o frágil governo do país ainda não está em condições de impor sua autoridade.

As tropas da Missão da União Africana (AMISOM, que também é integrada por soldados quenianos), o Exército somali, as forças etíopes e as milícias pró-governo combatem os islamitas, que tentam instaurar no país um Estado islâmico de caráter wahabista.

A Somália vive em estado de guerra civil e caos desde 1991, quando o ditador Mohammed Siad Barre foi derrubado, o que deixou o país sem um governo efetivo e nas mãos de milícias islamitas, senhores da guerra e grupos de delinquentes armados.

EFE

 

Fonte: Terra

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Conflitos Geopolítica

Irã anuncia avanço em negociação para acordo nuclear definitivo

Entendimento para implementação de acordo é enviado a potências, que devem responder se aceitam seus termos

O enviado nuclear do Irã a Genebra, Abbas Araghchi, afirmou que um pacto inicial foi alcançado sobre as questões práticas pendentes para a implementação de um acordo nuclear com as seis potências, com o documento tendo sido enviado às capitais para aprovação.

AP

Vice-chanceler do Irã, Abbas Araghchi, cumprimenta diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, antes de encontro em Viena, Áustria (28/10/2013)

Novembro: Irã e seis potências firmam acordo sobre programa nuclear

As seis potências envolvidas nas negociações com o Irã (EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha) foram representadas nesta sexta-feira pela União Europeia (UE).

“Todas as questões políticas e técnicas foram resolvidas, mas a decisão final será tomada pelas respectivas capitais”, disse o vice-chanceler iraniano, Araghchi, após dois dias de negociação com a representante da UE, Helga Schmid, em Genebra.

Araghchi fez os comentários para a agência de notícias Irna. Ele disse que as potências mundiais e o governo iraniano deveriam responder dentro de dois dias se aceitam os termos. Sob condições de anonimato, uma autoridade de um país-membro da ONU que acompanha as negociações de perto disse que um acordo preliminar foi alcançado na noite desta sexta-feira.

Embora não seja uma decisão final, ela mapeia o primeiro passo de um acordo para impedir avanços nucleares do Irã por seis meses, enquanto os diplomatas buscam um entendimento definitivo sobre a questão nuclear iraniana.

Presidente: Problemas econômicos do Irã vão além de sanções

Um acordo alcançado em novembro pede que o Irã desacelere seu programa de enriquecimento de urânio em troca de algum alívio nas sanções internacionais que atingiram a economia do país produtor de petróleo.

O Irã afirma que seu programa nuclear é inteiramente pacífico, mas o Ocidente suspeita que a República Islâmica esteja em busca de adquirir capacidade para construir uma bomba nuclear.

*Com AP e Reuters

Fonte: Último Segundo

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Vídeo – Caça Sukhoi Su-30 SM

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Conflitos Geopolítica Opinião

Sem ligar para risco, sauditas apoiam rebeldes sírios


Presidente dos EUA, Barack Obama e o Rei saudita Abdullah

Robert F. Worth

Na oitava viagem para combater ao lado dos rebeldes na Síria, em agosto, Abu Khattab viu algo que o perturbou: duas crianças mortas, cujos corpos cobertos de sangue jaziam na rua de uma aldeia rural perto da costa do Mediterrâneo. Imediatamente se deu conta de que haviam sido mortas por seus camaradas rebeldes.

Khattab, de 43 anos, administrador de um hospital saudita que combatia na jihad durante suas folgas, foi buscar respostas do seu comandante local, um homem notoriamente brutal chamado Abu Ayman al-Iraqui – que não lhe deu muita atenção e afirmou que seus homens mataram as crianças “porque não eram muçulmanas”.

Somente então, se convenceu de que a jihad da Síria – para onde viajara infringindo uma proibição oficial do seu país – não estava de acordo com a vontade de Deus. Mas, ao regressar a Riad, onde agora trabalha como voluntário num programa para desestimular outros sauditas a ir para a guerra, seu governo tinha passado por cima dos seus próprios escrúpulos e se tornado o principal defensor dos rebeldes sírios, incluindo muitos islamistas radicais que frequentemente combatem ao lado de militantes leais à Al-Qaeda.

A decepção de Khattab ilustra o enorme desafio com que os governantes da Arábia Saudita se defrontam: como lutar numa guerra cada vez mais sangrenta e caótica na Síria usando combatentes fanáticos sobre os quais não exercem praticamente nenhum controle?

Os sauditas temem o fortalecimento de facções afiliadas à Al-Qaeda na Síria – e não esqueceram o que aconteceu quando militantes sauditas que combateram no Afeganistão retornaram ao seu país, onde desencadearam um levante interno há dez anos. O reino do Golfo proíbe oficialmente seus cidadãos de ir para Síria lutar na jihad, mas a proibição não vigora: pelo menos mil partiram até agora em direção ao país em guerra, segundo funcionários do Ministério do Interior, incluindo membros de algumas famílias importantes. Mas os sauditas também são favoráveis à queda do presidente sírio, Bashar Assad, e do Irã, seu financiador, que consideram inimigo mortal. Eles só podem combatê-los de fato fornecendo apoio militar e financeiro aos rebeldes sírios. E os insurgentes mais eficientes são os islamistas cuja fé, muitas vezes, mal os distingue da Al-Qaeda. Enquanto Khattab falava sobre a Síria, suas próprias convicções não pareciam tão diferentes dos discursos dos jihadistas que ele denunciara. Ele deixou claro que considerava infiéis os muçulmanos xiitas e a seita alauita de Assad – e um perigo terrível para o seu povo. “Se os xiitas conseguirem controlar a Síria, será uma ameaça para o meu país”, disse. “Fui para a Síria proteger meu país.”

Às vezes, seus sentimentos sectários pareciam esconder seu mal-estar pelos excessos de alguns dos seus camaradas mais radicais. Ele não negou ter combatido muitas vezes ao lado de membros do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, em inglês), organização jihadista afiliada à Al-Qaeda.

Khattab também mencionou com orgulho que combateu quando adolescente no Afeganistão e, poucos anos mais tarde, na Bósnia. Optou por não lutar contra os americanos no Iraque “porque há muitos xiitas naquele país”, disse, com expressão de aversão.

O centro de reabilitação em que trabalha, como muitas instituições sauditas, tem-se mostrado um tanto constrangido com as contradições da política de seu país em relação à Síria. Recentemente, o centro sofreu uma decepção com um dos seus discípulos mais famosos, um jihadista reformado chamado Ahmed Shayea. Ele se tornou conhecido ao sobreviver ao próprio atentado suicida no Iraque em 2004. Shayea sofreu graves queimaduras e ficou desfigurado, mas depois de passar meses num hospital, saiu e se proclamou curado da mentalidade jihadista. Ficou conhecido como o “suicida vivo” e, em 2009, o escritor americano Ken Ballen dedicou todo um capítulo a ele em seu livro Terrorists in Love.

Em novembro, no entanto, Shayea deixou clandestinamente a Arábia Saudita e foi para a Síria, onde agora combate com o Isil. Orgulhosamente, ele anunciou sua volta à jihad no Twitter com uma foto dele segurando um fuzil com as mãos deformadas.

As autoridades sauditas afirmam ter pedido aos seus cidadãos que não se dirijam para a Síria, mas não têm condições de seguir os passos de quem que deseja combater naquele país. “Tentamos impedi-los, mas o que podemos fazer tem limites”, disse Mansur Turki, porta-voz do Ministério do Interior saudita. “Não podemos impedir todos os jovens de deixar o reino. Muitos viajam para Londres ou outros lugares e, então, se encaminham para a Turquia ou para a Síria.”

O caminho de Khattab para a Síria foi mais ou menos semelhante ao de muitos outros. Ele leu sobre os levantes em 2011, mas foi o da Síria que mais o comoveu. Não apenas em razão do derramamento de sangue, mas por seus irmãos sunitas que estavam sendo mortos por alauitas e xiitas.

Quando foi pela primeira vez, em meados de 2012, viajou diretamente de Riad à cidade turca de Antakya, perto da fronteira síria.

Na Turquia, ele encontrou muitos outros combatentes estrangeiros e rebeldes sírios que estavam ansiosos para levá-los para o campo de batalha. “Eles gostam particularmente dos sauditas, porque são mais dispostos a fazer operações suicidas”, acrescentou.

No ano seguinte, regressou à Síria mais sete vezes, em geral, durante as folgas, e deixou a mulher cuidando dos seus quatro filhos. A cada vez, permanecia de dez dias a duas semanas. Combateu com uma variedade de grupos, muitas vezes participou de batalhas – em Alepo, em Homs e no interior de Latakia, perto da costa. Em geral, usava um fuzil AK-47, mas, às vezes, uma metralhadora russa mais pesada, conhecida como 14.5. Ele foi gradualmente se desiludindo com o caos da batalha. Muitas vezes, se encontrou entre homens que rotularam os dirigentes da Arábia Saudita e de outros Estados do Golfo Pérsico de infiéis e merecedores de massacres. Isso o incomodou, mas não o impediu de retornar ao campo de batalha, disse.

No fim, foi a matança de inocentes e uma convicção maior de que os rebeldes ao seu lado não estavam fazendo aquilo pelos motivos certos que o levaram a sair. “Se a luta não é puramente em nome de Deus, não é uma verdadeira jihad. Essas pessoas lutam por suas próprias bandeiras.” Mas há outro motivo pelo qual ele desistiu de lutar. “Assad começou a colocar os sunitas na linha de frente. Esse é um grande problema. Os rebeldes não querem combater contra eles. A verdadeira guerra não é contra Assad em si, é contra o Irã. Todo o resto não passa de uma imagem falsa.”

TRADUÇÃO:  ANNA CAPOVILLA

Robert F. Worth é jornalista.

Fonte: The New York Times via, Estadão

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Brasil quer reforçar laços comerciais com países ricos

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Estados Unidos estão no foco.

Negociações com União Europeia atrasam

ELIANE OLIVEIRA

BRASÍLIA – O governo brasileiro quer reforçar as relações comerciais com os países desenvolvidos, aproveitando a recuperação de algumas economias, notadamente a americana. Segundo disse ao GLOBO o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, esta reaproximação não significa, porém, retomar a ideia de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), projeto sepultado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tampouco abandonar a política de integração Sul-Sul, entre o Brasil e as demais nações em desenvolvimento.

Ele ressaltou que, por outro lado, a Europa ainda está bastante fragilizada e talvez por isso esteja reagindo timidamente à proposta do Mercosul de abrir uma ampla negociação comercial. As ofertas entre os dois blocos, para a criação de uma zona de livre comércio, estavam previstas para ocorrer em meados do mês passado. No entanto, de acordo com fontes do governo brasileiro, isso só deverá acontecer no mês que vem, porque os negociadores europeus alegaram dificuldades para obter aval de todos os países membros da União Europeia.

– Nós queremos reforçar laços comerciais com os países desenvolvidos. Mas enfrentamos problemas gravíssimos, sobretudo o do protecionismo, que marca as grandes potências e que dificulta uma relação equilibrada. Que fique claro, no entanto, que o Brasil não está disposto a reanimar o cadáver da Alca, como alguns analistas vêm propondo em forma disfarçada quando fazem a apologia da Aliança do Pacífico e da TPP (Transpacific Partnership). Como essa TPP traz embutida uma política anti-China, ela começa a enfrentar resistências em países latino-americanos, como é o caso do Chile – afirmou Garcia que, junto com o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, é um dos principais articulares da política externa da presidente Dilma Rousseff.

Ao fazer essa declaração, o assessor presidencial se referia a dois grandes blocos comerciais: a Aliança do Pacífico, criada ano passado e composta por Chile, México, Peru e Colômbia, em contraposição ao Mercosul; e a TPP, parceria que está sendo negociada por EUA, Japão, Austrália, Peru, Malásia, Vietnã, Nova Zelândia, Chile, Cingapura, Canadá, México e Brunei.

EUA são 2º maior parceiro

Garcia disse que a política Sul-Sul, desenhada ainda no governo Lula, chegou a ser subestimada anteriormente, mas acabou representando uma “aguda e premonitória” percepção da evolução da situação mundial na primeira década deste século. Um novo grupo de países, entre os quais Brasil, China e Índia, emergia a passava a ter um papel decisivo, não apenas na economia mundial, como na própria configuração global.

Os Estados Unidos são os segundos principais compradores de produtos brasileiros. Em 2013, compraram US$ 24,9 bilhões do Brasil. A China ficou em primeiro lugar como país de destino de nossas exportações, com US$ 46 bilhões no ano passado.

Fonte: O Globo, 2ª Edição, Economia, Página 25, Sexta-Feira, 10/01/2014 (http://oglobo.globo.com/economia/brasil-quer-reforcar-lacos-comerciais-com-paises-ricos-11260096)

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EUA investigam ação de bancos pós-crise

Instituições podem ter manipulado preços de títulos para garantir realização de negócios

Nova York – Depois de se tornarem alvo de minuciosas investigações sobre sua atuação antes da eclosão da crise global, em 2008, os grandes bancos de Wall Street estão novamente na mira das autoridades americanas. Desta vez, as atenções estão voltadas para operações realizadas nos anos seguintes à crise.

Em investigação iniciada há menos de um ano e só agora revelada, promotores federais estão apurando se os bancos manipularam preços de títulos hipotecários entre 2009 e 2011, inflando ou depreciando artificialmente os valores para fechar negócios. A lista de instituições na lupa da Justiça inclui Barclays, Citigroup, Deutsche Bank, Goldman Sachs, Morgan Chase, Morgan Stanley, Royal Bank of Scotland (RBS) e UBS.

A investigação pode representar um novo e duro golpe a estas instituições, que já pagaram bilhões de dólares em multas e penalidades por sua participação no processo que levou à formação da bolha financeira. É o primeiro inquérito sobre o pós-crise, quando os bancos mantinham em seus livros grande volume de ativos cujos preços eram difíceis de definir. Os títulos hipotecários têm seus valores informados pelos operadores das instituições financeiras. Os investidores frequentemente confiam nesses profissionais para revelar os preços dos papéis e as comissões cobradas na negociação. Os promotores querem verificar se os bancos fixaram estes valores de acordo com seus próprios interesses.

Fonte: O Globo, Economia, Página 18, Quinta-Feira, 09/01/2014 via Ministério da Fazenda 

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Conflitos Geopolítica Opinião

EUA e ONU tentam alocar grupo guerrilheiro Mujahedin-e-Khalq na Romênia

Ilia Kharlamov

Os esforços de Washington na Romênia podem levar ao surgimento de um foco de tensão que será uma dor de cabeça não só para este país, mas também para seus vizinhos mais próximos. Os Estados Unidos, com o apoio da ONU, estão tentando mudar do Iraque para a Romênia vários milhares de representantes da Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano (Mujahedin-e-Khalq). Os cuidados da chamada comunidade civilizada para com tais radicais têm uma explicação simples: os mujahidin veem como sua missão a luta contra o Irã, país que o Ocidente está disposto a enfraquecer por todos os meios possíveis.

O Irã e o Iraque classificam a Mujahedin-e-Khalq como uma organização terrorista. O seu braço armado – o Exército de Libertação Nacional do Irã – é considerado o fundador do Conselho Nacional da Resistência que reúne todas as forças da oposição no país. E se em meados dos anos 60 do século passado a história “gloriosa” daqueles que não concordavam com o regime do Xá começava de forma bastante romântica – com a ideia de uma sociedade socialista sem classes, ela acabou por resultar em atentados terroristas maciços e sabotagem.

Na sequência da dura resistência das autoridades iranianas, a Mujahedin-e-Khalq se mudou para o Iraque, a partir de cujo território participou em ataques armados contra o território do Irã durante a guerra Irã-Iraque, bem como em ações para reprimir os curdos. Seus raids contra o Irã continuaram nos anos seguintes, já por sugestão e sob controle dos Estados Unidos.

No entanto, o abundante “registro” (cerca de 50 mil vidas, incluindo altos funcionários do Irã) não impediu que a UE, e depois também os EUA, recentemente removessem a organização da lista de terroristas. E é compreensível o porquê. Segundo a fórmula “o inimigo do meu inimigo meu amigo é”, os estrategistas ocidentais já têm bastante experiência em usar tais esquemas no momento certo: inicialmente consideravam terroristas os membros do Mujahedin-e-Khalq.

Hoje, os planos de Washington para relocá-los para a Romênia são pelo menos inadequados, acredita o orientalista Boris Dolgov:

“Se as autoridades romenas tiverem dúvidas, e elas certamente irão surgir, elas deveriam se opor a tal passo. Esta organização atua contra o Irã, é considerada terrorista lá, foi responsável por atos terroristas e atentados, ou seja todo um conjunto de atividades que caracterizam uma organização terrorista. Além disso, as intenções dos EUA vão contra a tendência atual de melhoria das relações entre Washington e Teerã. Ora a situação na região, no caso de surgimento de militantes lá, vai escalar. Obviamente, eles não estão dispostos a ter relações pacíficas com outras religiões.”

Por enquanto, os esforços dos Estados Unidos têm sido inúteis, mesmo apesar de terem escolhido um país que depende em grande medida da política de Washington. Não é nenhum segredo que os EUA protegem a Romênia abertamente e secretamente, veem-na como objeto de seus interesses geopolíticos ao longo de todo o período pós-soviético. E, naturalmente, têm o direito de exigir por isso algum tipo de pagamento. Só que, neste caso, parece excessivo.

No entanto, segundo alguns dados, a questão do reassentamento dos mujahidins foi discutida na reunião de dezembro do secretário de Estado dos EUA, John Kerry, com o ministro das Relações Exteriores da Romênia, Titus Corlatean, em Bruxelas. A propósito, há um ano a Alemanha e a Albânia declararam sua disposição a aceitar alguns dos guerrilheiros de Mujahedin-e-Khalq. No entanto, a liderança da organização insiste num alojamento compacto de todos os três mil associados deslocados na base norte-americana no Iraque. Algo que as autoridades albanesas e alemãs, naturalmente, não se podem permitir de maneira alguma: é demasiado perigoso.

Os líderes dos terroristas estão num impasse. Ninguém quer recebê-los, e no Iraque eles se tornaram alvos de ataques de mísseis por desconhecidos. Os ativistas da organização atribuem a responsabilidade ao atual governo iraquiano, porque ele próprio abertamente insiste no reassentamento dos radicais para algum outro lugar.

A implementação do plano americano é perigosa, mas pouco provável, notou o perito do Instituto de Estudos Estratégicos e Análise Serguei Demidenko:

“O reassentamento de um grande número de pessoas que tiveram formação ideológica e militar para uma região europeia não muito estável não vai acrescentar tranquilidade. Mas este cenário é pouco provável de ser realizado. Até mesmo as autoridades romenas percebem quem elas terão de enfrentar. Os militantes têm uma constituição psicológica e mental específica. Eles estão focados na guerra contra os infiéis, não sabem fazer mais nada. Mas se o cenário for realizado, isso vai agravar ainda mais a situação do radicalismo islâmico na Europa, especialmente porque os serviços secretos europeus não conseguem fazer nada com os membros da Al-Qaeda que operam no sul do continente.”

Claro que, com certas reservas, os esforços dos EUA em relação aos “inimigos de seus inimigos” podem ser considerados nobres por não abandonarem seus “protegidos” em apuros. Especialmente que na Romênia se planeja a construção de uma base norte-americana, onde eles bem poderiam ficar inicialmente.

A questão do realojamento na Romênia de membros de uma organização equiparada com o Talibã e a Al-Qaeda hoje continua a ser uma prerrogativa exclusiva do governo nacional desse país. E toda a responsabilidade pela decisão será também dele. No entanto, as autoridades da vizinha Ucrânia também têm algo a considerar. Militantes perfeitamente treinados podem ser úteis para uma mudança do governo pela força, ou pelo menos para “abalar” ainda mais uma situação já instável. Pois eles não estão habituados a ficarem sem fazer nada.

 

Fonte: Voz da Rússia

 

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Conflitos Geopolítica Inteligência

Nova instabilidade no Oriente Médio é desafio para os EUA

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Por Gerald F. Seib | The Wall Street Journal

Está ficando claro que a Primavera Árabe foi além de abalar as estruturas de poder do Oriente Médio. Ela deflagrou uma transformação total na região, que reduziu a influência americana e acabou compelindo os Estados Unidos a repensar sua estratégia numa área que, por meio século, foi considerada essencial para os seus interesses.

A guerra civil da Síria está se expandindo para o Líbano e o Iraque, enfraquecendo os governos de ambos e provocando conflitos paralelos entre grupos armados sunitas e xiitas. O governo militar do Egito está se tornando mais autoritário e se colocando fora do alcance da influência americana. A Líbia deixou de ser um país bizarro, mas no fundo estável, governado por um ditador e virou um lugar sem controle de ninguém. O Iêmen, por sua vez, é um playground de extremistas islâmicos. E as monarquias do Golfo Pérsico, embora ainda estáveis, estão assustadas.

Tudo isso representa um virtual colapso das estruturas de poder do mundo árabe. Como observou Aaron David Miller, um assessor de longa data do Departamento de Estado dos EUA para o Oriente Médio e hoje vice-presidente do centro de estudos Wilson Center: “Os três países mais relevantes do Oriente Médio hoje – Turquia, Irã e Israel – não são árabes.”

Os acontecimentos equivalem a um terremoto numa região cuja estabilidade foi por décadas garantida pelo governo secular de ditadores de Egito, Iraque, Líbia, Iêmen, Síria e Tunísia. Alguns eram amigos dos EUA, alguns inimigos e outros vacilavam entre ambas as posições, mas todos proporcionavam a calma necessária para assegurar o fornecimento de petróleo.

Em teoria, tudo isso deveria significar boas notícias para os EUA. As derrubadas de Saddam Hussein, no Iraque, e de Muamar Gadafi, na Líbia, e a ameaça ao regime de Bashar al-Assad, na Síria, representam o enfraquecimento do que por muitos anos vinha sendo uma espécie de eixo do antiamericanismo árabe. Mas nada é simples no Oriente Médio e três fatores estão tornando essas mudanças problemáticas para o governo americano:

1. O colapso da estrutura de poder árabe abriu a porta para o aumento da influência iraniana – um legado da Guerra do Iraque. Ela livrou o mundo de Saddam Hussein, mas deixou o caminho livre para o vizinho Irã.

2. A queda dos ditadores árabes não abriu caminho, pelo menos até agora, para a ascensão de uma democracia secular. Ao contrário, abriu caminho para extremistas islâmicos que os ditadores há muito reprimiam.

3. Como está ficando cada vez mais claro na Síria, no Líbano e no Iraque, o terremoto liberou as tensões latentes entre os muçulmanos sunitas e xiitas. Saddam Hussein, no Iraque, e o regime da família Assad, na Síria, ajudaram a manter essas tensões sob controle para todo mundo. Isso acabou. A Arábia Saudita está cada vez mais financiando as facções sunitas na região, e o Irã dando ajuda às xiitas. Isso vem criando um tipo nocivo de conflito sectário em grande escala.

Essa mudança de dinâmica deveria suscitar um sério debate nacional sobre os interesses dos EUA no Oriente Médio numa nova era de menor dependência do petróleo do Oriente Médio, risco contínuo de terrorismo extremista islâmico e exaustão de intervenções militares na região. Os atuais debates sobre se seria sábio fechar um acordo nuclear com o Irã e sobre a intervenção na Síria se tornam complicados pela simples falta de consenso nacional em relação a interesses mais amplos dos EUA nos dias de hoje.

No momento, os EUA parecem ter uma capacidade ou um interesse limitado em interferir no curso natural das coisas. Mas a percepção de que os EUA podem conduzir os eventos na região, uma percepção que sempre foi um pouco exagerada, está desaparecendo.

Muito da influência americana resultou da crença de que os EUA poderiam, e iriam, intervir militarmente para realinhar o equilíbrio de poder na região. Mas, após a exaustão gerada por mais de dez anos de combate no Iraque e no Afeganistão e depois de uma decisão consciente de não intervir para ajudar os rebeldes na guerra civil da Síria, essa ideia simplesmente não é levada sério.

Mais do que isso, não está claro se a sociedade americana se importa tanto assim. Os EUA estão produzindo mais energia dentro de casa, os amigos de Washington em Israel parecem estar seguros e a memória dos ataques terroristas está desaparecendo.

Infelizmente, essa é uma visão míope. Os EUA têm um profundo interesse na saúde de uma economia global que ainda depende do petróleo do Oriente Médio. Os perigos do extremismo islâmico, na verdade, estão em ascensão, não em declínio. E agora existe o perigo real na região de uma corrida armamentista nuclear desestabilizadora nas próximas décadas, iniciada pelo Irã.

Os americanos têm um papel nisso tudo, queiram ou não. “Vamos ser claros”, diz Miller. “Estamos [os EUA] presos numa região que não podemos consertar nem abandonar.”

No passado, iniciar uma discussão nacional sobre tudo isso seria uma responsabilidade da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano. Talvez possa ser novamente.

Fonte: The Wall Street Journal via Valor Econômico via Resenha do Exército

 

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Mortos e bombas em região vizinha a Sochi fazem Rússia acionar alerta antiterrorista

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DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

As forças de segurança russas foram postas em alerta antiterrorista nesta quinta-feira, 09/01/2014,  na região de Stavropol (a 300 quilômetros de Sochi, sede das Olimpíadas de Inverno que começam em 7 de fevereiro) depois da descoberta de cinco corpos abandonados em quatro carros com ferimentos a bala, ontem.

“Em 8 de janeiro, entre as 0h30 e 19h30 locais, em duas cidades [de Stávropol] foram localizados quatro automóveis com cinco corpos com marcas de bala. Nas proximidades de um desses veículos foi ativada uma bomba caseira, mas ninguém ficou ferido”, informou o Serviço Federal de Segurança (FSB, antiga KGB).

Outra bomba foi desativada com a ajuda de um robô, detalhou o FSB. As autoridades russas declararam o regime de operação antiterrorista nos distritos afetados da região, uma das sete do conflito Cáucaso do Norte.

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“Uma operação antiterrorista foi lançada à meia noite de 9 de janeiro nos distritos de Predgorny e Kirov”, indicou a administração regional de de Stavropol.

De acordo com a legislação russa, uma operação antiterrorista permite às forças de ordem evacuar os moradores temporariamente, ou parar veículos e pessoas sem motivo aparente.
A região de Stavropol faz fronteira com Krasnodar, à qual pertence Sochi, estação balneária às margens do Mar Negro e as montanhas do Cáucaso.

A quatro semanas dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, a Rússia se concentra na segurança do evento, sobretudo depois que dois atentados suicidas sacudiram em menos de 24 horas e a dois dias do ano novo a cidade russa de Volgogrado, também no sul do país.

O atentado suicida na estação de trem de Volgogrado, seguido de outro em um trólebus do transporte municipal da mesma cidade, matou 34 pessoas.

Dezenas de feridos nos dois atentados, perpetrados supostamente pela guerrilha islamita do Cáucaso Norte, continuam hospitalizados tanto em Volgogrado como em Moscou, para onde se transferiu a maioria dos feridos mais graves.

O presidente russo, Vladimir Putin, prometeu em 1º de janeiro de Volgogrado que as autoridades continuarão a luta contra os terroristas até “sua completa eliminação”.

REBELIÃO ISLAMITA

A região de Stavropol faz fronteira com várias repúblicas instáveis do norte do Cáucaso, como Daguestão, Inguchétia e Chechênia.

Frente a uma rebelião islamita, essas repúblicas são palco de explosões ou ataques quase diárias, visando principalmente membros das forças de ordem, mas também líderes políticos e religiosos.

Estes ataques são muitas vezes reivindicados pela rebelião islamita, que se estendeu além das fronteiras da Chechênia após a primeira guerra entre separatistas e forças federais russas nesta pequena república (1994-1996), seguida por um segundo conflito mais mortífero no início década de 2000, e que evoluiu para um movimento armado ativo em todo o norte do Cáucaso.

Os temores de que militantes islâmicos lancem ataques durante os Jogos Olímpicos de Inverno, de 7 a 23 de fevereiro, foram reforçados por dois ataques suicidas atribuídos a homens-bomba, que fizeram um total de 34 mortos nos dias 29 e 30 de dezembro, em Volgogrado, uma cidade no sul da Rússia.

Um forte esquema de segurança entrou em vigor na terça-feira em Sochi, a um mês da cerimônia de abertura.

Fonte: Agências de Notícias via Folha de São Paulo 

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Conflitos Geopolítica

Universidade do governo terá aulas de marxismo para politizar trabalhadores

Ministro do Trabalho afirma que há uma ‘despolitização’ na classe. Universidade será fundada no primeiro trimestre de 2014

Manoel Dias, ministro do TrabalhoSugestão: HMS Tireless

Manoel Dias, ministro do Trabalho (Valter Campanato/ABr)

O governo federal vai fundar uma nova universidade no primeiro trimestre de 2014. A Universidade do Trabalhador já tem até grade curricular definida. Aulas de “marxismo, socialismo e capitalismo” serão obrigatórias, como adiantou o ministro do Trabalho, Manoel Dias.

A plataforma de ensino à distância oferecerá cursos de qualificação profissional. “Estamos vivendo um período de despolitização geral no Brasil, em todas as áreas. Os trabalhadores são peça fundamental na discussão política”, explica o ministro.

De acordo com o especialista José Pastore, professor de Relações do Trabalho da Faculdadede Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), a qualificação profissional é, de fato, uma questão crucial, mas ter como foco “politizar” os trabalhadores é uma medida “defasada”. “Uma economia globalizada exige competência, eficiência e produtividade. Muito mais conhecimento das tecnologias e do sistema de produção do que propriamente de ciência política.” Para o professor, o foco deve estar na qualidade da educação básica.

O primeiro convênio para a criação da Universidade do Trabalhador foi firmado com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde o ministro Dias concluiu o curso de Direito. Segundo o professor João Arthur de Souza, do Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC, a universidade vai receber 2,5 milhões de reais pelo contrato de dois anos, dinheiro que será usado para pagar bolsas a estudantes e contratar técnicos para o projeto. A equipe responsável pela definição dos novos cursos tem 30 a 40 alunos bolsistas e profissionais de várias áreas, como Psicologia, Pedagogia, Estatística, Computação, Letras, Economia, Sociologia e Administração.

A próxima da fila a integrar o sistema será a Universidade de Brasília (UnB), que fechará convênio com o governo ainda em 2013. Mais três instituições virão em 2014.

(Com Estadão Conteúdo)

Fonte: Veja

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10 de Janeiro de 1946: Primeira Assembleia Geral da ONU

Primeira sessão em 1946 no Central Hall Londres – Reino Unido. UN Photo / Marcel Bolomey

Aproximadamente 2 mil pessoas, representantes de 51 países, estiveram presentes para testemunhar o nascimento de uma organização que visava a “manter a paz como base de uma cooperação internacional”.

No dia 10 de janeiro de 1946, alguns meses após o fim da Segunda Guerra Mundial, o centro histórico de Londres tornou-se palco para repórteres que anunciavam a realização da primeira Assembleia Geral das Nações Unidas.

A sessão foi aberta pelo presidente temporário Eduardo Zuleta Angel, colombiano, que coordenou a comissão preparatória para a primeira assembleia geral. Seu discurso foi em francês, mas um intérprete traduzia para o inglês. O primeiro secretário-geral da ONU foi o diplomata norueguês Trygve Lie, no cargo de 1946 a 1952.

Primeiro secretário-geral da ONU Trygve Lie, diplomata norueguês que ficou no cargo de 1946 a 1952.

Função

A ONU é uma organização internacional de países, baseada na igualdade de soberania entre seus membros. Ela foi estabelecida para manter a paz e segurança mundiais, desenvolver relações amistosas entre nações, incentivar cooperação internacional em caso de problemas econômicos, sociais, culturais ou humanitários, e promover respeito aos direitos humanos e à liberdade.

Cental Hall em Londres, Reino Unido – Palco da primeira Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de Janeiro 1946

Estatuto

Em 1945, delegações de 50 países encontraram-se em São Francisco (EUA), na Conferência das Nações Unidas, para redigir o estatuto da ONU. O documento foi assinado em 26 de junho de 1945 pelos representantes das nações. A Polônia, que não estava presente na conferência, assinou o estatuto mais tarde, ainda a tempo de se tornar um dos 51 países-membros originais.

A Organização das Nações Unidas começou a existir oficialmente em 24 de outubro de 1945, quando seu estatuto foi ratificado pela China, França, União Soviética, Reino Unido, Estados Unidos (únicos países com poder de veto) e pela maioria dos demais membros. Por isso, o Dia das Nações Unidas é celebrado em 24 de outubro.

Liga das Nações

A ONU é a sucessora da Liga das Nações, uma organização internacional formada após a Primeira Guerra Mundial com propósitos semelhantes. Essa liga, no entanto, falhou em manter paz e enfraqueceu-se logo após a Segunda Guerra.

A ideia de uma confederação de países já fora sugerida pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson, e virou realidade com a criação da Liga das Nações.

A expressão “nações unidas” foi usada pela primeira vez pelo presidente dos EUA Franklin D. Roosevelt, como referência aos Aliados durante a Segunda Guerra. Em 1942, representantes de 26 países garantiram aos seus governos que continuariam lutando juntos contra os países do Eixo.

Sócios

A ONU está aberta a todos os países que preguem a paz e que aceitem as obrigações da organização.

Novos membros são admitidos através de dois terços de votos da Assembleia Geral, sob recomendação do Conselho de Segurança. Desde 1945, os membros triplicaram, principalmente com a admissão de muitos países africanos e asiáticos, ex-colônias européias. A divisão da Iugoslávia e da União Soviética trouxe uma onda de novos sócios no início dos anos 1990.

A ONU possui atualmente 191 membros, incluindo todas as nações internacionais independentes, com exceção do Vaticano.

ONU hoje – New York, NY 10017, Estados Unidos

Estrutura

A organização é estruturada em corpos administrativos, incluindo a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela, o Tribunal Internacional de Justiça e o Secretariado. Além disso, existem as outras agências da ONU, como, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

(gv)

 

Fonte: DW.DE

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Geopolítica Opinião

O sonho chinês

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Merval Pereira

O seminário de Kuala Lumpur da Academia da Latinidade teve ontem seu ponto alto com a visão de estudiosos chineses sobre o “século chinês”, que eles aceitaram classificar de “século asiático” para ficarem dentro do espírito da região. O professor de Literatura Comparada e Tradução Zhang Longxi, da Universidade de Hong Kong, defendeu a necessidade de integração com o Ocidente citando Lu Xun, a quem classificou como “um dos mais radicais pensadores da moderna História chinesa”.

Considerado o pai da literatura moderna na China, Lu Xun fazia parte de um grupo de intelectuais ligados ao Partido Comunista Chinês que defendia mudanças na cultura, sendo dos primeiros, por exemplo, a não usar o chinês clássico nos seus escritos literários, utilizando-se da língua falada.

Ele defendia a necessidade de absorver ideias novas vindas de culturas do Ocidente e, certa vez, para contestar conservadores que consideravam perigoso esse processo de assimilação cultural alegando que os chineses acabariam se transformando em estrangeiros, Lu Xun fez uma de suas célebres sátiras, frisando que “ninguém se transforma em uma vaca porque come bife”.

Zhang Longxi admite que, comparado com o fim do século XIX e o início do XX – época em que Lu Xun defendeu, sob muitas críticas, suas ideias de integração cultural -, estamos em um novo mundo em que a sobrevivência da China não está mais em questão. Ao contrário, disse ele, é mais comum ouvir a previsão otimista de que o século XXI será “o século chinês” de pessoas como historiador inglês Arnold Toynbee.

Mas o professor recorre ainda a Lu Xun para advertir os próprios chineses: “A raça que tem muitos que não são complacentes consigo mesmo vai sempre andar para a frente e sempre terá esperança. A raça que só sabe acusar os outros sem refletir sobre si mesma está ameaçada com iminentes perigos e desastres.”

Dentro da mesma linha de raciocínio, Tong Shijun, professor de Filosofia da East China Normal University, fez análise sobre a importância do “soft power” para a expansão da cultura chinesa pelo mundo dentro do “século chinês”. Essa expressão foi cunhada por Joseph S. Nye Jr, professor de Harvard com larga experiência dentro da máquina administrativa do governo americano – trabalhou nos governos Carter e Clinton, nas secretarias de Estado e de Defesa. O “soft power” seria uma terceira dimensão do poder, superando em certas ocasiões o poder econômico e o militar.

Num mundo multipolar, esse “poder suave”, cultivado nas relações com aliados, na assistência econômica e em intercâmbios culturais, resultaria em opinião pública mais favorável e maior credibilidade externa. Segundo Tong Shijun, a importância do “soft power” foi destacada pela primeira vez em 1993 em texto de um dos mais influentes dirigentes chineses, Wang Huning, e chegou ao Congresso do Comitê Central do Partido Comunista Chinês em 2007. Em 2013, o próprio presidente chinês, Xi Jinping, afirmou que, “para fortalecer o ‘soft power’ do país, devemos fazer nosso melhor esforço para aperfeiçoar nossa capacidade na comunicação internacional”. Tong Shijun definiu pontos do que seriam os sentidos cultural e político do “soft power” no discurso chinês:

A tradicional ideia de uma nação que tem longa tradição civilizatória compartilhando aprendizado e paz;

O ideal revolucionário de “grande contribuição à Humanidade”;

Os cinco pontos do “socialismo com características chinesas”: economia de mercado; democracia e Estado de Direito, ambos promovidos pelo Partido Comunista; cultura nacional cosmopolita; uma sociedade harmoniosa que seja ecologicamente correta.

Esse conjunto de valores e objetivos formaria, na linguagem oficial, o “sonho chinês” como parte de um sonho do conjunto da Humanidade. E, implicitamente, tomaria o lugar do “sonho americano”. Há estudos entre acadêmicos na China que consideram que o país está em busca de uma democracia que se valerá cada vez mais da meritocracia, que fará com que os escolhidos para o Parlamento possam representar realmente a vontade do povo e não só os que têm influência para atrair votos. Seria uma democracia à chinesa. Como já escrevi aqui, comentando esses estudos, se o PC chinês se delegar essa tarefa, continuaremos na mesma falta de liberdades cívicas.

Fonte: O Globo via Resenha CCOMSEX

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Conflitos Defesa Economia Geopolítica

Brasil e EUA, a história da Saab

Brasil recusa Boeing foi a manchete do New York Times após a muitas vezes adiada decisão brasileira de gastar quase US$ 5 bilhões na compra de jatos de combate da fabricante sueca Saab, em vez da rival americana Boeing. Representantes do governo brasileiro insistiram em que critérios financeiros e técnicos determinaram a escolha, rejeitando a ideia de que se tenha tratado de uma reprimenda ou um revide por causa das atividades de espionagem dos EUA, que já tinham levado a presidente Dilma Rousseff a cancelar uma visita de Estado a Washington, atitude quase sem precedentes. Por que o Brasil optou pelos caças suecos é uma questão complexa que revela muito sobre as atuais relações Brasil-EUA. Mas ainda mais vital é a preocupação com os efeitos que essa decisão terá no futuro dessas relações.

Os laços entre americanos e brasileiros foram abalados nos anos recentes por uma série de desacordos em questões regionais e globais. O estrago foi particularmente grave no caso do impasse acerca das negociações entre Brasil e Irã em 2010 sobre enriquecimento de urânio. Em 2013 a relação enfraquecida chegou ao ponto mais baixo no intervalo de uma geração, ou mais, por causa da revelação das dimensões da espionagem americana no Brasil, que invadiu até as comunicações da presidente Dilma com seus principais assessores e os arquivos particulares da Petrobrás, estatal brasileira do setor de petróleo. Em resposta, a presidente não só cancelou a viagem de Estado, como iniciou uma campanha internacional contra as operações de inteligência dos EUA.

A revelação das atividades de espionagem dos EUA e a subsequente resposta de ambos os governos reforçaram a antiga desconfiança entre os dois países. Representantes de Washington consideraram a reação brasileira tensa e exagerada. Para eles, o Brasil precisa entender que a segurança dos EUA exige expansivo esforço global de inteligência, que Washington não pretendeu prejudicar o Brasil e que essas questões devem ser tratadas longe dos olhos do público.

Do ponto de vista do Brasil, os EUA agiram novamente como valentões. A invasiva espionagem de Washington sublinhou a disposição americana de obter vantagens indevidas de sua superioridade econômica e tecnológica. Para piorar a situação, os EUA trataram a indignação da chanceler alemã, Angela Merkel, com muito mais seriedade do que as queixas da presidente brasileira. A diferença no tratamento não passou despercebida em Brasília.

A escolha entre Saab e Boeing pode ser defendida de acordo com os critérios do próprio Brasil – os custos de compra e operação das aeronaves, a qualidade do seu desempenho e a obtenção de acesso a novas tecnologias. Os jatos da Saab, por exemplo, são bem mais baratos que o modelo da Boeing e o governo sueco impõe bem menos restrições à transferência de tecnologia. Mas o avião americano, há muito tido como o preferido pela Força Aérea Brasileira, é tecnicamente muito superior.

Não há razão para duvidar da escolha brasileira em bases técnicas ou econômicas. A questão central para as relações Brasil – EUA envolve o momento em que a decisão foi tomada. Após as grandes manifestações contra a corrupção e o desperdício de dinheiro pelo governo, e com ja aproximação das eleições presidenciais, foi surpreendente o Brasil ter optado por concluir a negociação nesse momento. Relatos da imprensa dizem que até o alto escalão da Força Aérea foi notificado apenas poucos dias antes do anúncio da compra. Depois de sucessivos governos brasileiros terem adiado a decisão por anos, previa-se que ela ainda estivesse distante. Isso indica que os brasileiros quiseram, de fato, enviar uma mensagem a Washington sobre sua crescente desconfiança em relação ao govemo americano e também deixar claro seu desapontamento com a resposta dos EUA às críticas contra seu programa de espionagem.

O govemo americano não ficou feliz com a rejeição do Boeing F-18, vista por muitos como mais uma reação intempestiva à vigilância dos EUA e outro retrocesso na relação bilateral. O govemo brasileiro com certeza sabia que essa seria a interpretação de suas ações pelos EUA e prosseguiu mesmo assim.

A disputa relacionada às operações de espionagem é o segundo maior confronto entre Brasil e EUA nos últimos três anos. O primeiro, envolvendo o Irã, teve custo maior e continua a provocar estrago, ainda que os laços do Brasil com o país do Oriente Médio tenham esfriado.

A revelação das operações de espionagem já frustrou duas tentativas de traçar um rumo mais cooperativo e menos contencioso para as relações Brasil-EUA. A visita de Estado da presidente Dilma teria sido a ocasião primordial para restaurar a boa vontade entre os dois países. Em boa medida, uma visita bem conduzida teria demonstrado a importância regional e global do Brasil na política externa americana, resultado que a maioria dos brasileiros claramente desejava. A decisão de comprar os caças da Boeing teria impacto ainda maior. Isso teria apagado a maioria das duvidas sobre o desejo brasileiro de aprofundar os arranjos econômicos e de segurança com os EUA e aberto caminho para nova cooperação tecnológica e militar. Nada no horizonte se aproxima da oferta de oportunidades na visita de Estado ou da compra dos jatos da Boeing. Por mais que sejam agora revistas pela Casa Branca, as operações de espionagem prosseguem.

Não há caminho fácil para solucionar o desacordo atual entre Brasil e EUA. Formalmente, a visita de Dilma foi apenas “adiada”, e não cancelada – assim ela pode ser remarcada, mas nenhum dos dois países se mostrou muito interessado em fazê-lo. E uma reunião de cúpula presidencial pode ser perda de tempo até que as tensões subjacentes sejam moderadas e ambos os governos tenham a sensação de que algo de concreto possa ser alcançado. A melhor maneira de começar pode ser os dois governos reconhecerem que o relacionamento entre eles enfrenta sério problemas e começarem a focar pesadamente em impedir qualquer deterioração adicional.

*Presidente Emérito do Diálogo Interamericano

Fonte: O Estado de São Paulo via NOTIMP